A outra face do voto de Celso de Mello

Comentário ao post “Celso de Mello e a senhoridade perdida
 
O decano do STF além da profunda exposição jurídica que compilou tudo que os blogs alternativos e os ministros divergentes vinham defendendo como direitos de defesa em qualquer Estado democrático, criticou no seu longo voto o aspecto político do julgamento, ombreando o que já vinha alertando o ministro Luís Roberto Barroso desde a sua sabatina no Congresso Nacional.
 
O pronunciamento do decano Celso de Mello é um verdadeiro alerta para os riscos que corre a democracia pela pressão desferida de grupos organizados, sobretudo amparados pela grande mídia.
 
Os excessos do julgamento, a necessidade do judiciário mostrar serviço, de atender a demando da grande mídia, me lembrou a história do julgamento de Saccio e Vanzetti e a letra da belíssima música cantada por Joan Baez, “A Balada de Sacco e Vanzetti”, tema do filme:
 
Parte 01
 
Dê-me seus cansados e seus pobres / suas massas acuadas desejosas de respirar liberdade/ o lixo miserável das incontáveis margens de seus rios/ mande-os, os sem-teto, as vítimas da tormenta para mim.

 
Abençoados são os perseguidos/ e abençoados são os puros de coração/ abençoados são os misericordiosos/ e abençoados são os que choram.
 
É difícil o passo que arranca as raízes/ e diz adeus aos amigos e à família/ os pais e as mães choram/ os filhos não conseguem entender/ mas, quando há uma terra prometida/ o bravo irá e outros o seguirão/ a beleza do espírito humano/ é a vontade de realizar nossos sonhos/ e assim, as massas atravessam o oceano/ em direção a uma terra de paz e de esperança/ mas ninguém ouviu uma voz ou viu uma luz/ enquanto era jogado na costa / e ninguém foi recebido pelo eco da frase: “Eu levanto minha lâmpada junto à porta dourada”.
 
Abençoados são os perseguidos/ e abençoados são os puros de coração/ abençoados são os que perdoam/ e abençoados são os que choram.
 
Parte 02
 
Sim, pai sou um prisioneiro/ não temo relatar meu crime/ o crime é amar os deserdados/ apenas o silêncio é vergonha.
 
Agora contarei o que está contra nós/ uma arte que vive há séculos/ percorra os anos e descubra/ o que tem maculado toda a história/ contra nós está a lei! / a polícia sabe como fazer de um homem/ um culpado ou um inocente/ contra nós está o poder da polícia/ as desavergonhadas mentiras contadas pelo homem/ serão sempre pagas em dinheiro/ contra nós está o poder do dinheiro! / contra nós está o ódio racial/ e o simples fato de sermos pobres.
 
Meu caro pai sou um prisioneiro/ não tenha vergonha de contar o meu crime/ o crime do amor e da irmandade/ apenas o silêncio é vergonha.
 
Comigo tenho meu amor, minha inocência/ os trabalhadores e os pobres/  por tudo isso estou seguro e firme/  e minha é a esperança/ rebelião e revolução não precisa de dólares/  precisam de/ imaginação, sofrimento, luz e amor/ e respeito por cada ser humano/ nunca roube, nunca mate/ você é parte da esperança e da vida/ a revolução passa de homem para homem/ de coração para coração/ e sinto quando fito as estrelas/ que somos filhos da vida/ a morte é pequena.
 
Parte 03
 
Meu filho, em vez de chorar seja forte/ seja bravo e conforte sua mãe/ não chore, pois as lágrimas são desperdiçadas/ não deixe os anos também serem desperdiçados.
 
Perdoe-me, meu filho, por essa morte injusta/ que priva seu pai de sua companhia/ perdoem-me todos que são meus amigos/ estou com vocês, portanto, não chorem.
 
Se sua mãe quiser esquecer/ a tristeza e a crueldade/ leve-a para uma volta/ ao longo dos plácidos campos/ e descanse sob a sombra das árvores/ onde lá e cá se colhe flores/ ao lado da música e da água/ está a paz da natureza/ ela irá gostar muito/ e, certamente, você irá gostar também/ mas, filho lembre-se/ não tenha tudo apenas para ti/ abaixe-se para ajudar/ os pobres que o cercam.
 
Perdoe-me, meu filho, por essa morte injusta/ que priva seu pai de sua companhia/ perdoem-me todos que são meus amigos/ estou com vocês, portanto, não chorem.
 
Os mais fracos que clamam por ajuda/ os perseguidos e a vítima/ são seus amigos/ e camaradas na luta/ e claro, eles tombam às vezes/ como seu pai/ sim como seu pai Bartolo/ eles tombaram/  e ontem lutaram e tombaram/  mas, na busca por alegria e liberdade/ e na luta por esta vida você descobrirá/  que há amor e às vezes mais/ sim, na luta você descobrirá/ que pode amar e ser amado também.
 
Perdoem-me todos os que são meus amigos/ estou com vocês/ imploro não chorem.
 
Link da abertura do filme com a voz de Joan Baez, legendado:

4 comentários

  1. Muito bem lembrado, Assis, e

    Muito bem lembrado, Assis, e linda letra. Houve e havera sempre necessidade de “sangue” para cobrir as reais intenções de um grupo e os verdadeiros crimes e criminosos. Lembra da Satiagraha ? E agora AP470. E se a justiça não perseverar agora, teremos mais Saccio, Vanzette ou Dirceu.

     

  2. hits e reprises

    Valdemar da Costa Neto = Ferdinando Nicola Sacco ?

    Pedro Henry = Bartolomeo Vanzetti ?

    Sugestão para mais um hit: HURRICANE, de Bob Dylan.

    http://vimeo.com/53933900

    Digamos que Rubin “Hurricane” Carter é o Marcos Valério…

    Calma, petistas. Celso de Mello foi duro na condenação aos petistas e associados.

    Alguém aí se lembra de suas palavras?

    Seguem alguns trechos para refrescar a memória…

     “projeto criminoso do poder, engendrado, concebido e implementado a partir das mais altas instâncias governamentais e praticado pelos réus do processo entre eles Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino”

    “grande organização criminosa que se constituiu a sombra do poder, formulando e implementando medidas ilícitas que tinham por finalidade realização de um projeto de poder”.

    “O que se rejeita, presente a situação denunciada pelo Ministério Público, é o jogo político motivado por práticas criminosas perpetradas à sombra do poder. Isso não pode ser tolerado, não pode ser admitido”.

    Vale a pena ver de novo:

    http://www.youtube.com/watch?v=UAeONAnua-4

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