Uso de programa incompatível adiou inclusão de condomínio de Bolsonaro no caso Marielle

Informação foi admitida por delegado que atuou nas investigações; Ele afirma que erros prejudicaram investigações e atrasaram descoberta de suspeitos

Élcio Vieira de Queiroz (ex-policial militar), suspeito de envolvimento na morte de Marielle Franco, e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Facebook

Jornal GGN – Em depoimento concedido à Justiça, no dia 2 de agosto, o delegado Giniton Lages, que atuou no caso Marielle até março deste ano, contou que erros na coleta e análise de imagens para identificar o percurso feito pelo Cobalt, carro usado pelos assassinos, atrasaram a identificação dos causados e, ainda, a inclusão do condomínio de Bolsonaro no caso.

O primeiro erro ocorreu na coleta de imagens feitas por câmeras do Itanhangá até a região do quebra-mar (início da orla da Barra). A partir desse ponto, os investigadores não identificaram mais o carro dos suspeitos, porque usaram um programa incompatível para visualizar o carro.

“A equipe cometeu o maior pecado de uma investigação, que foi chegar até o quebra-mar e não seguir para trás. Acreditou demais em sua própria ‘expertise’. Quando levaram a imagem para análise, tinham que ter a certeza que o carro não passou. Eles não perceberam um defeito de Codec [programas utilizados para codificar e decodificar arquivos de mídia] naquela imagem”, declarou o delegado.

O erro foi percebido 7 meses depois, em outubro de 2018, após uma denúncia anônima. “Com a segurança que nenhum policial pode ter numa atividade como essa, eles olharam as imagens, [mas] não são especialistas. Tinham que pedir a um especialista para olhar com outros olhos. [O especialista] Teria visto o carro em março [de 2018]. E aí toda a energia iria para a praia. E muito provavelmente pegaríamos eles entrando no carro, o carro parado há mais tempo. Teríamos outras informações que não temos hoje”, destacou Lages.

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O delegado conta que determinou que fossem buscadas imagens de prédios da orla, para localizar o veículo. “Mas o que aconteceu? O óbvio: não tinham mais imagens. O fato é que o carro vinha da praia”, explicou.

O segundo erro foi que, como não haviam identificado o carro no quebra-mar, em março de 2018, os investigadores não coletaram imagens da área. O problema foi resolvido em outubro, mas já era tarde e nenhum condomínio da região havia guardado seus arquivos.

“Minha esperança é que tivéssemos uma OCR [câmera de identificação de placas] na [avenida] Sernambetiba. Mas não consegui pegar esse carro na Sernambetiba. Uma OCR me indicaria se ele estava na frente da casa do Lessa, antes da casa do Lessa, depois da casa do Lessa, se não estava”, afirmou o delegado.

Somente depois de obter dados telefônicos dos acusados, é que os investigadores descobriram que o ex-policial militar Élcio de Queiroz, acusado de ser o motorista do Cobalt, se encontrou no condomínio de Ronnie Lessa, o Vivendas da Barra, o mesmo que, até antes de assumir o Planalto, o presidente Bolsonaro morava.

A polícia encontrou no celular de Lessa uma foto da planilha usada na portaria, que registra a entrada de visitantes no condomínio. A imagem havia sido enviada pela sua esposa, Eliane Lessa, no dia 19 de janeiro.

A planilha mostrava que, no dia 14 de março de 2018, horas antes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Gomes, Élcio Queiroz teria solicitado entrada para visitar a casa 58, onde mora Bolsonaro. A casa de Lessa ocupa os números 65/66.

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A informação levou à interrogação de um porteiro do condomínio que, segundo a Polícia Federal, disse que interfonou para a casa 58, sobre a visita de Élcio, e que uma pessoa identificada como “seu Jair” autorizou a entrada.

O porteiro disse ainda que acompanhou a movimentação de Élcio nas câmeras e viu que ele se dirigiu à casa 66, de Ronnie Lessa. O funcionário do condomínio voltou a ligar para a casa 58 e a mesma pessoa que ele identificou como “seu Jair” disse que sabia para onde Élcio estava indo.

Registros da Câmara dos Deputados, entretanto, apontam que naquele dia, Bolsonaro, então deputado federal, estava em Brasília, participando de votações na Câmara. Por outro lado, como divulgado aqui no GGN, a empresa que atende o condomínio de Bolsonaro oferece um sistema de acesso remoto à interfone. Isso significa que a portaria pode autorizar a entrada de visitantes ligando para o celular do morador.

A informação de que Élcio teria dito na portaria que estava visitando a casa de Bolsonaro veio a público no dia 29 de outubro, em reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo. Em menos de 24h, no dia 30 de outubro, o Ministério Público do Rio de Janeiro divulgou o resultado da perícia de áudios apreendidos na portaria do condomínio dizendo que a voz que aparece liberando a entrada de Élcio não é de Bolsonaro, e sim de Ronnie Lessa, e ainda que irá investigar porque o porteiro teria mentido.

Entretanto, no dia 1º de novembro, o MP admitiu que não considerou a possibilidade de adulteração dos registros e gravações, também não verificou se os arquivos foram apagados e renomeados antes de entregues à Justiça.

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*Com informações da Folha de S.Paulo.

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5 comentários

  1. Eu apostaria quase 100% que esta informação do delegado é MENTIRA.
    Explico: hoje, raro é o computador que vê vídeos que não tem os CODECS padrão, pois virou um lugar comum. Um equipamento de gravação é operado por pessoas comuns, não técnicas… aparecer um tipo de gravação com um CODEC diferentão é pura tentativa de achar uma desculpa.
    Falta de CODEC é coisa de, no máximo, os anos 00.
    Não viram as imagens pq não quiseram, assim como não fizeram a perícia na central telefônica do condomínio do BOZONARO.

  2. Se isso, na época, fosse apurado como deveria, Seu Jair não seria presidente e não seria Lula que estaria preso. O BraZil virou uma piada, de muito mau gosto.

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