O fomento ao setor hoteleiro, na década de 1920

Enviado por Motta Araujo

Matéria histórica sobre os grandes hotéis brasileiros nos anos 20, o Glória, o Copacabana Palace, o Esplanada e Excelsior em São Paulo, seus projetos e acionistas, as famílias Guinle, Crespi e Prado, o arquiteto francês é o mesmo em todos.

Do Arquivo Histórico de São Paulo

A política de fomento para os “grandes hotéis” paulistanos da década de 1920

O centenário da Independência

As comemorações da Independência do Brasil em 1922, associadas quase certo a um clima de recuperação lenta após as perturbações que a I Guerra Mundial geraram na economia mundial, criam condições especiais de desenvolvimento que exigem, contudo, ações estudadas.

No campo que interessa aqui, o desenvolvimento hoteleiro, as necessidades locais por grandes empreendimentos não foram atendidas. No entanto, curiosos elos irão ligar certos marcos do setor como o paulistano Esplanada Hotel e os cariocas Hotel Glória e Copacabana Palace. Todos eles referenciados no modelo do “grande hotel de luxo” irão apresentar coincidências no tempo e nos agentes envolvidos.

Como veremos o projeto arquitetônico de todos esses empreendimentos terá um autor comum, dois deles serão objetos de investimento da família Guinle e, por fim, apenas o Hotel Glória conseguirá efetivamente ser aberto a tempo para as comemorações da Independência.
Voltemos a São Paulo. Em fevereiro de 1920, no dia 4, a Câmara aprova a lei n. 2.262, publicada no dia 7, que concede “diversos favores ao particular, empresa ou companhia que construir e fizer funcionar, nesta capital, os três primeiros grandes hotéis”. 

Agora, na gestão do prefeito Firmiano Moraes Pinto, decide-se promover a instalação de 3 hotéis de grande porte. Reduz-se, porém, para dez anos o prazo de isenções dos “impostos de Indústrias e Profissões, de Viação e dos emolumentos para aprovação de plantas e construção”. O texto legal, breve, altera o número de acomodações de cem para duzentos quartos.

Meses depois, surpreendentemente, na sessão do dia 2 de outubro, os vereadores aprovam nova lei — n. 2.324, publicada no dia 9, que, sem qualquer referência a anterior: “Autoriza o prefeito a firmar contrato com particulares ou empresa que se organizar, para o fim de construir e fazer funcionar um grande hotel, nesta capital, mediante a concessão de certos favores”. O texto, mais breve que os anteriores, indica que o empreendimento deve atender as “condições de capacidade de lotação, conforto e elegância exigíveis (nosso grifo), concedendo a garantia de juros de seis por cento (6% ao ano), sobre o capital aplicado reconhecido, até ao máximo de seis mil contos de réis (6.000:000$000), durante o prazo de 10 anos”.

Impressiona a recorrente falta de parâmetros para caracterizar o empreendimento, o que, visto de hoje, faz as diversas proposições de isenções e garantias de juros parecerem irrelevantes. De qualquer modo, o andamento parece mudar completamente.

Em 10 de fevereiro de 1921, a Companhia dos Grandes Hotéis dá entrada, conforme processo n. 16.445/1921, de pedido de prazo para a apresentação de projeto para construção de um grande hotel. A folha inicial, sem data, sem assinatura, datilografada, revela surpreendente presteza no atendimento ao contrato firmado em 11 de dezembro passado, dois meses apenas após a última lei de fomento municipal.

A emprega busca então prorrogar o prazo de 60 dias para apresentação de projeto e orçamento. A solicitação é aprovada, sendo publicada em 22 de fevereiro.

  • …(a empresa) assumiu entre outros compromissos aquele de apresentar no prazo de 60 dias os projetos e orçamentos completos para a referida construção, o que poderia fazer com relativa facilidade aproveitando para esse fim os projetos já existentes dos ex-proprietários do terreno que esta Companhia adquiriu, projeto esse que V. Exa. [o prefeito] já teve ocasião de examinar.
    Entregues esses projetos ao seu originário executor o Dr. F. P. Ramos de Azevedo, foi este obrigado, em virtude da nova lei que estabelece o novo Padrão Municipal, a introduzir modificações nas plantas, afim de obedecer os preceitos desse mesmo Padrão.
    E é em virtude dessas modificações e do enorme vulto de trabalho que um projeto desses acarreta, que não foi possível aos referidos arquitetos dar esses estudos completamente terminados no prazo estabelecido, pelo que vem esta Companhia requerer de V.Exa. se digne prorrogar esse referido prazo por mais de 20 dias, afim de poder a mesma dar cabal e completo desempenho aos compromissos assumidos.
     (processo n. 16.445/1921, f.1)

A Companhia dos Grandes Hotéis parece estar sob nova gestão, embora o documento não traga nomes, nem assinatura! Existe um projeto e uma relação não exatamente clara com o arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928), sobre a qual nada sabemos.

Em anexo ao processo, encontra-se hoje outro, de número 18.269/1921. Com inicial do dia primeiro, protocolado em 8 de março de 1921, a Companhia encaminha para aprovação “desenhos de plantas, fachadas, cortes, orçamento geral e memorial descritivo do Grand Hotel Excelsior que pretende construir no terreno de sua propriedade à Esplanada do Theatro Municipal”.

O documento remanescente não traz, porém, as pranchas, nem memorial, nem orçamento. O projeto é aprovado e recebe longo parecer, datado de 14 de março, do engenheiro [A]. Marchini, chefe da seção responsável.

O tom do texto é curioso, prestativo em atender à importante demanda (ou a importantes solicitantes?). O projeto prevê dois blocos, um à esquerda, junto à Rua Formosa, totalmente separado, destinado a arrendamento, com “1 loja e 2 sobrelojas”; outro, à direita, destinado ao hotel propriamente. A orientação do terreno garante a exigência de insolação mínima de um hora em todos os saguões, além de oferecer perfeita ventilação, como observa o engenheiro.

Marchini lamenta a “situação infeliz” da entrada principal, encoberta pelo Teatro Municipal, embora destaque a facilidade de estacionamento de veículos, um dos pontos comuns às leis municipais comentadas. Em tom exaltado comenta a obra:

  • Do vestíbulo penetra-se ao grande Hall Central, peça majestosa e de rica decoração que dá acesso aos pavimentos superiores pela escada nobre e por 2 ascensores.
    Neste mesmo pavimento estão dispostos os grandes Salões de Festas e refeições, — magníficos em sua decoração e elevado pé direito, além dos salões de bilhares, leitura, fumoir e peças de administração.
    Nos sete pavimentos superiores estão dispostos cerca de 370 dormitórios, isolados ou formando luxuosos apartamentos.
    Os quartos são amplos e bem iluminados, dotados de todos os confortos modernos — e satisfazendo o padrão em vigor.
    Os corredores internos de comunicação satisfazem plenamente pela largura e iluminação.
    A fachada é de um aspecto grandioso e nobre, com uma grande cúpula dominando o Parque Anhangabaú.
    Entre as peças do projeto não figuram os cálculos de resistência do esqueleto em cimento armado, podendo ser isento desta formalidade (artigo 27 do Padrão em vigor) o eminente arquiteto autor do projeto.
    O projeto apresentado — pela sua grandiosidade, conforto e satisfazendo plenamente as exigências das Leis 2.262 e 2.323 — faz perfeitamente jus aos favores concedidos por elas.

    (processo n. 18.269/1921, n.p.)

