Economia: Neocons sociopatas sacrificarão pobres da América Latina, Ásia e de todo o Sul Global, por Marcus Atalla

Os resultados do conflito são um aumento muito grande nos preços dos combustíveis, petróleo e energia, nos preços agrícolas com a oferta em declínio.

Divulgação/Ministério da Defesa da Ucrânia

Economia: Neocons sociopatas sacrificarão pobres da América Latina, Ásia e de todo o Sul Global

por Marcus Atalla

No dia 29 do mês passado, os jornalistas Katie Halper e Aaron Maté entrevistaram o economista e pesquisador do Levy Econimics Institute, Michael Hudson sobre os fatores e consequências econômicas envolvidos no conflito Rússia e Ucrânia/EUA. A entrevista foi transmitida pelo podcast Usefulidiots.

Katie Halper: Gostaríamos de começar perguntando se você poderia fornecer uma visão geral do que é a economia que impulsiona esse conflito entre a Rússia e a Ucrânia e, é claro, com o resto do mundo, ou o real conflito que é entre a Rússia e os EUA, e suas consequências econômicas.

Michael Hudson: Depende de que lado você está olhando. Do lado russo, não acho que os fatores econômicos foram primários. Eles foram ameaçados pela expansão da OTAN e um real plano para atacar as áreas de língua russa da Ucrânia. Penso que os cálculos da Rússia eram simplesmente militares. Os cálculos do Ocidente eram bem diferentes.

Os resultados do conflito são um aumento muito grande nos preços dos combustíveis, petróleo e energia, nos preços agrícolas com a oferta em declínio. Isso deixará a maior parte da África e da América Latina países do Sul Global, incapazes de pagar suas dívidas externas, o que resultará em um calote maciço da dívida ou resultará em um repúdio da dívida.

Os países vão ter que escolher. Se terão que operar sem energia, suas fábricas sem energia, e o consumo de energia per capita está diretamente ligado ao PIB nos últimos 150 anos. Cada gráfico mostra que o aumento no uso de energia, aumenta com o PIB e a renda pessoal.

Então, o que os países vão fazer quando não puderem pagar os preços mais altos pela energia? Bem, Janet Yellen, que era o chefe do Federal Reserve e, agora, é a secretária do Tesouro dos EUA diz: “O que vamos fazer é usar o Fundo Monetário Internacional para preservar a hegemonia unipolar dos Estados Unidos”. Em suma, ela disse que temos que manter o controle americano do mundo e vamos fazê-lo através do FMI. E isso significa, na prática, usar o FMI para criar direitos de saque especiais, que serão como dinheiro grátis, a maior parte do qual irá para os Estados Unidos para apoiar seus gastos militares no exterior nessa enorme escalada militar. E isso permitirá que o FMI vá aos países e diga: “Nós vamos ajudá-los a pagar suas dívidas, não ser executados e obter energia, mas é condicional”. Em condições normais: você tem que baixar seus salários; você tem que aprovar legislações antitrabalhistas; você tem que concordar em vender seus domínios públicos e privatizá-los.

A crise energética e alimentar causada pela guerra da OTAN contra a Rússia, será usada como uma alavanca não apenas para impulsionar as privatizações em maioria sob o controle de investidores, bancos e financistas dos EUA, mas também para prender países na órbita dos EUA durante todo o mais, tanto no Sul Global como principalmente na Europa.

Uma vítima obviamente será a Europa e o euro. O euro vem caindo em valor dia após dia, à medida que as pessoas perceberem que ele perde seus mercados de exportação à Rússia e em grande parte da Ásia, e agora também em casa, porque as exportações exigem energia para serem feitas. Seus custos de importação estão subindo, especialmente energia. Agora concordou-se em usar US$ 3 bilhões para construir novas instalações portuárias para comprar gás natural dos EUA, gás natural liquefeito por três a sete vezes o preço que está pagando agora, o que tornará quase impossível às empresas alemãs produzir fertilizantes para cultivar colheitas na Alemanha.

