A esquerda bate cabeça na França

Não é mais novidade para ninguém que a conta da crise de 2008 está sendo paga pela população trabalhadora e pelo conjunto da sociedade que dela depende. Quase quatro anos depois da ruína do castelo de areia especulativo, os programas de austeridade são realidade em quase todos os países europeus. 


Os cortes atingem educação, saúde, aposentadorias, programas específicos de distribuição de renda e de assistência a camadas e recortes desprotegidos da sociedade. De quebra, entra em cena um conjunto de ataque ao estado de bem-estar social, com destaque ao tema da flexibilização de leis trabalhistas com vistas a facilitar os processos demissionários e a contratação em larguíssima escala de mão-de-obra em situação precária (empregos parciais, por tempo determinado, etc.). Nesse ponto em especial, não se trata apenas de um recuo momentâneo de um capitalismo em retração, mas implica em mudanças estruturais nas formas de organização e enfrentamento da classe trabalhadora, que sendo tomada por hordas de trabalhadores desprotegidos e com vínculos empregatícios frágeis coloca em risco todo o poder de barganha dos trabalhadores.   

 

Para finalizar a receita da tragédia, a privataria volta a ocupar papel de destaque em solo europeu e, enfim, a fórmula que deu origem à crise, é elevada à categoria de solução, protegida por um discurso de inevitabilidade e com apelos a um falso pacto social, que pauperiza a sociedade e que no fim ainda preserva ou amplia a renda das camadas mais ricas da população.

 

Durante esse período, também, grandes empresas francesas, italianas, portuguesas e espanholas, incluindo principalmente bancos, comemoraram, quase como que rindo da cara da sociedade, seus lucros recordes. Tal fato, contudo, não poupou trabalhadores dessas empresas dos programas de redução de pessoal: a mesma crise que serviu para que grandes empresas estendessem o chapéu aos governos em busca de cobertura para o rombo causado pelo desenfreado jogo de apostas em ativos duvidosos, serve como bode expiatório para diminuição do quadro de trabalhadores.

 

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Com esse quadro, não é à toa que a avaliação geral dos trabalhadores e dos pensadores críticos em relação às medidas tomadas para resolver a crise em quase toda a Europa foi de que os estados nacionais passaram a se comportar como meros coletores de tributos para as grandes instituições financeiras. Nem mesmo milhares de pessoas protestando continuamente nas ruas européias dissuadiram os governos de continuar com a obediência servil aos tais mercados.

 

Aqui entra em cena o mais trágico: era de se esperar que governos conservadores como os de Sarkozy na França e Berlusconi na Itália cumprissem com a agenda ortodoxa de combate à crise; triste, porém, foi constatar que mesmo os governos tidos como de centro-esquerda, como os de Zapatero (PSOE) na Espanha, Sócrates (PS) em Portugal, e Papandreou (PASOK) na Grécia, aceitaram de forma tão passiva, e às vezes com defesas fervorosas, os programas de austeridade impostos pelo mercado. Acaso isso estivesse ocorrendo no Brasil, não faltariam blogs-progs e a torcida organizada do governo justificando o que seria apenas mais um recuo em sua já combalida agenda progressista.

 

Dessa covardia da esquerda moderada podem-se perceber duas coisas: (i) a total incapacidade da esquerda em se reorganizar programaticamente desde a “queda do muro” em 1989, e responder criticamente à inevitabilidade do discurso neoliberal que se impôs como uma epidemia mundial desde então; e (ii) que resulta em uma desilusão da sociedade em relação à democracia representativa, que pode levar à ascensão de partidos conservadores de direita, igualmente incapazes em lidar com as crises estruturais do capitalismo, mas que respondem a elas com agendas que resultam em completo retrocesso social e agravamento da miséria e da desigualdade.

 

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Os dois aspectos juntos podem explicar como, por exemplo, diante do caos social estabelecido na Espanha e com o completo descontentamento da população daquele país ante o programa radical de austeridade fiscal colocado em prática, a figura de um populista neoliberal como Rajoy entra em cena. Mariano Rajoy, político conservador, vence as eleições para presidente do governo da Espanha em 2011, num cenário de recorde de abstenções nas urnas (menos de 60% dos espanhóis foram depositar seus votos), e leva debaixo do braço a radicalização das medidas de austeridade e uma completa consonância com o discurso do mercado. A covardia do PSOE desanima e desacredita seu eleitorado, ao passo que o vácuo por ele deixado deixa espaço para o conservadorismo do PP de Rajoy, que não fará outra coisa além de aprofundar a lama e o caos espanhol.

 

Com essa tragédia eleitoral espanhola em vista, é de se preocupar as declarações do Partido Socialista francês (veja aqui), nesse momento de corrida presidencial na França, elegendo a Frente de Esquerda como alvo prioritário: o partido clama pelo voto estratégico (talvez você já tenha se deixado levar por essa maldição pragmática em nossas últimas eleições no Brasil) em Hollande, ao passo que seus membros são instruídos a bater no candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, que começa a incomodar com seus 11% de intenções de voto, ante uma discreta queda do Hollande de 29 para 28%. A Frente de Esquerda, aliás, modera seu discurso na reta final com o objetivo de angariar alguma simpatia dos eleitores de… Hollande.

 

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Enquanto isso, Sarkozy, com os mesmo 28% de intenções de voto, segue seu discurso xenófobo. Percebeu que colocar a culpa em um inimigo externo pode ser lucrativo do ponto de vista eleitoral. Engrossou o discurso anti-imigração e ameaçou tirar a França do espaço Schengen (que permite livre trânsito de pessoas entre os países da zona da UE). Como resultado, passou de uma desvantagem de quase 10% em outubro de 2011 para o atual empate técnico com Hollande.


 

Enfim, mais uma vez a esquerda bate cabeça. A direita agradece. Os trabalhadores pagam a conta.

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