Brasil deve melhorar infraestrutura, diz chefe do FMI

da Folha de S. Paulo

Luciana Coelho
de Washington

O Brasil pode usar a política monetária — subir juros — para conter a crescente inflação, mas a prioridade do país deve ser desatar os nós que travam a produção e a exportação, disse à Folha a chefe do FMI, Christine Lagarde.
Já a “guerra cambial”, bandeira constante do país no Fundo Monetário Internacional, é um temor que se dissipa — e nunca chegou a guerra, expressão que ela atribui ao excesso de “paixão” de Guido Mantega ao falar.
Primeira mulher a comandar o FMI, Lagarde, 57, recebeu o jornal brasileiro e o mexicano “El Universal” ontem, véspera da reunião ministerial do Fundo, para falar de crise, crescimento lento e do peso da organização que lidera, em reforma. A seguir, suas principais respostas à Folha:.

Folha – Após cinco anos de crise, as coisas parecem melhores, mas a recuperação patina — sobretudo na Europa — e o cenário é pior do que se esperava nos mercados emergentes, onde a China acaba de registrar desaceleração no PIB. O que falta para a retomada engrenar e qual o rumo a tomar?

Christine Lagarde – Estamos em uma recuperação em três velocidades. Há um grupo de países que avança mais rápido, e inclui os emergentes e os países de baixa renda, com situações individuais; um segundo que surpreendeu positivamente, como os EUA e a Suécia, e já consertou parte das áreas que não estavam tão bem; e um terceiro claramente atrás –essencialmente a zona do euro. O Japão é uma incógnita.

Dito isso, há crescimento. O que precisa ser feito, em primeiro lugar, é estabelecer a cooperação entre os diferentes países e grupos. Entre os emergentes e os de baixa renda, eles têm de aproveitar a situação atual para refazer os “amortecedores” que usaram, se proteger de choques eventuais e assegurar que os fluxos de capitais que recebem sejam bem administrados e o setor financeiro seja regulado de forma apropriada, para não correr o risco de bolhas.

No caso dos EUA, há uma clara necessidade de um rumo fiscal de médio prazo, e menos de consolidação fiscal [cortes] imediata. E a zona do euro precisa continuar as reformas que tem feito, sobretudo no setor da união bancária europeia –é essencial prevenir situações como a do Chipre, e garantir a confiança entre os bancos e a comunidade financeira para que os empréstimos interbancários se recuperem e o crédito chegue à economia real, além de reformas estruturais.

Juntos, o que mais precisam fazer é completar a reforma do setor financeiro. Muito ainda precisa ser feito, por exemplo, no mercado de derivativos [onde a crise começou], que ainda carece de transparência e supervisão. O mesmo também se aplica ao “shadow banking” [operações no sistema financeiro que não são feitas via banco], que tem crescido inclusive na China. E o sistema de resolução precisa ser implementado em todos os lugares, sobretudo para as instituições transnacionais –as diretrizes ainda não foram implementadas por todos.

A segunda questão é a dos desequilíbrios no mundo, entre países como superávit precisando mudar levemente o formato de crescimento –é o caso da China, que precisa se apoiar não só em exportações, como no consumo e no investimento interno.

A sra. citou os mercado emergentes e o crescimento mais acelerado. Não é bem o caso do Brasil, onde, apesar dos incentivos e do corte de juros, o crescimento foi apático, e aumenta o temor de inflação. Qual a sua avaliação da atual política econômica brasileira?

Embora o crescimento tenha sido baixo ultimamente, ele tem melhorado, e prevemos que 2013 será um ano melhor — embora estejamos revisando para baixo, ligeiramente. Também acreditamos que o Brasil usou de forma eficaz todas as ferramentas de política fiscal e monetária que poderia para melhorar a situação.

As preocupações com a inflação podem ser tratadas de forma sensata talvez com um pouco de política monetária [aumento de juros], o que provavelmente deve estar em consideração. Essa é uma forma de lidar com a inflação.

A questão é que há muito ainda a ser feito [no Brasil] sobre os gargalos, sejam portos, aeroportos, rodovias… O fornecimento e escoamento de mercadorias é limitado por esses gargalos em praticamente todo o país, e é um grande país.

O aprimoramento da infraestrutura poderia melhorar muito a situação do país, e é isso que sugerimos que seja priorizado. A previsibilidade do ambiente de negócios também é importante. Eu adoro esportes, e vocês terão a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos — isso é a justificativa perfeita para melhorar a infraestrutura e os transportes.