A maior queda de todas foi o iene japonês, porque o Japão importa toda a sua energia, a maior parte de seus alimentos e mantém suas taxas de juros muito baixas para apoiar o setor financeiro. Desse modo, a economia japonesa está sendo sacrificada e espremida. Eu acho que isso não é um acidente. Isso faz parte do plano, porque agora os Estados Unidos podem dizer: “É claro que não queremos que seu iene caia tanto e que seus consumidores tenham que pagar mais. Nós lhe daremos direitos de saque especiais e também ajuda americana. Mas queremos que você reescreva sua constituição para poder ter armas atômicas em seu solo para podermos lutar contra a China até o último japonês. Assim como estamos fazendo na Ucrânia, deixe-nos fazer isso por você”

E, claro, os japoneses adorarão isso. O governo adora essa ideia. Eles adoram sacrificar a população, é o que eles vêm fazendo desde o Acordo do Plaza e do Louvre da década de 1980, que basicamente destruiu a economia industrial japonesa de um enorme crescimento para apenas um encolhimento em massa.

Então, esses são os efeitos econômicos da guerra. E no jornal, você acha que a guerra é sobre ucranianos e OTAN lutando contra russos, ou é uma guerra dos Estados Unidos para usar o conflito OTAN-Rússia como um meio de manter o controle sobre seus aliados e todo o mundo ocidental, nas palavras de Janet Yellen, restabelecer o poder unipolar americano.

Aaron Maté: Assumindo ser essa a estratégia dos EUA, levando seu argumento ao pé da letra, você acha que essa estratégia terá sucesso?

Michael Hudson: Em última análise, será autodestrutivo. E quase todo discurso político e militar dos EUA tem a frase: “Puxa, não queremos que a América atire em si mesma”. E obviamente todos eles estão preocupados com isso. É uma grande aposta.

Aparentemente, os militares nem sequer foram consultados sobre as sanções impostas contra a energia russa. E não foram consultados nem mesmo sobre os planos do Departamento de Estado e da Segurança Nacional pelos neoconservadores que estão comandando a guerra da OTAN. Obviamente, há muitas dúvidas nos militares estadunidenses, mas eles não falam nada. É isso que eles fazem.

É incrível que na Europa a única oposição a isso venha da ala da extrema-direita, pessoas como Marine Le Pen. Não da ala esquerda. Então, a ala esquerda na Europa… eu não deveria dizer a esquerda, eu deveria dizer os que são agora a ala de centro-direita, os partidos social-democratas, o Partido Trabalhista, esses são os partidos que estão completamente por trás da OTAN. E não parece haver um imperativo político nesses países, exceto seguir a política que vai apertar seu balanço de pagamentos e prendê-los na dependência dos Estados Unidos.

Então, o que parece estar acontecendo se não houver luta por parte da Europa? Obviamente, se você olhar para a votação das Nações Unidas sobre apresentar uma política contra a Rússia, muitos países se abstiveram ou votaram contra. Então, o grande resultado econômico é estrutural. Significa que existe uma cortina de ferro entre o mundo ocidental branco – Europa e América do Norte – e a Eurásia – China, Índia e Rússia. E se você tem China, Índia e Rússia ou o que Mackinder chamou de Eurásia, o núcleo do mundo – então, você vai ter o resto da Ásia vindo junto? A questão será: o que acontece com Taiwan, Japão e Coréia do Norte? Eles estão praticamente em disputa. Há dois dias, o líder da OTAN, Stoltenberg, disse que a OTAN tem que ter uma presença no mar do Sul da China, a OTAN tem que defender a Europa no Pacífico, na China. Portanto, você pode ver o conflito que está chegando lá. E acho que você também teve um membro da OTAN, um político europeu negociador dizendo que esta guerra não pode ser resolvida economicamente, nem pode ser resolvida por tratado. Só pode ser resolvido militarmente.

