Salto no terceiro trimestre “esconde” economia frágil e sob risco nos EUA, por Lauro Veiga Filho

Auxílio federal ajudou a sustentar o avanço do consumo, mas vem perdendo ímpeto depois de sofrer corte de 51,4% em relação ao segundo trimestre

Salto no terceiro trimestre “esconde” economia frágil e sob risco nos EUA

por Lauro Veiga Filho

Os dados ainda preliminares sobre o comportamento da economia dos Estados Unidos no terceiro trimestre deste ano, divulgados na quinta-feira, 29, pelo escritório de análises econômicas do Departamento de Comércio (similar ao Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, encampando pelo Ministério da Economia desde o ano passado), mostram uma recuperação limitada na comparação com o desastre registrado no segundo trimestre, uma atividade econômica ainda abaixo dos níveis de 2019 e largamente sustentada pelas políticas de auxílio econômico adotadas desde a pandemia. O salto de 33,1% anunciado nem de longe reflete a realidade do trimestre e, ao contrário do que o número estrondoso sugere, não mostra a tal retomada em “V”, o mais novo fetiche do superministro dos mercados e sua turma por aqui.

Para ficar claro, a economia não sofreu um tombo de 31,4% no segundo trimestre e nem cresceu 33,1% no terceiro. Os EUA detêm o monopólio de coisas únicas e estranhas em suas contas nacionais e preferem projetar a taxa de crescimento registrada pelo Produto Interno Bruto (PIB) em um trimestre para os 12 meses seguintes (quatro trimestres), como se o mesmo resultado fosse se repetir trimestre a trimestre. Comparado ao trimestre imediatamente anterior, o PIB havia encolhido 9,0% no segundo trimestre e teria avançado 7,4% no trimestre seguinte, já que os números são ainda preliminares. Mas, mesmo com base nessa contabilidade, a matemática sugere que a economia sequer conseguiu repor as perdas do segundo trimestre, enquanto o país mergulha em uma segunda onda de infecções e mortes, com alguns Estados já adotando medidas mais restritivas à circulação de pessoas, o que certamente afetará o desempenho da economia neste último trimestre do ano, deixando sequelas e incertezas para o começo de 2021.

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A série de dados encadeados, a dólares de 2012, segundo o Departamento de Comércio, mostra que o PIB no terceiro trimestre alcançou perto de US$ 18,584 trilhões, frente a US$ 17,303 trilhões no trimestre imediatamente anterior e a US$ 19,011 trilhões no trimestre inicial deste ano. Tudo somado, ainda restaria uma perda ao redor de US$ 557,7 bilhões (o que se traduz numa retração acumulada desde o primeiro trimestre muito próxima de 2,9%).

Longo caminho

O mesmo vale para o consumo de bens e serviços, que despencou 9,6% entre o primeiro e o segundo trimestres para crescer 8,9% no terceiro (sempre lembrado que os dados correspondem a uma primeira prévia oficial sobre o PIB do período). Feitas as contas, o consumo ainda estaria quase 1,5% menor do que no primeiro trimestre. O consumo de serviços, uma das áreas mais afetadas pela crise e que responde por fatia importante do PIB, registrou baixas de 2,1% e de 12,7% no primeiro e no segundo trimestres deste ano, pela ordem, para apresentar um crescimento de 8,5% no terceiro, comparando ao período trimestral imediatamente anterior. As perdas acumuladas nos dois primeiros trimestres deste ano somaram US$ 1,278 trilhão e o “vigoroso” crescimento observado no terceiro trimestre foi suficiente para repor 48,4% do “prejuízo”, recuperando US$ 618,2 bilhões.

Os dados trimestrais apontam um cenário ainda de retração, sempre quando se toma como base igual período do ano passado, com a queda de 9,0% observada no segundo trimestre seguida por redução de 2,9% no terceiro trimestre, o que torna virtualmente inevitável uma redução do PIB norte-americano neste ano, depois de ter avançado em torno de 2,2% em 2019. O consumo de bens e serviços sofreu nova baixa no terceiro trimestre, caindo 2,9% em relação aos mesmos três meses do ano passado, e já havia desabado 10,2% no segundo trimestre. O consumo de serviços, analisado isoladamente, encolheu 14,0% e 7,2% respectivamente no segundo e no terceiro trimestres, de novo em comparação com iguais intervalos de 2019.

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O investimento privado parece estar em pior forma e ameaça acumular o quarto trimestre consecutivo de queda (apenas para ressaltar, serão 12 meses de encolhimento caso a primeira estimativa para o terceiro trimestre venha a prevalecer). O Departamento de Comércio já havia anotado redução de 1,0% no quarto trimestre de 2019 (sempre em relação a idêntico intervalo do ano anterior), seguida de baixas de 4,2% no primeiro trimestre deste ano, de 16,9% no segundo e de 3,8% no terceiro.

Auxílio federal

Uma fatia relevante do crescimento do consumo das pessoas durante os primeiros trimestres da pandemia foi assegurada pelas transferências de renda para as famílias e donos de empresas, como forma de compensar ainda que parcialmente as perdas trazidas pela crise e pelo desemprego, impedindo um mergulho ainda mais dramático da economia.

Segundo dados oficiais, as transferências relacionadas diretamente à crise gerada pela Covid-19 atingiram pouco menos de US$ 2,325 trilhões no segundo trimestre deste ano, o que correspondeu a 11,4% de toda a renda pessoal no período. A ajuda havia permitido que a renda experimentasse um avanço de 7,6% frente primeiro trimestre (sem o auxílio federal, a renda teria sofrido baixa de 4,6%). A renda disponível, descontados impostos e taxas, cresceu 9,6%, permitindo que os norte-americanos acumulassem uma reserva inédita de US$ 4,711 trilhões, correspondente a 25,7% da renda disponível. Para se ter uma ideia, no segundo trimestre de 2019, a poupança das famílias havia representado 7,3% da renda que sobrou depois dos impostos.

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Em torno de 41,0% dessa poupança foram torradas no terceiro trimestre, com as reservas baixando para US$ 2,783 trilhões (15,8% da renda disponível). O uso de uma parte das reservas ajudou a elevar o consumo, já que o auxílio pago pelo governo federal sofreu corte de 51,4% no terceiro trimestre, para US$ 1,129 trilhão. Como efeito dessa redução, a renda disponível sofreu baixa de 3,5% na comparação com o segundo trimestre, baixando de US$ 18,301 trilhões para US$ 17,664 trilhões. Caso o auxílio não seja renovado, a tendência é de que a poupança acumulada pelas famílias não tenha mais fôlego para sustentar o consumo, o que significaria aprofundar a crise neste final de ano e provavelmente nos primeiros meses de 2021.

 

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