O engenheiro, apesar das qualidades apontadas no projeto, não deixa de indicar as infrações, entre elas a não apresentação do título de propriedade do terreno. O andamento do processo, apesar da presteza e tom pomposo, receberá o “de acordo” final, do prefeito, em 9 de agosto, dois dias após de ter sido dispensada — “esta formalidade”: a apresentação do título de propriedade. Sem mencionarmos, talvez mera formalidade, a ausência dos “cálculos de resistência do esqueleto em cimento armado” de uma edificação desse porte, exigência usual no período.

Qual seria, contudo, o projeto apresentado? Sabe-se, como indicado acima, que era uma versão preexistente que a Companhia dos Grandes Hotéis aproveitara. A menção a seu “executor” — Ramos de Azevedo — não é muito clara. A descrição de Marchini, afora os 370 dormitórios (cifra que não parece compatível com nenhuma das propostas), faz lembrar o projeto enviado em 1912 por Souquières, seja pela distribuição de espaços no piso térreo, seja pela “grande cúpula” dominando o conjunto. 

O Grand Hotel Excelsior

Sob o nome provisório — Grand Hotel Excelsior — começam os desdobramentos mais diversos ao longo de 1921. Alguns encaminhamentos à prefeitura, protocolados em livros de requerimentos, não foram localizados, e talvez permitissem entender melhor os andamentos, tão tortuosos até aqui. Um deles data de abril de 1921, apresentado pela empresa como “proposta de construção de hotel” (processo n. 10.501/1921); outro, em maio de 1921, sem assunto indicado (processo n. 25.038/1921).

Os anais da Câmara registram na sessão de 18 de junho de 1921 mensagem enviada:

  • Os srs. Drs. Ernesto José Nogueira e Alfredo Rupino (sic), em nome da “Companhia dos Grandes Hotéis”, convidaram a Câmara para a solenidade do lançamento da primeira pedra do edifício de um grande hotel, a ser construído no terreno situado às ruas Conselheiro Crispiniano, travessa do Theatro Municipal e rua Formosa, segunda-feira, 27 do corrente, às 14 horas.

A notícia merece algum destaque, como indica por exemplo, o jornal carioca O Paiz, em 28.6.1921, à página 2:

  • S. Paulo, 27 (A.A.) – Conforme estava anunciado, realizou-se hoje, às 14 horas o lançamento da pedra fundamental do edifício do S. Paulo Palace, que será construído no terreno sito atrás do Teatro Municipal, de propriedade da Companhia de Grandes Hotéis de S. Paulo.
    O projeto do novo hotel é do engenheiro Sr. Joseph Gire, autor também dos projetos do Plaza Hotel, de Buenos Aires, e Ritz Carlton, de Madri.
    As obras foram confiadas à Companhia de Construções em Cimento Armado, e estarão concluídas em setembro de 1922.
    Ao ato inaugural compareceram os Srs. João Fonseca, pelo presidente do Estado; Luiz Fonseca, pelo prefeito municipal; comendador Cav. Frontini, pelo cônsul italiano, em S. Paulo; Puglisi, diretor da Companhia dos Grandes Hotéis de S. Paulo; representantes da imprensa e outros convidados.
    O comendador Puglisi pronunciou breves palavras alusivas ao ato, pondo em relevo a importância do empreendimento que vinha concorrer para a prosperidade da nossa capital, sendo, ao terminar, muito aplaudido. Em seguida foi servida uma taça de champagne aos presentes.

A cerimônia encontra espaço na imprensa, talvez em inserção paga, trazendo fotos do evento, com personalidades presentes e “aspecto da mesa de doces oferecida aos convidados”, além de reprodução do projeto da fachada, no semanário paulistano A Cigarra, de 15 de julho. Embora registre a data como 2 de junho, o texto descreve com mais detalhes a dimensão do empreendimento, bem como revela a presença do engenheiro municipal Victor Freire e de Octávio Guinle, um dos diretores da empresa, sinal evidente da importância do empreendimento para o governo da cidade e da relevância social da diretoria.

Lançada a pedra fundamental, resta agora dar início às obras. É o que indica o processo n. 31.176/1921, na qual a Companhia Construtora em Cimento Armado solicita licença, deferida, para abrir vala no calçamento e asfalto na rua situada aos fundos do Teatro Municipal, em julho de 1921. Dois meses depois, em 5 de setembro, a construtora pede autorização para assentar elevador de materiais. Chama a atenção nesses processos a nova denominação – São Paulo Palace Hotel.

Nota curiosa, no mesmo período, parece sinalizar dupla referência. Que há interesse em explorar o setor hoteleiro, ao mesmo tempo que se procura obter mais “vantagens” junto à municipalidade. Assim durante a sessão na Câmara Municipal, em 9 de julho de 1921, discute-se o parecer n. 55 da Comissão de Justiça a favor da rejeição do projeto n. 24, do mesmo ano, apresentado em 16 de maio pelo vereador Luiz de Anhaia Mello. Este propunha a redução do número mínimo de quartos – de 200 para 100, quantidade exigida na lei n. 2.262/1920 como condição para os empreendimentos candidatos aos favores concedidos aos 3 “primeiros grandes hotéis que forem construídos nesta capital”. (ANAIS, 1921, p.274)

A comissão de Justiça argumenta que os favores já haviam sido concedidos a dois empreendimentos — não nominados, mas certamente, o Esplanada e o Terminus Hotel —, ambos em construção, o que deixaria esses dois projetos sem “iguais vantagens”. Votado e aprovado o parecer, a proposta é assim rejeitada.

O ano de 1921 é, muto provavelmente, encerrado a contento aos olhos dos empreendedores do agora São Paulo Palace Hotel. Último requerimento da Companhia dos Grandes Hotéis à prefeitura, em 6 de dezembro, sem continuidade porém, solicita informação sobre o processo de fiscalização:

  1. Se a construção, objeto daquele contrato, está sendo fiscalizada por parte dessa Prefeitura, ou irá ser fiscalizada.
  2. Por quem é designado o fiscal que exerce essa fiscalização e si o mesmo faz parte do pessoal da Prefeitura.

O balanço relativo ao exercício findo em dezembro de 1921 data de 13 de fevereiro do ano seguinte, sendo publicado no Diário Oficial do Estado(DOSP, 14.2.1922, p.1187):

  • Achando-se em construção o nosso primeiro dos Grandes Hotéis com que pretendemos dotar esta Metrópole, a nossa ação toda tem repousada nesse único fim; qual o de apresentar ao culto público Paulista um hotel digno dele.
    Na construção dos grandes hotéis tivemos em mira satisfazer o desejo da adiantada população da nossa Capital, que de há muito necessita de hotéis, quer pelo luxo quer pelo conforto, possam-se igualar aos das grandes Cidades estrangeiras.
    Os planos dessa construção, como sabeis, são de lavra do insigne arquiteto francês Giré, autor de monumentais trabalhos dessa natureza, que embelezam as grandes ‘urbs’ do velho mundo e da Argentina, e a execução tem sido cumprida à risca pela Companhia Construtora em Cimento Armado.

A sociedade anônima por ações tem então capital de 5.000:000$000 inteiramente realizado em 50.000 ações de 100$000. Assinam o balanço Octavio Guinle, o comendador Nicola Puglisi Carbone, citado acima na matéria de O Paiz, e o Cavalheiro Vicente Frontini. Compõem ainda o conselho fiscal Alfredo Rubino, Antonio Paez e Victor M. Ayrosa Filho.

A relação de nomes surpreende. Primeiro, por incluir Octavio Guinle (1886-1968), filho de Eduardo Guinle, uma das grandes fortunas do final do século XIX. Octavio responde desde 1919 pelo empreendimento de um dos hotéis referenciais do período, o Copacabana Palace.