Bem, então você está de volta, como os militares vão afetar a economia? A Rússia não pode se dar ao luxo de perder, porque se perder, a OTAN vai colocar armas atômicas bem na Ucrânia, bem perto de sua fronteira, como quer fazer na Letônia e na Estônia. E os EUA, aparentemente, estão tomando uma posição: Não podemos perder, se perdermos, Biden não será reeleito. E Biden aparentemente está agora conduzindo a campanha militar e econômica com vistas de como pode ser reeleito em novembro.

Em 2024, a única variável real na estratégia americana será o próprio público americano, que, infelizmente, quase não discute sobre o que estamos falando hoje, exceto seu programa e alguns outros sites na internet.

Aaron Maté: Deixe-me perguntar sobre a Rússia. A Rússia pode se dar ao luxo de resistir a tudo isso? Enquanto estamos falando, a Rússia recentemente cortou as entregas de gás para a Polônia e a Bulgária. Digamos que outras partes da Europa sigam o exemplo e se recusem a pagar em rublos pelo gás, como Putin exigiu. A Rússia pode se dar ao luxo de impedir que mais países recebam energia russa, ou Putin está blefando?

Michael Hudson: Não, é claro que pode se dar ao luxo de cortar, a Rússia é praticamente autossuficiente. Foi como sobreviveu aos anos 1990 e à terapia de choque. Qualquer país que possa sobreviver à terapia de choque, nada mais será tão sério novamente. Então, já está demonstrado que pode sobreviver, há 20 anos, há 30 anos. E pode sobreviver muito melhor do que a Europa poderia.

Aaron Maté: Você está sugerindo que a Rússia pode enfrentar isso novamente?

Michael Hudson: Não, não vai ser tão sério de novo, agora ela tem o apoio da China, Índia e outros países. Antes ela foi completamente desmontada por dentro. Agora, não. Ela reconstruiu o suficiente da sua economia e fez ligações suficientes com outras economias que a apoiam politicamente. Porque Biden disse repetidamente: Temos que destruir a Rússia, porque se destruirmos a Rússia, vamos separá-la da China, e então podemos ir contra a China como nosso verdadeiro inimigo. Então, temos que cortar o mundo potencialmente oposto a nós, primeiro a Rússia e depois a China, talvez a Índia também. E ele foi muito explícito nisso, então você pode imaginar onde isso deixa a China e a Índia. A Índia já disse: “Bem, veja, estamos economicamente ligados à Rússia. Nós vamos continuar a nos conectar.”

As reservas estrangeiras da Rússia foram roubadas no Ocidente. Vai juntar-se basicamente com a China para criar algum tipo de swap cambial mútuo, como os Estados Unidos fazem com a Europa e outros países, para manterem a moeda uns dos outros. E a China sabe que, em última análise, será reembolsada através de um novo gasoduto que entregará gás a ela. Então, foi tomada uma decisão na Rússia de se desvincular do Ocidente. Certamente, dissociando-se da Europa, dos Estados Unidos, exceto para o comércio marginal, e reorientar-se para o resto do Ocidente, pois não pode mais negociar nesses termos.

Então, sim, vai ser doloroso. Mas o povo russo, que recebe um relato muito diferente da guerra, da violência e do terrorismo que está acontecendo do que a imprensa americana. 80% dos russos parecem estar apoiando Putin. Não é como nos anos 90, quando eles estavam totalmente desmoralizados.

A luta militar não vai terminar este ano ou no próximo ano. Vai levar pelo menos 30 anos. E terminará provavelmente com uma cisão entre a Europa e o Ocidente, por um lado, e a Eurásia, por outro, com cada vez mais África e América do Sul se ligando à economia eurasiana à medida que a Europa e as economias americanas encolhem.

Quase todo mundo vê o encolhimento. O presidente Xi disse outro dia que a economia americana está encolhendo, e certamente a economia europeia também está, por mais uma década ou enquanto continuar o curso neoliberal. Isso é bastante óbvio, vai encolher!  Xi também disse que é porque uma economia centralmente planejada, ou como chamam, socialismo ou marxismo com características chinesas, é mais eficiente que a democracia, porque a democracia realmente se transforma em oligarquia muito rapidamente, e a oligarquia se transforma em uma aristocracia hereditária.

