Brasil está sendo tocado como se fosse uma empresa, critica Amorim sobre Embraer


“O Brasil está sendo tocado como se fosse uma empresa”, critica o ex-ministro – Foto: Antônio Araújo / Câmara dos Deputados
 

Sugerido por Jackson da Viola

Diplomata e ex-ministro analisa os impactos de uma possível venda da Embraer
 

Do Brasil de Fato

Por Leonardo Fernandes

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa durante os governos Lula e Dilma, defende o caráter estratégico da Embraer diante da perspectiva de repasse de seu controle acionário à corporação estadunidense Boeing. 

Para ele, a iniciativa ventilada pelo governo federal desperta preocupação por ferir a soberania e vulnerabilizar a defesa aérea do país.

Confira a seguir alguns trechos da entrevista.

Brasil de Fato: Como o senhor vê a possibilidade da venda ou fusão da Embraer para a Boeing, sob o ponto de vista estratégico?

Celso Amorim: O último livro que escrevi se chama A grande estratégia do Brasil. E por que eu chamo de a grande estratégia do Brasil? Porque mistura política externa com política de defesa, de certa maneira. E, olhando as coisas pelo ângulo da grande estratégia do Brasil, seja em política externa, seja em política de defesa, esta questão da venda da Embraer é um desastre absoluto. 

Defensores da proposta argumentam que, após a fusão da francesa Airbus com a canadense Bombardier, a Embraer perderia poder de competitividade. Como o senhor avalia?

Uma coisa é a visão empresarial. Eu sei que há tempos alguns dirigentes da Embraer já estavam pensando numa associação com a Boeing. Não nesses termos de aquisição, mas em alguns termos de associação.

Mas o que acontece é o seguinte: a Embraer é estratégica por várias razões. Ela participa e deveria continuar participando [da construção] dos nossos aviões militares. Então é estratégica do ponto de vista tecnológico ou do ponto de vista da defesa, porque vão ser produzidas aeronaves que são essenciais para a proteção do nosso espaço aéreo. Por isso o governo [anterior] conservou o que chamam de Golden Share, ou seja, uma ação com poder de veto, e eu acho que isso tem que ser usado para impedir essa fusão. 

Qual o posicionamento dos militares brasileiros diante desta iniciativa?

Infelizmente eu não tenho falado com ninguém da Aeronáutica, não tenho tido oportunidade para fazer isso. Eu acredito que eles devam estar muito preocupados. Pelo menos os verdadeiros patriotas, que são obviamente a maioria, e aqueles que estiveram envolvidos no desenvolvimento tecnológico [da empresa]. 

Quando houve a decisão da presidenta Dilma de que nós faríamos a associação com a empresa sueca [Saab], o comandante da Aeronáutica, meu amigo, pessoa por quem tenho grande estima, o Brigadeiro Saito, fez uma festa, uma festa verdadeira. Vieram brigadeiros da reserva, porque aquiloera uma coisa extraordinária. E por que nós fizemos a opção pelos Gripen?Por causa da forte transferência de tecnologia,  a abertura da tecnologia para que nós mesmos pudéssemos fazer inovações, algo que se chama, nessa área, de código-fonte.

Agora, veja só: a Saab vai transferir suas tecnologias para o Brasil, vai abrir o código-fonte do sistema de armas, vai fazer isso se a Embraer estiver associada a uma empresa norte-americana ou de qualquer outro país? Não, não vai fazer. 

A decisão de realizar esse acordo poderia ser tomada exclusivamente pelo Executivo?

Nós tivemos que discutir muito com o Congresso Nacional, inclusive as cláusulas de financiamento. Nós tivemos sempre grande transparência com as comissões de Defesa e Relações Internacionais do Senado e da Câmara. 

Muitos nacionalistas, não só do PT, mas de outros partidos, deveriam buscar um relato detalhado, explorar questões como as que eu mencionei, ouvir pessoas da Aeronáutica que são muito mais técnicas do que eu sobre o assunto.

Como ficaria a soberania do país com a perda da Embraer?

A soberania é o que tem menos prioridade em todas as políticas que estão sendo levadas adiante. O Brasil está sendo tocado como se fosse uma empresa. Questões fundamentais, que dizem respeito à capacidade de ação autônoma do país, de proteção dos seus interesses, não são levados em conta. Estamos vendo isso na indústria naval, onde não há nenhum interesse em manter as compras da Petrobras que foram absolutamente fundamentais para o desenvolvimento, afetando muito o meu estado, onde eu vivo, que é o Rio de Janeiro. Não há nenhuma preocupação sobre isso em relação à Eletrobras.

Quer dizer, o Brasil vai virar uma espécie de parque temático. No parque temático você pode ir na roda gigante, pode ir no trem fantasma… Aqui você vai olhar e dizer: isso aqui é da China, isso é da Rússia, isso é dos Estados Unidos, isso é dos europeus, ou seja, muito triste. Soberania não está no radar das pessoas que estão dirigindo o país de maneira prioritária.