Por outro lado, o comendador Nicola e seu irmão Giuseppe ([1864]-1939) eram empreendedores locais bem estabelecidos. Migrados para o Brasil, dedicaram-se ao comércio de vinhos produzidos pelo pai na Itália. Em 1910, fundam a Companhia União dos Refinadores (leia-se, para toda uma geração — Açúcar e Café União), reunindo vários empreendimentos do setor, na qual estariam à frente até o final da década de 1920. Em paralelo às obras do hotel, os irmãos investiam em outras frentes como o cinema Olímpia, à Av. Rangel Pestana, gigantesca sala para cerca de 2 mil espectadores inaugurada em março de 1922.

Joseph Giré: em busca de um autor

Sobre o arquiteto francês Josesph Giré (1872-1933) conhece-se em especial sua produção na Argentina e no Brasil. Roberto Cabot (RJ, 1963), artista plástico, bisneto do arquiteto, preparava em 2010, em conjunto com a produtora Rebecca Lockwood, uma edição sobre a obra, atualmente em fase de finalização.

Sua produção na Argentina data do mesmo período que a brasileira, embora pareça ter maior desenvolvimento e difusão num primeiro momento naquele país. Não existe, que se saiba, um estudo amplo sobre a produção de Giré, isoladamente ou em parcerias. 

Na Europa consta ter realizado obras para o Príncipe Orloff, embaixador russo na França, e a família Caran d’Ache. A partir de 1900, Giré atua como sócio do Gabinete de Arquitetura Lucien et Henri Grandpierre, no qual deve provavelmente ter iniciado sua atuação na Argentina.

Em Buenos Aires, responde em 1913, em associação com o engenheiro Juan Molina Civit, por ampliação do Plaza Hotel (1907-1909), à Rua Florida, ainda hoje em funcionamento. O projeto ocupou terreno remanescente, criando uma nova entrada para veículos e ampliando as instalações do térreo.

O projeto Arquitectos franceses en Argentina: catálogo online de sus obras(veja <arquitectos-franceses-argentina.blogspot.com.br> inclui uma relação de obras atribuídas a Giré. Com exceção de um “petit hotel”, na Calle Uruguay, a relação dos demais projetos — 14 — corresponde a parcerias com Molina Civit, marcadas com destaque por residências burguesas urbanas de 2 a 3 pavimentos. Além de obras na capital, inclui aindas realizações nas províncias de Rio Negro, Santiago de Estero, San Juan, Mendonza, Mar de Plata e Entre Rios. São nessas localidades que realiza projetos de envergadura como o Hospital Independencia (Santiago de Estero), sucursais do Banco Nación (San Juan e Mendonza) e a Escuela Centenario (Entre Rios). Consta ainda projeto apresentado em concurso em 1910 para novo edifício da Faculdade de Direito.

À exceção do projeto para o Esplanada Hotel, todas as obras conhecidas de Joseph Giré no Brasil têm lugar na cidade do Rio de Janeiro, onde efetivamente constituirão marcos da paisagem de forma efetiva.

Sua obra mais antiga é o projeto realizado com Armando da Silva Telles a residência da família de Eduardo Guinle (1846-1912), construído entre 1909 e 1913. O palacete, conhecido hoje como Palácio Laranjeiras, passa na década de 1940 para a posse do governo federal, tendo sido utilizado com residência oficial da presidência na gestão Juscelino Kubitschek (1956-1961), que não quis residir no Palácio do Catete, no qual Getúlio Vargas se suicidara em 1954. O edifício passaria depois ao governo estadual, sendo atual residência do governador.

Grandes marcos na paisagem carioca, que se estende pela costa litorânea, são de sua autoria. Primeiro, o Hotel Glória, inaugurado em 1922, empreendimento de Rocha Miranda, através da Companhia de Hotéis Palace, construído no bairro da Glória. Segundo, o Copacabana Palace, inaugurado com atraso em agosto de 1923, empreendimento de Octavio Guinle, igualmente acionista do Esplanada Hotel, e Francisco Castro Silva. A referência aos grandes hotéis da Riviera Francesa é reconhecível em ambos os projetos.

Sobre o Hotel Glória, nota na coluna Vida social, no carioca O Paiz, em primeiro de outubro de 1918, à página 6, indica não só curioso aspecto sobre o empreendimento, bem como traça um perfil do profissional. Sob o título Viajantes registra-se a chegada naquele dia ao Rio dos arquitetos J. Giré e Bovet:

  • com intuito de contratar com capitalistas brasileiros, de acordo com a companhia dos hotéis Carlton-Rist (sic), a construção e manutenção de um grande hotel na praia do Russel.
    O Sr. J. Gire, ex-aluno da Escola de Belas-Artes de Paris, é um nome assaz conhecido na França, em Roma e em Buenos Aires. Basta dizer que S. S. foi boursier do prix de Rome de arquitetura e construiu na França edifícios e monumentos consideráveis pelo seu valor e beleza, tais como os palácios dos príncipes da Palignac, do duque de Clermont Tonnerre, do principe Zurlo, dos Srs. Laumont, Lafont, Machiellis, etc., e os castelos Orloff e Double de St. Lambert, respectivamente em Fontainebleau e em Evian.
    Em Buenos Aires não foram menores os seus trabalhos arquitetônicos. O City Bank, os palácios R. Carlos Ocampo, Madariaga, Hariláos, Olmos, Cronwell e Frias, escolas do Centenario, Hospital Independência e, finalmente, o elegante e luxuoso Plaza Hotel, cujos planos remodelou, são obras suas.
    O Sr. Gire, que não se limita a ser um técnico e especialista arquitetônico, é, além disso, um artista, na sua completa significação e um homem de fina e cultivadissima mentalidade.

Outros marcos urbanos de sua autoria são conhecidos como edifícios de apartamentos — Edifício Praia do Flamengo (1923), edifícios comerciais como a sede da seguradora Sul América (1923), em conjunto com Robert Prentice, mas o mais contundente deles será o Edifício A noite, maior arranha-céu da capital, à Praça Mauá. Construído ao final da década de 1920, em parceria com Elisiário Cunha Bahiana (1891-1980), o projeto aproxima-se do art déco, em contraste com o academicismo afrancesado – Luís XIII, Luís XVI etc – das obras anteriores.

Entre os vários projetos para a família Guinle inclui-se ainda o conjunto da Ilha de Brocoió, junto à Ilha de Paquetá, ao início da década de 1930, mansão em estilo normando encomendada por Octavio Guinle. Adquirida na década de 1940 pelo governo federal, é hoje residência de verão do governo estadual. A relevância desses projetos, como referências urbanas cariocas, é reconhecida pelo tombamento em esfera estadual e federal de vários deles.

A obra de Joseph Giré, apesar de sua presença expressiva, é pouco estudada. O longo período de atuação intensa na cidade do Rio de Janeiro implicou, quase certo, em manter residência regular. Talvez uma das últimas notas na imprensa, publicada em 21 de agosto de 1932, no jornal carioca Correio da Manhã, indica sua notoriedade e atuação na época:

  • Depois de uma estadia de dois anos na Europa, regressa terça-feira pelo ‘Massilia’ o notável arquiteto francês Dr. Joseph Giré, que vem acompanhado de sua Exma esposa. O Dr. Giré é sem favor uma das maiores expressões da atual arquitetura francesa, especializado em grandes hotéis e grandes edifícios sendo inúmeras as suas obras modelares em Paris, Genebra e Buenos Aires.
    No nosso país tem feito entre outras obras o Hotel e Cassino Copacabana Palace, o Hotel Esplanada de S. Paulo, o Edifício da Cia Sul América, o Edifício Flamengo, edifício d’”A Noite”, etc., e grande número de residências de luxo de nossa elite no Rio e S. Paulo.
    Retomará em seguida a direção do seu Escritório Técnico, destacando-se entre os importantes trabalhos confiados a sua mão de mestre as grandes obras do Yacht Club.

