Lava Jato deu crédito a Leo Pinheiro após mudar depoimento incriminando Lula

Diálogos revelam que depoimento sobre tríplex foi decisivo para que procuradores voltassem a conversar sobre delação com ex-presidente da OAS; antes disso Léo Pinheiro foi tratado com descrédito

Jornal GGN – O depoimento do ex-executivo da OAS, Léo Pinheiro, foi decisivo para incriminar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso sobre o tríplex de Guarujá (SP). Mas a versão do empreiteiro que determinou a prisão de Lula não foi sempre a mesma, como diversos jornais, incluindo o GGN, mostraram ao longo do processo.

A desconfiança era que a delação do ex-presidente da OAS pudesse ter sido, ao longo do processo, forjada pela Lava Jato para alcançar a finalidade de prender Lula. Pois é isso que revelam mensagens privadas obtidas pelo The Intercept Brasil e analisadas pela Folha de S.Paulo, publicadas em matéria neste domingo (30).

Os advogados do ex-executivo abriram negociações com a Lava Jato em fevereiro de 2016. Na mesma época, Lula foi denunciado pelo Ministério Público Federal sob a acusação de receber propina de R$ 3,7 milhões da OAS. Em troca, a empreiteira teria sido beneficiada em contratos na Petrobras. O montante que Lula foi acusado de receber correspondia, supostamente, ao tríplex em Guarujá e ao armazenamento e transporte do acervo presidencial.

Trechos revelados agora mostram que os procuradores da Lava Jato trataram Léo Pinheiro com desconfiança desde o momento em que ele se dispôs a colaborar com as investigações.

Depois de quase um ano, em abril de 2017, finalmente Léo Pinheiro apresentou uma versão incriminando Lula, e aceita no processo do triplex do Guarujá como provas da acusação contra o ex-presidente.

Segundo a última versão do empreiteiro, a OAS tinha uma conta informal para administrar recursos com o PT. Ele ainda havia sido orientado pelo próprio Lula a destruir as provas dessa relação financeira logo após o início da Lava Jato. Em um ano de tentativas de acordo com a justiça, era a primeira vez que Léo registrava um depoimento tão contundente e acusatório contra o ex-presidente.

Em uma discussão entre os colegas da Lava Jato, em agosto de 2016, via Telegram, o promotor Sérgio Bruno Cabral Fernandes, ao abordar negociações com os advogados da OAS escreveu:

“Sobre o Lula eles não queriam trazer nem o apt. Guaruja. Diziam q não tinha crime. Nunca falaram de conta”.

A conversa com outros procuradores acontecia uma semana depois que a revista Veja publicou trechos de anexos da delação, afirmando que a OAS revelou a existência de uma conta secreta usada para fazer pagamentos ao ex-presidente.

Os procuradores se mostraram surpresos, porque a suposta “conta clandestina” divulgada na matéria da Veja, não tinha fundamento. Uma procuradora Anna Carolina Resende Maia Garcia ainda firmou que a revista teria mencinoado sobre a conta clandestina de Lula na matéria por ‘estelionato eleitoral’. “Tá no título mas não está no conteúdo”, escreveu.

Leia o trecho:

26.ago.2016

Anna Carolina 19:52:11 – Tinha isso de conta clandestina de Lula?
19:52:19 – Esses Advs não valem nada
Jerusa 19:53:02 – Nao que eu lembre
Ronaldo 20:45:40 – Também não lembro. Creio que não há.
Sérgio Bruno 21:01:10 – Sobre o Lula eles não queriam trazer nem o apt. Guaruja. Diziam q não tinha crime. Nunca falaram de conta.

27.ago.2016

Anna Carolina 08:00:43 – Li a reportagem e ela tenho quase certeza q ela está fidedigna. Só não achei a parte da conta. Talvez tenha sido mais um estelionato contra o leitor. Tá no título mas não está no conteúdo
Jerusa 08:01:59 – Foi o que pensei tb. Pq nao houve mencao a essa conta

Os procuradores também acusavam os advogados de Leo Pinheiro de vazarem informações para a imprensa que não tinham passado para o MPF. Como mostra esse trecho de mensagens trocadas, alguns meses antes, em março de 2016:

2 de março de 2016

Paulo Roberto Galvão 14:01:02 – Pessoal, só para comentar: a notícia de hj deixa claro que a intenção de acordo vazou da própria empresa, pois ninguém tinha recebido qq informação sobre o que eles falariam.
14:01:33 – Por sinal, a primeira notícia de versão do LP sobre o sítio [de Atibaia] já é bem contrária ao que apuramos aqui.

14 de março 2016

Athayde Ribeiro Costa 18:37:47 – Esse acordo não vale moralmente.
Anna Carolina Resende Maia Garcia 19:06:07 – O danado é que esse critério (moral) é rígido demais…rs. Ninguém vai passar por esse crivo
Sérgio Bruno Cabral Fernandes 19:13:36 – Por enquanto tmb não vejo como fazer esse acordo. A dúvida é se encerramos logo ou damos corda.

Léo Pinheiro foi preso em setembro de 2016. A partir dali as negociações para um acordo de delação com o MPF foram congeladas até 2017, quando ele, interrogado pelo então juiz Sergio Moro no processo do tríplex, disse que a reforma do apartamento era para acertos que a OAS realizou com o PT.

Alguns dias depois de prestar depoimento para Moro, o coordenador da força-tarefa da Lava Jata, Deltan Dallagnol pediu cautela dos colegas para fechar um acordo de delação com a OAS naquele momento, para não parecer “um prêmio” pela condenação de Lula.

13.jul.2017

Deltan 17:10:32 – Caros, acordo do OAS, é um ponto pensar no timing do acordo com o Léo Pinheiro. Não pode parecer um prêmio pela condenação do Lula

Clique aqui para ler todos os trechos disponibilizados pela Folha e o Intercept ao longo do processo de idas e vindas dos depoimentos de Leo Pinheiro.

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