Bruno Lima Rocha
Cientista político, pós-doutorando em economia política, professor de relações internacionais e jornalismo.
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Rumos e ameaças ao Brasil no caminho da multipolaridade, por Bruno Lima Rocha

Brasil é exemplo de “middle power”, e com propensão a “liderar” o bloco continental, senão em toda América Latina, ao menos na América do Sul

do Estratégia & Análise

Rumos e ameaças ao Brasil no caminho da multipolaridade

por Bruno Lima Rocha

Rumos do Brasil? – 1

A delegação brasileira liderada pelo presidente Lula estava indo para a China, quase chegando na verdade, no exato instante em que começava a escreve estas palavras que resultam em artigo. Se metade dos acordos anunciados sair, já muda o jogo no país, no Continente e pode colocar o Brasil em rota de encontro com o capitalismo chinês e em colisão frontal com as projeções de poder dos EUA (https://www.washingtonpost.com/politics/2023/04/14/china-brazil-lula-xi-jinping/cad24430-da7e-11ed-aebd-3fd2ac4c460a_story.html).

Não é pouco o que se apresenta. Os dois maiores desafios do planeta são reduzir a desigualdade sócio econômica e promover uma economia de baixo carbono. Por outro lado, em pleno ocidente, um quarto do eleitorado e boa parte das frações de classe dominante projetam o caos sem mais nem menos e a desagregação social através da manipulação de redes sociais – incluindo estas pelas quais trafegam as linhas aqui escritas.

As saídas dos problemas do Brasil dentro de um capitalismo parcialmente soberano formam o sistema de solução para a América do Sul e talvez a América Latina toda. Até aí todos sabemos.

A incógnita é aferir qual a capacidade de melar o jogo das frações de classe dominante (o empresariado que não se poupou no apoio a Bolsonaro e cogitou golpe de Estado) ou arrivistas (como as elites políticas bolsonaristas) no cenário doméstico? Ou, o que o governo dos EUA vai fazer, estando ou não próximo da social-democracia brasileira (na lógica do inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo)?

Considerando as “realizações” do governo Obama 1 e 2, com o Projeto Pontes e as operações de Lawfare que até o presente momento inviabilizam ao menos dois sistemas políticos (Argentina e Peru), podemos esperar tudo e mais um pouco.

Rumos do Brasil? – 2

O Brasil é um exemplo de “middle power”, e com propensão a “liderar” o bloco continental, senão em toda América Latina, ao menos na América do Sul e definitivamente no Cone Sul. Isso já quase ocorreu ao menos na virada do segundo governo Lula para o 1o de Dilma e agora em 2023 o desenho em termos do Sistema Internacional está ainda mais favorável.

As condições para tal projeção de poder – e sem poderio militar incluído – estão mais que dadas, se e caso o país solucionar a sua asfixia com o rentismo e a vocação renovada de ser primário exportador. O alinhamento de FIESP e CNI com o novo governo, reeditando o pacto de classes de Lula e José Alencar está sendo reeditado pelo atual presidente e o vice várias vezes governador de 40% do PIB nacional, Geraldo Alckmin.

Alerto aos ufanistas de plantão que não se trata de tarefa fácil. O gargalo da relação Poder Executivo, Indústria e elite paulista foi o mesmo – O MESMO – que levou Vargas ao suicídio e pode estar sendo reeditado neste momento. Outro gargalo é o reconhecimento de que há uma parcela considerável do aparelho de Estado assumidamente protofascista, especialmente nas carreiras militares, jurídicas, correcionais e policiais. Exemplos não faltam. A bancada da bala e a Sessão da Tarde dos Horrores na Comissão de Segurança Pública da 3a 11/04 (https://www.camara.leg.br/noticias/951902-audiencia-com-o-ministro-da-justica-na-comissao-de-seguranca-publica-termina-em-tumulto/), quando mais uma vez o senador eleito Flávio Dino (PSB/MA) e ministro da Justiça foi exposto em situações vexatórias e pantomimas é a prova disso. A laia bolsonarista pode não ter disposição para a defesa do país, mas para agir na luta intestina “topam tudo por mais recursos e espaços”. Qualquer semelhança com os “tigres da repressão política argentina” (como Alfredo Astíz – https://www.rtve.es/noticias/20111027/alfredo-astiz-represor-se-rindio-malvinas-sin-disparar-tiro/471339.shtml) e a vergonhosa conduta destes militares profissionais diante dos regimentos britânicos na Guerra das Malvinas (https://www.telam.com.ar/notas/202206/595340-rendicion-argentina-malvinas.html), não é nenhuma coincidência.

Aí entra o outro fator. A “frente interna” de um processo nacional desenvolvimentista implica em um discurso de soberania nacional com perfil popular. Implica em luta popular – luta de classes – em pleno pacto social. Pode mudar, mas do jeito que está, sem classismo (que aponta para o avanço das conquistas populares) e sem mobilização de estilo nacional-populista (ratificando o pacto de classes mas com bandeiras de soberania e desenvolvimento), simplesmente a conta não fecha. De novo não fecha.