Merece registro que nos últimos vinte anos seja recorrente a atribuição do projeto do Esplanada Hotel aos arquitetos franceses Emile Viret e Gabriel Marmorat.

Ativos em especial no Rio de Janeiro, a partir de 1908, em obras como o edifício para o Banco Francês e Italiano (1924), atuam eventualmente em São Paulo como em projeto para edificação à Rua da Quitanda (FISCHER, 2005).

Talvez a mais conhecida obra, embora atribuída em algumas fontes apenas a Marmorat, seja o Pavilhão de Honra da França para a exposição comemorativa da Independência em 1922. Inspirado no Petit Trianon (1762-1768, Jacques Ange Gabriel), o edifício será depois ocupado pela Academia Brasileira de Letras, uma das várias obras que a dupla realiza em conjunto com a Monteiro & Aranha Engenharia e Arquitetura.

Como Giré, partilham muitas vezes de um mesmo vocabulário eclético, mas também procuraram uma abordagem modernizante, com revela por exemplo o Pavillon de la Presse, sob a torre Eiffel, no Campo de Marte, para a Exposição Internacional de Paris em 1937.

A atribuição parece indicar tanto a inexpressiva presença da obra de Joseph Giré em São Paulo quanto o pouco reconhecimento de sua produção na historiografia da arquitetura brasileira. Quase certo, essa associação tenha como referência o artigo de Guilherme de Almeida, de 1960, reproduzido parcialmente ao início dessa edição do Informativo. Curioso é que o lapso do poeta não se restrinja ao Esplanada, mas inclusive atribua a Viret e Marmorat o projeto do Copacabana Palace.

1922: novos aportes

As comemorações da Independência se aproximam. A obra do hotel exige esforço concentrado. Em 11 de março, a Câmara municipal aprova a lei n. 2.463, publicada no dia 31, que “Concede o empréstimo de 3.000:000$000, em letras da Câmara, à Companhia dos Grandes Hotéis de São Paulo”.

As discussões na Câmara Municipal para aprovação do empréstimo transcorreram com algum tumulto. Na sessão de 24 de dezembro de 1921, a leitura dos pareceres das comissões reunidas de justiça e finanças apresenta a justificativa da iniciativa: a garantia de juros de 6%, inclusa na lei n. 2.324/1920, era insuficiente como suporte ao empreendimento. 

  • As isenções de impostos municipais redundaram efetivamente em alguma vantagem, mas somente aos que já se haviam proposto construir prédios destinados a essa indústria, pois são ainda muito insignificantes para, por si sós, estimularem esses empreendimentos que, se não fora o crescimento constante da cidade e a falta quase absoluta de hotéis, não teriam sida levados avante. (ANAIS, 1921, p.517)

A argumentação segue na linha de que o mecanismo atraiu capitais — “avessos a empregos semelhantes” —, mas a “instabilidade de crédito” põe em risco o empreendimento. 

Recomenda-se a recusa da proposta sugerida pela empresa com participação da prefeitura no empréstimo no valor de 2 mil contos. Propõe-se então elevar o valor para três mil, mas com garantia de “primeira e especial hipoteca de todos os bens da Companhia, que não poderá assim hipotecá-la a outrem “ (p.518), além de redução do prazo proposto para 5 anos. Dessa forma, em caso de quebra eventual de contrato a municipalidade teria exclusividade sobre as garantias apresentadas.

Há protesto da parte do vereador Mario Graccho, membro da comissão de justiça, o qual por motivo de viagem ainda analisava o projeto. Graccho tem posição contrária à proposta da empresa — “companhia de nome tão pomposo e de tão mesquinhos capitais” (idem, p.521) — e a das comissões.

A intervenção gera longo debate para justificar a apresentação do parecer sem a aprovação de Gracco. Este contesta o valor, indicando que a quantia de 3 mil contos seria suficiente para construir todo o empreendimento. O vereador contesta tudo com má vontade e sem domínio técnico. Vota-se e aprova-se, por fim, o adiamento da discussão por duas sessões. A Câmara recusa ainda o pedido de Graccho de demissão da comissão de justiça.

No dia 11 de março, retoma-se a discussão; são analidas cinco emendas ao projeto de lei nas cláusulas sobre aplicação de juros e garantias. Há calculo detalhado relativo à avaliação de todos os bens apresentados. Entre eles, incluem-se os 3 lotes: o primeiro, com testada principal à Rua Conselheiro Crispiniano com 31,7 x 31,40 m, onde fica o Clube Português; o segundo, que corresponde efetivamente ao hotel em construção, com 82,10 m de testada junto à Esplanada, além de faixa com 10,10m “considerada um espaço livre para utilidade do referido Hotel” (ANAIS, 1922, p.106), e profundidade média de 28 metros; e, por fim, lote junto à Rua Formosa, composto por 4 sublotes. Além dos terrenos são apresentados como garantias os imóveis existentes e o destinado ao hotel, em construção.

O projeto é aprovado e votado (9 votos a favor, 5 contra), sendo as emendas igualmente aprovadas. No entanto, as condições financeiras não parecem atingir em tempo adequado os valores necessários para o empreendimento. 

Como indicam os registros nos anais, em março de 1922 (ANAIS, 1922, p.107): “A construção do hotel ainda se acha muito atrasada; reputamos que já foi, porém, despendia a quarta parte do valor da empreitada, isto é, 800:000$000, aproximadamente”.

Em 5 de agosto de 1922, a empresa anuncia, como publicado no Diário Oficial do Estado três dias depois (DOSP, 8.8.1922, p.5248): “Manifesto para a publica emissão de um empréstimo de cinco mil contos de réis (Rs. 5.000:000$000) em cinquenta mil (50 mil) obrigações ao portador (debêntures) de valor nominal de cem mil réis (Rs. 100$000), cada uma”.

O anúncio revela que o capital da empresa é de 5 mil contos em ações, ao qual se busca o aporte de 100% desse valor. A emissão de debêntures, aprovada em assembleia geral extraordinária em 25 de maio de 1922, é justificada pela grande alta dos preços de materiais e serviços de construção. Projeta-se como expectativa de ganhos com lucros da operação do empreendimento valor “nunca inferior” a 15% do capital empregado.

Como garantias da emissão são dadas os bens já apresentados no empréstimo com a municipalidade, acima indicados.

As obras continuam, enquanto isso. No entanto, pedido de substituição de plantas, apresentado em 23 de junho de 1922, indica a ocorrência de embargo (processo n. 58.446/1922). Alterações no projeto não comunicadas à prefeitura motivaram essa ação.

O parecer do fiscal indica que as modificaçõs no pavimento térreo, não indicadas, bem como das fachadas, podem ser aprovadas. Há apenas restrição a alterações nos pavimentos destinados a dormitórios devido à redução das condições de iluminação e ventilação dos corredores das duas alas laterais causada por construção de sanitários. 

Essas últimas modificações serão aprovadas em agosto, com ajustes conforme as duas pranchas anexadas ao processo n. 62.965/1922. Ainda assim o parecer, à folha 2, em 14 de agosto, lembra que a presença dos banheiros, não previstos originalmente, leva à perda das “esplêndidas condições que recomendavam o primitivo projeto”.