Edição: Thalles Gomes

 

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8 comentários

  1. Pior ainda: sendo tocada como uma filial, subsidiária…

    Nossa desprezível, nefasta e submedíocre zelite é composta meramente de capatazes e corretores da nação…

    Seriam condenados à morte na maioria dos países que têm um mínimo de soberania e sentimento de nacionalidade.

    Ex: EEUU, UK, China, França, Rússia, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Noruega, Sécia, Dinamarca, Finlândia, Coréia(s!)…

    (não inclui Alemanha e Japão porque apesar de terem altísima nacionalidade, são “mais ou menos” ocupados).

    O que será que esses países têm e nós não temos, hein?

    Já sei: Bala? Forca? Guilhotina? Cadeira Elétrica? Câmara de Gás? Injeção letal? Garrote Vil?

    Puxa, não precisamos de nada disso…bastam prisões agrícolas perpétuas para toda essa “gente boa” de mais de 5 séculos…

    Se nada aprenderem, pelo menos produzem!

  2. Brasil….

    Tinha certeza do posicionamento de Celso Amorim. Somos um país de Lunáticos. Depois da revolução que nos catapultou à vanguarda das questões mundiais, elevando nossa Diplomacia  e Políticas Internacionais à condição natural dos maiores países do Mundo, o próprio governo a que pertencia, destituem Celso Amorim e Samuel P. Guimarães. É caso de Sanatório !!!    

  3. Farnborough (UK ) Air Show – Julho de 2012

         Por ocasião desta feira foi celebrado o 3o acordo entre a Embraer Defesa & Segurança (  EDS – a epoca com o Aguiar ), e a Boeing Defense,Space and Security ( BDSS a época com o Muilenburg ), referente a integração de equipamentos da BDSS ( como a JDAM e as SDB ) nos A-29, visando a participação no programa USAF / LAS , o que contribuiu muito com a vitória do A-29B na aquisição afegã como na libanesa.

          2o Acordo :  Em junho de 2012 a EDS e BDSS firmaram um acordo referente ao ainda ” Programa KC-390 ” ( antes da revisão do projeto em 2013 e do 1o voo em 2015 ), no qual a BDSS atuaria no “marketing mundial” da aeronave em areas na qual a EDS não tinha acesso, e colaboraria – teoricamente – fornecendo expertises colaborativas com seu “produto” C-17 ( na real a BDSS ofereceria o KC-390 como uma aeronave de apoio conjunto a seu C-17 ).

          1o Acordo : Firmado em abril de 2012 como ” amplo acordo de cooperação” , bem genérico, que a época pensou-se ser relativo a licitação FX-2, mas como sendo muito vago em seus quesitos, varias interpretações foram consideradas, culminando que mesmo após a seleção do JAS-39 ( SAAB ) pela FAB, a Boeing ( holding ) com a abertura em 2014 do Boeing Research Center em SJ Campos, cooptando engenheiros em varias universidades nacionais e ex-Embraer, mas aos mesmo tempo aproximando-se cada vez mais da Embraer Comercial.

          Quem era governo em 2012 ?

           Não percebeu o que Dona Donna estava armando ?

    • Farn….

      Caro sr. aurelio…: somos primários, somos amadores. Uma das maiores potências mundiais nas mãos de inocentes e incompetentes. Pasto para qualquer rapinagem rasteira. Que nível baixo que temos?!! abs. 

    • A evolução natural da Embraer

      A evolução natural da Embraer seria começar a entrar nos mercados da Boeing enquanto o contrário seria improvável. Essa ameaça mais a possibilidade da Embraer se tornar o principal player do mercado de veículos aéreos elétricos que está pra nascer pode ter sido mais decisivo do que a questão Airbus-Bombardier.

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=dXfANkUIAlM%5D

       

      • Papo furado, já nasceu

            O Paulo fala, lingua não tem osso, mas ele sabe – nós sabemos – todos sabem – que tanto a Boeing ( HorizonX ) como a Airbus ( CityAirbus ) estão anos-luz na frente dos sistemas elétricos aereos contributivos, e preferenciais parceiras das UberAir da vida.

             E o maior obice destes sistemas ficarem operacionais não é relativo ao “veiculo/sistema”, mas sim ao aceite dos orgãos reguladores que interessam, no caso ocidental o americano ( FAA ) e o europeu ( EASA ), que claro irão “puxar” as certificações para seus “eleitos”.

  4. Nem como empresa está
    Nem como empresa está funcionando. Uma empresa de alto nível tem que ter visão estratégica, geopolítica e de futuro, quase como se fosse um pais.

  5. chocado mas não surpreso

    Com a zelite que temos não me surpreende mais.

    Vamos ser orgulhosamente o celeiro do mundo e importador de tudo mais.

    Como no seculo XIX.!!!!

    Podiamos inicial conversações com Portugal para nos tornamos colonia novamente.

    (desconfio que não aceitem!!!!)

    Com a vantagem que seriamos membros da UE, por vias tortas!. 

    Triste!

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