O governo brasileiro tomou uma série de medidas fiscais para estimular a indústria local, ao passo que o Brasil tem criticado as pressões da moeda e a chamada “guerra cambial” [o aumento do dinheiro em circulação nos países ricos, que baixa o valor de suas moedas]. Esse paradoxo tem custo político internacional para o país?

Todo mundo sempre presta muita atenção ao que diz meu colega, o ministro Guido Mantega [Fazenda], e às vezes ele fala com tanta paixão que usa palavras fortes. O que ele chama de “guerra cambial” [“currency wars”, em inglês] eu chamo de preocupação cambial [“currency worries”], e entendo que esse temor exista. Vi também que ele recentemente disse não estar preocupado com os fluxos de capitais [externos], o que é um bom sinal de que o mercado brasileiro está absorvendo esse capital naturalmente, e as ferramentas de controle estão sendo usadas.

Mas eu vejo esse discurso de guerra se dissipando. E as preocupações têm de ser tratadas por todos –EUA, Europa, Banco do Japão, Banco da Inglaterra, todos os bancos centrais relaxaram juros para incentivar o crescimento.

A sra. falou em metas factíveis, ao comentar a meta mexicana. Voltando o foco para o FMI: a reforma do sistema de cotas [que aumentará o peso e a voz dos países emergentes, em detrimento dos ricos] é factível? O arcabouço atual, visando 2014, é realista?

Claro que é factível! A reforma de cotas decidida em 2008, com todos os chefes de Estado presentes, foi aprovada. Mas a reforma de governança, que é uma parte menor, é a que detona a implementação da reforma das cotas, e para ela ainda não temos nossa meta de 85% de aprovação, porque falta um país grande [faz um gesto de “este aqui”, em alusão aos EUA].

Com o impasse político atual nos EUA, onde isso não é prioridade, é factível?

É prioritário para os membros do FMI aceitar que é crítico para o ambiente multilateral e a estabilidade global ter todos os integrantes [do Fundo] na mesma página. Acho que a mensagem entre os integrantes é que falta pouco –digo isso porque os EUA já comprometeram uma quantidade significativa de dinheiro com as novas regras. Eu estou fazendo tudo o que podia, mas é uma entidade pilotada pelos países-membros.

Que riscos traria um adiamento?

Mais atrasos, mais irritação de um ou dois membros em particular [alusão ao Brasil, que manifesta descontentamento com a lentidão]. Precisamos agora é de uma discussão amigável e, espero, avanço entre os membros para atingir os 85% de aprovação [para a reforma de governança].

O FMI pode perder relevância? Os países dos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] acabam de fechar um acordo para terem seu próprio fundo…

Os europeus têm seu banco, e o Leste da Ásia também tem seu acordo. Esses arranjos intergovernamentais e regionais são totalmente compatíveis com o FMI. Eu não vejo o FMI perdendo energia, pois temos quase 70 anos de experiência em lidar com crises. Acho que quanto mais [arranjos] melhor, mas tem de haver cooperação. O FMI fornece fundos, desenha programas.

Isso vai continuar. A ligação entre arranjos regionais e o FMI funciona. Há reconhecimento de que muitas vezes faz mais sentido operar na região, sem escalar a questão globalmente.

Qual o próximo passo para o FMI? A organização recuperou sua relevância nos últimos anos, sobretudo por causa da crise. Por outro lado, para a reunião de Primavera nesta semana, não temos tantas expectativas como no ano passado, talvez por a situação ser melhor…

No ano passado tínhamos o foco em levantar fundos para o FMI, porque achei que não tínhamos o suficiente. Acho que neste ano está um pouco melhor, mas também acho que precisamos demais de cooperação. Não há outro fórum global em que todos os países-membros — não só os Brics entre si, ou as economias avançadas entre si –prestam contas umas às outras. É este o rumo que quero dar, o de prestação de contas, no qual o Fundo presta contas aos membros e os membros prestam contas uns aos outros.

Se qualquer economia for mal, qualquer setor financeiro tiver problemas, isso tem efeito globo afora. As economias estão interligadas, os sistemas financeiros também. Acordos regionais são bons, podem ajudar, mas é preciso assegurar que haja coordenação, cooperação e prestação de contas entre os países –e isso é mais difícil.

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