Voltemos a processo anterior, sobre substituição de plantas, entrado em junho. Ele apresenta os únicos registros gráficos do projeto, localizados até o momento, na documentação custodiada pelo AHSP.

As sete pranchas entregues, com detalhamento e tratamento tráfico heterogêneo, constituem contudo um conjunto incompleto. Não há prancha relativa à fachada principal, apenas as fachadas laterais e a traseira, embora neste caso, apenas de forma esquemática. Não incluem ainda cortes gerais da edificação, exceto breves inserções com detalhes, que comentaremos adiante.
 

Esplanada Hotel, 1922 - fachada sudeste

Ainda sob o nome de São Paulo Palace,
a Companhia dos Hotéis de São Paulo apresenta, com assinatura de
Octavio Guinle em algumas pranchas, o projeto de J. Giré.

Fachada lateral direita (sudeste), para o Anhangabaú.
Destaque para alguns acabamentos pontuais e
indicação de dimensões das aberturas verticais, em especial
no salão de festas e no pavimento inferior.

Acervo AHSP

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As fachadas laterais parecem próximas ao efetivamente construídos. Nota-se, na lateral esquerda, em prancha que apresenta o tratamento decorativo integral em contraste com a relativa a outra lateral, que haveria uma cobertura lateral em vidro, ao fundo. Ambas as pranchas datam de setembro de 1921 e trazem a identificação estampada do arquiteto J. Gire. A prancha da fachada posterior data de março de 1922, sendo, como mencionada, esquemática; traz também em detalhe um planta da caixa de escada central.

 

 

Esplanada Hotel, 1922 - fachada noroeste

Fachada lateral esquerda (noroeste) para a Rua Conselheiro Crispiniano.
Prancha do conjunto apresentado com maior nível de acabamento.
Observe indicação de cobertura de vidro no corredor lateral, ao fundo.

Acervo AHSP

O processo traz, embora não haja expressamente nenhuma avaliação que justifique a inclusão, duas pranchas com detalhes excepcionais da parte superior da fachada. Ainda referenciando a obra como São Paulo Palace Hotel, as duas pranchas apresentam detalhes do coroamento do edifício, com representação da fachada e corte da área em destaque.

 

 

 

 

Esplanada Hotel, 1922 - fachada - detalhe superior

Fachada principal, detalhe do acabamento superior.
O conjunto inclui duas pranchas com detalhes da ornamentação,
embora não necessárias para aprovação do projeto.

Acervo AHSP

A prancha com planta do piso térreo, aprovada pela Companhia em 9 de março de 1922, é apresentada como “definitiva”. Inclui nas margens alguns detalhamentos e cortes, como o relativo ao vestíbulo da entrada do salão de festas.

A distribuição dos espaços do piso térreo, frente ao esboço apresentado em 1912, parece à primeira vista modesta. No entanto, o programa funcional efetivo, mais detalhado, levou a divisões menores, embora o salão de festas tenha mantido as dimensões originais.

 

 

 

 

Esplanada Hotel, 1922 - fachada - terreo

Andar térreo.
Prancha, como em outros casos do projeto, 
inclui detalhes como cortes parciais.

Abaixo, detalhe da prancha 
com corte do vestíbulo do salão de 
festas, com acesso independente para a rua.

Esplanada Hotel, 1922 - fachada - terreo - detalhe do vestíbulo

Acervo AHSP

À esquerda do hall central, localizam-se os espaços destinados à equipe hoteleira. Primeiro, o caixa e a contabilidade, em frente à recepção dos “viajantes”, situada no lado oposto do hall. Estreita passagem comunica com a gerência, que também possui um acesso junto à porta principal, e a diretoria. Existe um acesso de serviços, na lateral esquerda do edifício, que se comunica com o corredor de serviços que leva ao hall principal. Esse corredor estende-se paralelamente à rua, pelo eixo da construção, ao longo de quase todo o comprimento da edificação.

Localizam-se ao fundo, na lateral esquerda, portaria, que dá acesso a armazém (“cambuse”), vestuários e “sala [de] jantar do pessoal”. Espaço significativo na parte posterior do edifício aparece nessa prancha sem divisões, genericamente identificado como “serviço”.

À direita do hall, encontram-se os espaços destinados ao bar, com grande balcão em L. A entrada do salão de festas, situado em cota inferior, é feita ainda por acesso externo, com vestíbulo que permite comunicação com o bar. Sob o salão há ainda um pavimento, semi-enterrado, sobre o qual o conjunto não traz referências.

O grande hall é articulado em dois níveis. O primeiro, já descrito, reune o caixa e contabilidade, à esquerda, e a recepção, à direita. Não existe uma área de espera para hóspedes e visitantes. O espaço é assim muito modesto comparado ao projeto apresentado em 1912.

Pequeno lance de escada leva a um desdobramento do hall, como também articula as escadarias de acesso à diretoria, no lado esquerdo, e ao bar, no lado oposto. O segundo piso mais elevado do hall dá acesso à escadaria principal, que tem em cada lado um elevador social. Ainda nesse patamar, constam à esquerda, espaço para “correio distribuição” e no lado oposto, 3 cabines telefônicas.

Há um elevador de carga, à direita da caixa de escada principal, sem ligação com o hall, mas comunicando com setor de apoio junto ao salão de festas, próximo ao qual há outro elevador de serviços, provavelmente para acesso ao andar nobre. Merece observação que há conflito, no tocante à circulação vertical, entre as pranchas do térreo e dos andares-tipo, pois o elevador de carga está indicado em lados opostos nas duas pranchas.

O conjunto não inclui prancha relativa ao “andar nobre” com pé direito de 7,5 metros. Nem o conjunto da documentação gráfica permite inferir sua ocupação, além da ocorrência esperada de salões etc.

Há, no conjunto, uma planta genérica para os andares ocupados pelos dormitórios. Com estampilha datada de junho de 1922, apresenta a distribuição de quartos, num total de 36 unidades. Existem cinco unidades duplas, articuladas por “salão”, junto à fachada principal. Todas as unidades são interligadas por halls e banheiros comuns permitindo os arranjos mais variados com até 3 unidades. O total para os cinco pisos, inferido a partir do andar tipo, de 180 quartos, inferior ao número que constam em guias de turismo da década de 1930 como veremos. A cifra é inferior ainda ao número mínimo exigido pela legislação de fomento — 200 quartos (e, claro, aos 250 quartos que eventualmente anunciaria o hotel anos depois), o que implica que o andar nobre, com pé direito duplo, talvez incluisse quartos para hóspedes.

 

 

 

 

Esplanada Hotel, 1922 - andar-tipo

Andar tipo – dormitórios.
Observe os quartos junto à fachada principal, articulados por amplas salas.

Acervo AHSP

Nota curiosa, relativa a essa prancha, é a notação no canto superior esquerdo, que faz relação a outro projeto de Gire: “N.B: Os banheiros n.XVII e XX estão arejados pelo teto conforme ao corte R-S da planta n.[30] do Copacabana Palace”.

Até a inauguração, exceto os já mencionados, não há outros requerimentos relativos à obra. Registra-se apenas o protocolo, nos livros de requerimentos, de pedido imediatamente após a inauguração. Em 4 de junho de 1923, a Companhia dos Grandes Hotéis apresenta projeto de aumento de copa, processo n. 17.943/1921, não localizado até o momento.