O Ocidente não é mais uma democracia. O Ocidente está se transformando em uma aristocracia hereditária. E os chineses estão tentando impedir que sua classe financeira se torne uma classe independente, indo contra políticas que empobrecem o trabalho, porque para eles o banco e o crédito ainda são uma utilidade pública. Esse é o setor mais importante a ser protegido na China, e é isso que torna a China tão diferente dos Estados Unidos. Você poderia dizer que os banqueiros e Wall Street são os planejadores centrais dos EUA, e seu planejamento central é a favor do setor financeiro, de seguros e imobiliário, e os banqueiros estão encarregados da China através do Tesouro, administrado pelo partido e por funcionários que não estão procurando em obter ganhos de capital para famílias ricas, mas estão usando o financiamento para construir sua indústria e infraestrutura e se tornarem independentes do Ocidente.

Aaron Maté: E se você fosse prever os primeiros lugares que veremos uma grande queda e uma grande agitação como resultado dos preços mais altos das commodities devido à guerra na Ucrânia, onde será?

Michael Hudson: Eu diria que na América Latina, na África, nos países do terceiro mundo que não seguiram a política do Banco Mundial nos últimos 70 anos e não produziram seus próprios alimentos, mas produzem as culturas de exportação, então dependem da importação de alimentos, principalmente do Grão americano e importação da energia americana. E provavelmente o jogo econômico central da guerra da OTAN contra a Rússia foi reconcentrar o controle do comércio mundial de energia nas mãos de companhias petrolíferas americanas, inglesas e holandesas.

Basicamente, as companhias de petróleo e os EUA vão deixar os países do terceiro mundo entrarem em crise. Se eles derem calote em seus títulos, os Estados Unidos e os detentores dos títulos poderão tratar a América Latina como trataram a Argentina ou a Venezuela e pegar quaisquer ativos que tenham fora de seu país. Como a Venezuela tinha investimentos nos EUA e ouro no Banco da Inglaterra que foram arrebatados.

Haverá uma grande captura de ativos. Supõe-se que é assim que isso se desenrola, e os ativos mais óbvios para os agarrados estarão na América Latina e na África. Talvez alguns países deficitários asiáticos. Então, esse é o elo mais fraco, e é por isso que há essa luta dentro do FMI nas próximas reuniões, para criar esses direitos de saque especiais para dar dinheiro a eles sob a condição de que haja uma guerra de classes.

Então, o que estamos vendo, na verdade, não é uma guerra entre a OTAN e a Rússia. É uma guerra de classes dos neoliberais contra o trabalho em todo o mundo para estabelecer o poder das finanças sobre o trabalhador.

Aaron Maté: Então, você acha que há a ameaça de uma crise de fome ainda pior neste mundo, uma que não estamos falando e deveríamos estar nos preparando para isso?

Michael Hudson: Uma ameaça? Esse é o objetivo! Sim claro. É isso que eles pretendem. Se você ler o que Klaus Schwab diz no Fórum Econômico Mundial, ele disse que há 20% de pessoas a mais no mundo, especialmente no Sul Global. É para isso que servem todas as grandes fundações. Os bilionários, todos eles dizem: “Temos que diminuir a população, há muitos consumidores que não produzem riqueza suficiente para nós. Se eles produzem riqueza para si mesmos, isso não conta, porque isso não é para nós. Então, sim, isso não vai ser um acidente. Obviamente, qualquer um que observe as tendências econômicas básicas pode ver que isso é inevitável, e você tem que supor que isso foi discutido como parte de todo o grande plano neoliberal do governo Biden e do Deep State por trás dele. Ouça a entrevista toda de 1h e 24 min. [aqui]

Marcus Atalla – Graduação em Imagem e Som – UFSCAR, graduação em Direito – USF. Especialização em Jornalismo – FDA, especialização em Jornalismo Investigativo – FMU

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