O baixíssimo nível da ideologização da discussão econômica, por Luis Nassif

Não existe nada mais desonesto intelectualmente do que a guerra “toma que o filho é teu”, em relação à herança de Jair Bolsonaro. Desde Michel Temer, há um esforço continuado de desmonte das estatais, visando sua privatização.

Historicamente, as estatais sempre tiveram papel fundamental no desenvolvimento brasileiro e do setor privado, entrando em setores que jamais seriam ocupados pela iniciativa privada, por falta de recursos e também pelos riscos embutidos em setores pioneiros. As estatais forneceram a base para o maior período de desenvolvimento brasileiro e estão sendo a base do desenvolvimento chinês.O Estado entra em setores-chaves, essenciais para o desenvolvimento privado, e que não estão ao alcance do setor privado – pelo volume de investimentos exigido e, principalmente, pelos riscos do negócio. A partir daí, monta-se toda uma constelação de empresas privadas garantidas pela estrutura montada.

Lembro-me das discussões dos anos 90, onde o jovem e superficial economista Paulo Guedes dizia que o grande erro do Brasil era não ter construído uma Petrobras privada. Na época, indaguei do maior capitalista do período, Walther Moreira Salles, o que achava da afirmação. Sua resposta foi definitiva:

  • Que bobagem! Ninguém teria recursos para construir uma Petrobras privada.

O modelo de financiamento da Petrobras, aliás, foi desenvolvido na casa de Wolf Klabin por um grupo de empresários e técnicos considerados liberais.

O nível da discussão econômica atual é dada por Sérgio Lazzarini, do Insper, em live do Valor. Segundo ele, “o Brasil não construiu um arcabouço sólido para evitar intervenções nas estatais”. E Jair Bolsonaro atua na linha nacional-desenvolvimentista”.

É inacreditável um professor, de uma universidade considerada de primeira linha, desenvolver tal nível de argumentação. O maior estímulo a um acadêmico é o reconhecimento de seus pares. Ao desenvolver tal nível de argumentação, Lazzarini não pretende reconhecimento intelectual, mas reconhecimento como ativista político.

É sabido que as cotações de petróleo se tornaram ativos financeiros, submetidos a toda sorte de especulação. Qualquer sinal para cima ou para baixo sofre um overshooting, devido à financeirização do ativo. O que diz esse gênio das guerras ideológicas?

  • Se o preço está aumentando lá fora, tem algum motivo. Esses sinais do mercado são importantíssimos.

São “importantíssimos” e devem ser tratados com subserviência, ainda que afetem a inflação, a estrutura de custos de toda a economia. Qualquer mente minimamente sofisticada estaria discutindo mecanismos de impedir esse atrelamento dos preços internos aos movimentos internacionais.

Mas ele repete os mesmos sofismas de sempre, sem nenhuma imaginação, conferindo aos acionistas a prerrogativa de representar toda a sociedade:

  • ˜Se a estatal perde, perde a sociedade que também é acionista.

Depois propõe genericamente que se criem mecanismos para evitar as oscilações sem prejudicar a empresa. Ótimo! Como especialista, acadêmico, porque não propõe? Porque aí a discussão se tornaria mais complexa, expondo a vulnerabilidade intelectual dos debatedores.

Nesse ideologismo cego, atribui a demissão de Roger Agnelli, da Vale, no ano de maior lucro da empresa, à influência do PT. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a demissão foi proposta pelos acionistas majoritários – comandados pelo Bradesco – depois de uma série de compras irresponsáveis de minas em várias partes, apostando que o boom dos minérios se manteria indefinidamente. Ou seja, não pensaram no próximo balanço, mas no futuro da companhia. Mas seria muito complexo para o nível de superficialidade da discussão atual.

E termina com um clássico:

  • Qual a função social da Eletrobras? Não sabemos, não foi discutido.

Que mané função social? A Eletrobras tem papel essencial na manutenção de tarifas módicas para toda a economia, inclusive impedindo explosões no mercado livre com a financeirização das contas de luz. Tem papel estratégico para a competitividade da economia como um todo.

A desonestidade intelectual consiste em ignorar o papel essencial de estatais estratégicas para a economia como um todo, depois submetê-lo ao teste exclusivo da “função social”. Se o BNDES não tem “função social”, se o Banco do Brasil não tem “função social”, então que se vendam todas.

O país merecia uma discussão mais inteligente e liberais de melhor nível, que se espelhassem em Roberto Campos e Octávio Gouvea de Bulhões, por exemplo.

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