Grandes Hotéis: mudanças na sociedade

Datado de outubro de 1922, registro da assembleia geral ordinária da empresa, realizada no dia 2 (DOSP, 10.10.1922, p.6558), permite conhecer parte dos integrantes da sociedade. Presidida por Otavio Guinle e secretariada por Alfredo Rubino, a reunião abarca os detentores de 49.920 ações, de um total de 50 mil, como discrimina a ata. Estão presentes ainda outros 6 acionistas: Nicola Puglisi Carbone, Ernesto José Nogueira, José Comparato, Antonio Pace, F. J. Bittencourt Rebello e Victor M. Silva Ayrosa Filho.

O balanço da empresa para 1922, datado de 10 de fevereiro do ano seguinte, informa que não foi possível abrir a tempo para as festas do Centenário da Indenpendência.

 

 

  • Felizmente estão vencidas todas as dificuldades e contamos que até o próximo mês de Março, impreterivelmente, estará o Hotel concluido e recebendo nos luxuosos salões e aposentos do seu majestoso edificio o escol da sociedade brasileira e estrangeira. (DOSP, 22.2.1923, p.1410)

Os números do balanço, em 31 de dezembro indicam um ativo de 11.011:856$775, Destes, correspondem a imóveis (o hotel) — 9.473:496$880, e a móveis e utensílios — 1.031:658$260.

Aberto o Esplanada Hotel, a empresa realiza em 26 de setembro de 1923, assembleia geral extraordinária (DOSP, 14.10.1923, p.6774). Estão reunidos 9 acionistas, que representam a totalidade do capital da empresa. O controle cabe aos participantes majoritários – Octavio Guinle, com 25 mil ações, e o Comendador Nicola Puglisi Carbone, com 24.720 ações. Os títulos restantes – 280 – estão divididos igualmente entre Alfredo Rubino, Antonio Pace, Ernesto José Nogueira, F. J. Bittencourt Rebello, José Comparato, Vicente Frontini, Victor Ayrosa Filho.

O motivo da reunião é aprovar a venda de 35.920 debêntures ao Cotonifício Rodolfo Crespi. Com valor individual de 80$000, a emissão totalizava 2.876:600$000.

Sobre os desdobramentos dessa decisão, bem como o desempenho da empresa no período seguinte, não há dados conhecidos. O balanço relativo a 1924, conforme publicado em 1 de abril de 1925 (DOSP, 1.4.1925, p.2675), não traz mensagem aos acionistas, nem assinaturas da diretoria. Constam apenas os nomes dos auditores Moore, Cross & C, e do conselho Fiscal, agora formado por Ernesto José Nogueira, L. Molinari e L. Melai (?).

No ano seguinte, em 1925, reunião dos acionistas, em 31 de julho, tem como objetivo a terceira amortização das debêntures, através de sorteio. Nenhum dos diretores da empresa e os demais presentes, num total de cinco, tem qualquer relação com a constituição conhecida anteriormente. A reunião é presidida por Fábio da Silva Prado, secretariado por Francisco Azevedo Jr, com a presença dos também diretores Dino Crespi e Ludovico Molinari, e mais Henrique Misasi.

O controle da empresa está agora em mãos da família Crespi. A composição, como registra a ata da assembleia geral ordinária três anos depois,em 31 de março de 1928 reune o “Grd Uff. Comm.” Rodolfo Crespi, Adriano e Dino Crespi, e Fábio da Silva Prado, entre outros.

A demonstração de contas, para o ano de 1927, registra ainda que houve recisão do contrato de garantia de juros com a municipalidade. Essa rescisão fora objeto da resolução n. 445, de 2 de maio de 1927, votada e aprovada pela Câmara Municipal. Conforme registrado na coluna Prefeitura do Município, publicada no Correio Paulistano, de 3 de maio do mesmo ano, a resolução aprova acordo entre as partes celebrado em 16 de dezembro de 1926.

Através de requerimento da empresa (processo n. 21.842/1927), em 7 de maio, a Companhia pede lavratura de termo de rescisão e o pagamento devido. Cópia do termo de rescisão, datada de 16 de dezembro, consta do processo, que revoga contrato assinado em 11 de dezembro de 1920. A municipalidade desisti do direito de devolução das importâncias já recebidas pela Companhia e mantém a isenção de impostos por dez anos, além de prontificar-se adispender esforços, sem compromisso porém, para obtenção de isenção estadual.

O artigo 2 da resolução mencionada prevê ainda o pagamento à empresa de 379:333$000, sendo 199:333$000 para completar os 360:000$000 de garantia dos juros relativos ao ano de 1925 e 180:000$000 relativa ao primeiro semestre de 1926.

A família Crespi responde provavelmente pelo controle total da empresa desde 1925. Rodolfo Crespi (1874-1939), patriarca da família, e seus filhos surgem nos registros, o que explica a total omissão, desde os anos iniciais de operação do Esplanada, sobre a composição inicial de acionistas nas parcas referências bibliográficas ao empreendimento. 

Num primeiro momento, seu genro, Fábio da Silva Prado (1887-1963), responde pela empresa. Casado desde 1914 com Renata Crespi (1897-1981), o casal teria herdado o hotel com a morte de Rodolfo Crespi em 1939. Entre 1934 e 1938, Fábio Prado foi prefeito indicado da cidade de São Paulo. 

A Companhia dos Grandes Hotéis de São Paulo surge ao final da década de 1940 como sendo presidida pelo Conde Raul Crespi (1909-1980), irmão de Renata (HILTON, 1948, p.75). Nada se sabe se os acionistas anteriores teriam mantido algum outro vínculo com o empreendimento, ainda assim, como veremos adiante, haverá referência eventual nesse sentido na década de 1940.

Enfim o Esplanada Hotel

No dia 27 de fevereiro de 1923, as primeiras páginas de jornais comoO Estado de S. Paulo e Correio Paulistano trazem em anúncio o destaque: abertura definitiva no dia 5. Nos dias precedentes, 3 e 4, o hotel promove jantares dançantes, em instalações ainda incompletas, como informa o mesmo anúncio.

No dia seguinte, anúncio no Correio Paulistano, à primeira página, traz detalhes: inauguração dos salões, sábado, dia 3, com grande jantar de gala, contando com duas orquestras. No domingo, grande jantar dançante.

Em 10 de março, novo anúncio, à primeira página de O Estado de S. Paulo, informa sobre inauguração do “grande salão de festas no mesmo dia. À tarde, a partir das 16h30, o Esplanada oferece chá dançante a 5$000 por pessoa, com o “jazz-band sul-americano” Romeu Silva, contratado no Rio. No dia seguinte, jantar dançante por 20$000.

Uma semana depois, o hotel, no entanto, cancela por motivo de força maior os jantares dançantes programados para os dias 17 e 18 de março (OESP, 17.3.1923, p.2).
 

Esplanada Hotel - 1922 - fachada

O Esplanada Hotel, recém-inaugurado, em matéria paga
no livro São Paulo e seus homens no centenário (1922).

Acervo AHSP

Lentamente, o Esplanada passa a reunir parte da vida social das classes abastadas paulistanas. Como outros hotéis há tempo faziam, o Esplanada agrega também outros gêneros de eventos. Um exemplo é o anúncio Às excelentíssimas senhoras, em agosto do mesmo ano (OESP, 17.8.1923, p.1). Nele, Elisa Giaccone Macceloni, da casa de moda Giaccone Macceloni & Cia, de Lucca e Florença, informa a inauguração na segunda, dia 20, de exposição

  • que é constituída de tudo o que de mais fino foi visto até hoje em elegância, bom gosto e perfeição.
    Tailleurs, toilettes pour soirées, manteaux, pellaria, lingeries, finissimos bordados a mão, etc
    MAIS DE MIL DIFERENTES MODELOS
     (em letras garrafais, fechando o anúncio)

A partir do ano seguinte é longa a série de damas francesas com ofertas similares. Madeleine Doré, ainda em 1923, em anúncio com texto em francês (OESP, 11.11.1923, p.2), informa que ficará na capital por apenas dois dias, quando “liquidera sa superber collection à prix reduit” nos apartamentos 301-03.
 