Rumos 3 – Brasil, China e o multilateralismo ativo

O discurso do presidente Lula em Xangai (https://www.cartacapital.com.br/politica/o-discurso-de-lula-na-posse-de-dilma-rousseff-no-banco-dos-brics/) é muito revelador das possibilidades abertas do multilateralismo brasileiro. Não me surpreenderia alguma conversa informal entre a alta hierarquia diplomática do Ministério das Relações Exteriores do Brasil com a chancelaria da França, porque o recado do banqueiro Macron veio na semana anterior do anúncio da ampliação da carteira de projetos do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB na sigla em inglês), justo sob o comando da ex-presidenta Dilma Rousseff. Imediatamente os recados vieram, e não foram nada sutis.

Não é a toa que o senador Sergio Moro (União Brasil / PR) já manifesta preocupação (https://twitter.com/SF_Moro/status/1646654799662792708), reproduzindo uma matéria do Washington Post com recados editoriais vindos diretamente do Departamento de Estado e do Pentágono (https://www.washingtonpost.com/world/2023/04/13/lula-foreign-policy/?utm_campaign=wp_main&utm_source=twitter&utm_medium=social). Supreendentemente o ex-presidente dos EUA Donald Trump acerta na observação em entrevista para a Fox News em postagem difundida pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL/SP). O ex-dono e gerente de cassino afirma o óbvio (https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1646584496639057920) quando diz “nosso poder está na nossa moeda, se o mundo comercializar com moeda chinesa ou outras moedas, é como perder uma guerra mundial”.

Será que a administração Joe Biden vai contar com o “deep state” para tentar conter o avanço da economia brasileira em um sistema multipolar? Ou vão apelar para o trumpismo tropical que já opera no Brasil e exerceu o Desgoverno Bolsonaro por vastos quatro anos, antecedido pela tenebrosa gestão Temer e o nefasto papel de militares de alta patente sob a batura dos generais Sergio Westphalen Etchegoyen (liderando nas sombras) e o 01 no comando do Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. Como já escrevemos anteriormente, a generala a frente do comando sul dos EUA nesta administração Joe Biden e Kamala Harris, Lt General Laura J. Richardson repete por seguidas vezes a preocupação da superpotência decadente quanto a presença da China na economia e nas cadeias de alto valor agregado da América Latina (https://cuencahighlife.com/u-s-southern-command-general-warns-of-growing-chinese-influence-in-latin-america/).

O alerta está feito e todos os operadores sérios da defesa interna assim como a vultosa comunidade acadêmica e de especialistas no jogo duro das relações internacionais sabem perfeitamente bem o que pode vir a ocorrer. Ainda que o momento político seja positivo – uma vez que a extrema direita se vê contra a parede e fraturada em todos os flancos -, não é possível novamente confiar de forma cega (ou seja, sem o devido preparo e antecipação de cenários) de outra traição da liderança industrial do país. A única saída da indústria é a única via de desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Isso pouco ou nada tem relação com a luta de classes de forma direta (infelizmente), mas sim com a divisão internacional do trabalho e da criação de riquezas com garantia de prosperidade para mais da metade da população.

Não é pouco e para os EUA é muito, muito (https://www.washingtonpost.com/politics/2023/04/13/brazil-china-lula-xi/48d671e6-d9bf-11ed-aebd-3fd2ac4c460a_story.html)! A julgar pelo melancólico comportamento da defesa interna em 2009 – quando a metástase da Lava Jato e do Lawfare foi instaurado no Brasil e na América Latina – realmente é preciso preocupação e antecipação.

Bruno Lima Rocha é cientista político, jornalista e professor de relações internacionais ([email protected] / www.estrategiaeanalise.com.br)

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Bruno Lima Rocha

Cientista político, pós-doutorando em economia política, professor de relações internacionais e jornalismo.

2 Comentários

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  1. Quando do primeiro contato do Brasil com a China, sob Jango, nos sobreveio um período de 21 anos de ditadura militar IMEDIATAMENTE. O primeiro presidente eleito diretamente pelo povo após esse período foi Fernando Color, em 1990, sob um país destruido economicamente. O país só respirou um pouco no período Lula/Dilma, que devolveu ao povo o senso da nacionalidade, pelo menos, e alguma esperança. Os governos posteriores, não só destruiram o que a era Lula/Dilma nos concederam como nos retrocedeu ao tempo da ditadura. Estamos pobres, dependentes, sem indústria, sem infraestrutura e o nosso povo passa fome. Nossas riquezas continuam sendo exploradas e nossa elite festeja o parasitismo do que nos resta. Lula, quase milagrosamente eleito, retorna, sem medo, com esperança de aço e a ousadia própria dos visionários. Diferentemente do Jango, que foi durante a crise local para a China, Lula foi depois. Esperemos que essa percepção de tempo faça toda a diferença nos destinos do país e quiçá da América do Sul.

  2. Ao contrário do que alguns analistas dizem, Lula não está sendo ingênuo. Mas está jogando um jogo difícil, em que está sempre no fio da navalha. Afirmar uma posição soberana aproveitando as oportunidades e contradições numa “briga de cachorros grandes”, nunca é algo simples. A potência decadente do Tio Sam pode, a qualquer momento, sabotar o governo, como fez com a Dilma. Não temos acesso às informações, as barganhas que ocorrem nos bastidores, não publicáveis. Mas é uma arranjo tenso e frágil. Tempos difíceis se avizinham. A derrocada de um império sempre deixa um rastro de destruição. Será difícil atravessarmos incólumes este processo.

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