Esplanada Hotel - 1923 - hall

O hall de entrada, 1923.
Observe o pé direito duplo que dá maior impacto visual ao conjunto.
A Exposição de 1922 (1923)

Acervo AHSP

Em setembro de 1923, surgem notas sobre os primeiros saraus promovidos, entre outros, pelo City Bank Club, Clair Club etc. Algumas vezes essas referências surgem em notas já mesclando informações sobre concertos no Teatro Municipal — proximidade privilegiada.

Nota em Indicador social, na edição de 30 de novembro de 1923, do jornalO Estado de S. Paulo, à página 2, parece inaugurar no Esplanada antiga prática local, com a abertura da exposição do pintor francês Luiz Tinayre. Em tempo, a mesma fonte indica um total de quatro mostras de pintura na cidade, além de uma exposição de prataria portuguesa.

 

 

Esplanada Hotel - 1923 - salão de festas

O salão de jantar, 1923.
A Exposição de 1922 (1923)

Acervo AHSP

O “grand monde” se diverte. Celebridades de todo tipo ali se reunem. Registro na coluna Notícias teatrais, publicada em O Estado de S. Paulo, de 21 de junho de 1924, à página 2, informa: “EMPRESA JOSÉ LOUREIRO — Acha-se nesta capital, hospedado no Esplanada Hotel, o conhecido empresário teatral sr. José Loureiro, que em São Paulo goza de muita simpatia”.

Os empresários da Companhia dos Grandes Hotéis têm assim parte da resposta esperada para o empreendimento. Revelando um planejamento de marca complexo, eles fazem o registro da expressão Esplanada Hotel na Junta Comercial da capital, em 1 de março sob o número 6.198 (DOU, 25.4.1923, p.72 – seção 1), para uso em artigos de hotel, comestíveis, vinhos e bebidas.

Em 28 de fevereiro do ano seguinte, o balanço relativo a 1923, traz a avaliação do período (DOSP, 28.2.1924, p.1844):

 

 

  • Contudo, o resultado apresentado pelo nosso Balanço não se vos afigurará talvez satisfatório, mas devemos pensar que tivemos apenas 10 meses de funcionamento; corresponde, a bem dizer, ao período de organização; partimos com uma sobrecarga de despesas preliminares elevada; tivemos grandes despesas de propaganda: e os preços de nossas tabelas não puderam ainda sequer aproximar-se das dos Hotéis de igual ou mesmo menor conforto e importância do Rio de Janeiro, para só falar do Brasil, onde os Hotéis são os mais baratos do mundo, em virtude da conveniência e necessidade de tornar bem conhecido de todos os viajantes o nosso estabelecimento.

Desenvolvimento: breve comentário

No contexto paulistano, os grandes hotéis Terminus e Esplanada manterão por longo período posição de destaque. Com instalações modernas, eles convivem contudo com antigos estabelecimentos, disputando, quase certo, uma faixa de clientela de maior poder aquisitivo.

Uma avaliação primeira, sem maior valor para uma análise consistente, pode ser feita através de guias turísticos, por exemplo. A edição do Guia Bernstorff, editado em 1937, em seu oitavo ano, traz informações turísticas e de transportes sobre as cidades do Rio e São Paulo. Entre os hotéis da capital paulista, o guia relaciona 25 estabelecimentos (GUIA, 1937, p.106).

A tabela de preços permite identificar entres os maiores estabelecimentos: o Esplanada, com 250 quartos, e o Terminus, com 300. Mas empreendimentos anteriores, ainda que raros, chegam a ter capacidade total assemelhada como o Hotel D’Oeste com 211 quartos. Sem banheiros privativos, porém. Esse aspecto é um dos vários referenciais que se pode utilizar para análise, além do número de acomodações e demais instalações, certamente.

No item “quartos com banho” é curioso observar que o Esplanada com 250 quartos inclua nesse total 30 acomodações sem banheiro. O Terminus, em especial, chega, do total de 300, a oferecer 100 quartos sem banheiros privativos.

 

 

Esplanada Hotel - 1923 - quarto

Um apartamento do Esplanada, 1923.
Provavelmente, sala de um dos apartamentos
duplos na parte frontal do edifício.
A Exposição de 1922 (1923)

Acervo AHSP

Muito resta a desvendar sobre o quadro hoteleiro na década de 1930. Em especial, ao lembrar que em 1939, na primeira gestão do prefeito Francisco Prestes Maia (1896-1965), é estabelecido o decreto lei n. 3, em 5 de outubro, que concede favores fiscais para construção e instalação de grandes hotéis na capital.

O texto legal indica expressamente a inexistência de hotéis “verdadeiramente de luxo”, bem como registra que não vigora mais qualquer concessão, por caducidade das anteriores (1920, 1927). O artigo 2 define parâmetros, além do grande luxo, como um mínimo de 150 apartamentos (com banho ?) ou 300 quartos, além de “grandes salões para reuniões, festas e banquetes”. Define ainda como patamar de inversão de capital — na construção e no terreno — valor superior a 20 mil contos de réis. Espera-se assim “ser hotel, pelos seu serviço e instalações, comparável aos grandes hotéis modernos das capitais adiantadas”.

Exigirá, como vimos antes, a cessão periódica, gratuita, dos salões para festas oficiais ou patrocinadas pelos poderes públicos, bem como abatimento nos preços para hóspedes oficiais. Exclui das isenções as construções existentes que possam ser “aproveitadas ou anexadas” às novas edificações, bem como estabelece teto para benefício de 30 mil contos de réis, cabendo ao valor excedente “a responsabilidade tributária integral”.

Haveria alguma conexão entre o decreto lei, de outubro de 1939, com a proposta apresentada mais de um ano antes, em maio de 1938 para edificação de anexo ao Esplanada? Talvez ambos os acontecimentos indiquem apenas que havia demanda a ser atendida.

A proposta do anexo é referenciada na historiografia de forma enviesada. Ela surge por trás dos estudos sobre arquitetura moderna, na análise do projeto do edifício CBI Esplanada que será apresentado em 1946 pelo Escritório Técnico Lucjan Korngold, Arquitetura e Engenharia.

Aqui interessam apenas dois aspectos. O primeiro, na proposição do anexo com 28 andares, ocupando a parte remanescente do lote junto à Rua Formosa. A torre, com projeto de Elisiário Bahiana, antigo parceiro de Joseph Giré no arranha-ceú A Noite, no Rio de Janeiro, gerará polêmica, entre outros aspectos pelo gabarito da edificicação. A iniciativa está ligada aos condes Adriano e Raul Crespi, acionistas da Companhia dos Grandes Hotéis. O projeto arquitetônico do grande edifício adota o modelo arquitetônico do Esplanada Hotel, como indica a maquete apresentada (-> veja aqui uma das imagens presentes no acervo do Museu da Cidade de São Paulo).

Surpreende no desenvolvimento da iniciativa, aprovada com redução de gabarito entre outros pontos, mas que teria a construção interrompida, a presença na proposta efetivamente realizada – o CBI Esplanada – de um grupo distinto de proprietários, encabeçados por Octavio Guinle (FALBEL, 2003; FALBEL & OHNO, 2003).

Teria Guinle, acionista majoritário da Companhia dos Grandes Hotéis de São Paulo na fase de construção e inauguração do Esplanada, mantido participação indireta relacionada assim à propriedade dos lotes remanescentes, no caso, o trecho entre o hotel e a Rua Formosa?

Destinação

A ausência de grandes estabelecimentos que levaram à criação do Esplanada ou do Terminus faz contraponto à situação similar ao final da década de 1950. Alterações da dinâmica da cidade de São Paulo, mudança de escala urbana, novos parâmetros para o segmento de hotelaria são alguns dos muitos fatores a avaliar.

Novos empreendimentos surgem na década de 1950 como o Othon Palace Hotel, ativo até a década de 2000, adotando padrões diferenciados do modelo do “grande hotel” palaciano. Outros hotéis, abertos na década anterior como o Excelsior, voltados para o segmento de negócios marcam o período, constituindo uma grande mancha de concentração nas proximidades das Avenidas Ipiranga e São João. 

O Esplanada continua até a década de 1950 em atividade. E, parece relevante apontar, sem sinais de declínio. É ali que parte das personalides convidadas para os festejos do IV Centenário são hospedadas. Mas o empreendimento não terá maior sobrevida encerrando as atividades em dezembro de 1957. Talvez, por desinteresse de seus controladores, em especial considerando a situação das empresas Crespi. 

Sobre o período final, nota na imprensa (OESP, 30.12,1987, p.28), referenciando os 30 anos do encerramento de atividades, é caso único na crônica confusa do Esplanada. Breve traz depoimentos de funcionários e clientes e o de um importante cronista social importante: José Tavares de Miranda.

Voltemos àquele momento. Sabe-se que, em agosto de 1958, o edifício já estava sob o controle do Banco Mercantil de São Paulo S.A., quando é apresentada proposta dessa casa bancária à Camara Municipal para uso como nova sede (OESP, 7.8.1959, p.4).

 

 

 

  • O empresário José Ermírio de Moraes comprou o prédio em 1963 e reformou o seu interior, com o objetivo de ali abrigar os escritórios centrais do grupo Votorantim. (…) Em 1965, a Votorantim transferiu seus escritórios para o local, rebatizado como edifício Ermírio de Moraes. (DOSP, 6.11.2012, p.II-Seção II).

O edifício, contudo, apresentou uma história recente algo conturbada quanto à sua destinação.

Em abril de 2011, registra a imprensa (FSP, 28.4.2011, p.C-3) que a empresa oferecera à prefeitura o edifício, havendo possilibidade de receber a Secertaria Municipal de Planejamento, Orçamento e Gestão. A negociação seria realizada na forma de desapropriação amigável com custo estimado de R$ 40 milhões.

Mais de um ano depois, em 5 de novembro de 2012, assinavam empresa e o governo do estado termo de transferência do “edificio Ermirio de Moraes”, sede do grupo empresarial Votorantim. (DOSP, 6.11.2012, p.II-Seção II). A transferência teria valor menor: R$ 32,5 milhoes. Previa-se para abril de 2013 a ocupação pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento.

Curiosamente, o Blog Memoriação (Memória Votorantim), traz, com data de 19 de dezembro de 2012, o postProposta de restauro. A leitura permite avaliar o estado atual da fachada e identifica as intervenções ocorridas na década de 1960.

É relevante registrar que a importância como marco urbano foi reconhecida pelo tombamento realizado em 1992, pelo CONPRESP através da resolução 37/92, item 268, com nível de preservação 3 (proteção à area externa), como parte integrante do conjunto urbano do Vale do Anhangabaú.

A balada

As referências simbólicas sobre o Esplanada Hotel são outro aspecto que exigiria igual esforço ao das fachadas para recompor. Como todo marco urbano, o investimento emocional dificulta, na ausência de uma historiografia do cotidiano amplificada, separar fato e narrativa. Crônicas sobre personalidades surgem, eleitas por diferentes segmentos da população, como o escritor William Faulker, Rudyard Kipling ou Oswald de Andrade.

Balada do Esplanada, poema de Oswald (1890-1954), de 1927, é talvez rara ocorrência com qualidade e alguma importância para a história urbana. O cantor e compositor Cazuza (1958-1990) irá transformá-lo em canção, gravada em 1987.

 

 

 

(…)
Eu queria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
É o hotel
Do menestrel
Pra me inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel
Mas não há, poesia
Num hotel
Mesmo sendo
‘Splanada
Ou Grand-Hotel
Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

 

 

 

2 comentários

  1. Os “turcos” subiram o espigão

      A Paulista, os jardins.

      Final da década de 70, Henry Maksoud ( Hidroservice) e Dona Hilde, após as rodadas de tranca no Monte Libano, ele resolve, após ter adquirido uma area na Paulista baixa, antigo cemitério católico, ou um convento ( Al. Ribeirão Preto), que irá construir um moderno Hotel 5 estrelas em São Paulo – o Maksoud Plaza, ninguem acreditou, da engenharia pesada para hotelaria, e uma imensa divida – fui na inauguração, frequentei os Batidas, Allianza, lá vi Sinatra e Alberta Hunter ( bebaça de caipirinha), Alfredo di Roma demonstrando seu macarrão – até comprei um quadro na Reflexus Galeria de Arte da Dona Hilde, e claro, um, ou varios manhatans ( bucchanans + noilly pratt + 2 gotas de angostura0 feitos pelo Rodrigo, no Trianon Piano Bar, escutando os classicos, com David Gordon, acompanhado da banda do Araken Peixoto ( irmão do Cauby).

       Para não ficar “atrás” na comunidade, N. Moffarrej, alguns anos depois inventou, do outro lado da Paulista, na Al. Santos, o Moffarrej Plaza Hotel – ótimo restaurante, com serviço péssimo, bares horrorosos – teve mais é que vender para o Sheraton.

       Dr. Motta, não sou nostalgico, prefiro ser classico, afinal lembrar do “bollito misto” do Ca’d’oro na Augusta lá embaixo, do “prato do dia” de Massimo Ferrari, do filet mignon com ostras (filet mignon a Kiev) de um hotel do centro de São Paulo, até do prato de massa com frutos do mar de Piero Grandi ( quando na Caconde), acompanhado de um chianti novo, não se trata de rememorar o passado, ou ser nostalgico ou sequer critico a atualidade – mas é ter a idéia presente de como fomos formados.

       

    • Maravilha, acrescento viagem

      Maravilha, acrescento viagem de transatlantico em lua de mel, janeiro de 1967, pelo “”Giulio Cesare”, navio de linha e não de cruzeiro, na primeira classe, jantar de longos e smoking obrigatorios, fim de epoca, durou mais dois ou tres anos e acabaram os navios de linha America do Sul-Europa. ainda se viam os Royal Mail, os da Linea C, os da Chargeurs Reunis, Claude Bernard e Pasteur, os da Colonial de Navegação, Santa Maria e Vera Cruz, crianças até 12 anos não entravam no salão de jantar dos adultos, ficavam no refeitorio das babás.

      Nos restaurantes o primeiro Tambouille na Av.Europa com os fogões no centro do salão, o Flag na 9 de julho, o Gallery na Haddock Lobo, tempos bons, gente educada e com lições de etiqueta em criança, um mundo que acabou.

      Em tempo o Ca dÓro antigo é irreproduzivel, dizem que virá um novo, jamais terá o charme do antigo.

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