4 de junho de 2026

A história do mais famoso soneto de Shakespeare

Por Gilberto Cruvinel

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Manuel Bandeira dizia que o soneto é uma composição poética de quatorze versos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. Mas o que faz o soneto, acreditava o poeta pernambucano, é antes um certo equilíbrio de volumes líricos genialmente esquematizado por essa divisão de dois quartetos e dois tercetos. Os poetas ingleses não respeitam muito essa estrutura do soneto, por eles tratado como um todo de quatorze versos. Para Bandeira, eram importante manter o esquema, tudo o mais era acessório: metro, rimas.

O soneto 18 é certamente o mais famoso na coleção de sonetos de Shakespeare e talvez seja o mais conhecido poema lírico em língua inglesa. Da obra do bardo inglês, talvez só o monólogo de Hamlet “Ser ou não ser” e o monólogo de Julieta “Ó Romeu, Romeu! Onde estás Romeu?” sejam mais conhecidos.

No tempo de Shakespeare, geralmente o soneto  era dito ou recitado ou escrito para grandes ocasiões, casamentos, nascimentos, celebrações. No caso do soneto 18, era uma elegia. Um poema lírico em tom terno e triste, uma canção de lamento.

Shakespeare tinha três filhos, um deles, um menino, chamado Hamnet. Hamnet, não Hamlet, a peça. Seu filho Hamnet ficou muito doente e Shakespeare estava em Londres trabalhando. E aqui, vemos um homem, um pai, com uma vida e problemas tal qual eu e você. É claro, ele tinha que ir ver o filho. Hoje em dia, se você tomar um carro a partir do centro de Londres até Stratford Upon-Avon, onde a família morava, não levará mais que 90 minutos. Naquele tempo, o dramaturgo inglês levou três dias.

Então, Shakespeare partiu e foi até lá e quando chegou a Stratford, foi recebido por sua família e descobriu que seu filho estava morto e enterrado. Não havia nada a fazer. Mas, o que poderia ele fazer além de confortar sua família? Para superar isso, o que ele ia fazer? Vocês podem imaginar a dor. Podemos imaginar que, talvez, depois que todos tivessem ido dormir, ele ficava acordado, com uma vela e sua pena. E ele escreveu, ele fez o que Shakespeare podia fazer melhor.

E ele escreveu o soneto 18,  “Posso comparar-te a um dia de verão”, onde ele fala sobre a eternidade, “até onde homens puderem respirar e olhos puderem ver”, ele viverá para sempre. Ele congelou no tempo o pequeno Hamnet em sua mente, para ser imortal na vida de Shakespeare.

Soneto XVIII

Tradução de Ivo Barroso

Devo igualar-te a um dia de verão? 
Mais afável e belo é o teu semblante: 
O vento esfolha Maio inda em botão, 
Dura o termo estival um breve instante. 
Muitas vezes a luz do céu calcina, 
Mas o áureo tom também perde a clareza: 
De seu belo a beleza enfim declina, 
Ao léu ou pelas leis da Natureza. 
Só teu verão eterno não se acaba 
Nem a posse de tua formosura; 
De impor-te a sombra a Morte não se gaba 
Pois que esta estrofe eterna ao Tempo dura. 
Enquanto houver viventes nesta lida, 
Há-de viver meu verso e te dar vida.

Soneto XVIII

Tradução de Geraldo Carneiro 

Te comparar com um dia de verão? 
Tu és mais temperada e adorável. 
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável. 
O sol às vezes brilha com rigor, 
Ou sua tez dourada é mais escura; 
Toda beleza enfim perde o esplendor, 
Por acaso ou descaso da Natura; 
Mas teu verão nunca se apagará, 
Perdendo a posse da beleza tua, 
Nem a morte rirá por te ofuscar, 
Se em versos imortais te perpetuas. 
Enquanto alguém respire e veja e viva, 
Viva este poema, e nele sobrevivas.

Sonnet 18

Shall I compare thee to a summer’s day? 
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date.. 
Sometime too hot the eye of heaven shines, 
And often is his gold complexion dimmed; 
And every fair from fair sometime declines, 
By chance, or nature’s changing course, untrimmed; 
By thy eternal summer shall not fade, 
Nor lose possession of that fair thou ow’st, 
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade, 
When in eternal lines to Time thou grow’st. 
So long as men can breathe, or eyes can see, 
So long lives this, and this gives life to thee.

……………………………………………………………………………..

Fontes:

1.      Shakespeare está em toda parte : Christopher Gaze em TEDxVancouver

2.      Geraldo Carneiro, O Discurso do Amor Rasgado poemas e fragmentos de William Shakespeare, p. 122, 123, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2012.

3.      Shakespeare, William; in Barroso, Ivo (tradução e apresentação). “William Shakespeare 50 Sonetos.”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011

4.     Shakespeare’s Sonnets

5.       Manuel Bandeira, “Andorinha, andorinha”, Organização de Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966, 1ª edição.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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  1. Ivan de Union

    5 de novembro de 2016 12:26 pm

    Notinha rapida, Gilberto:

    “talvez só o monólogo de Hamlet “Ser ou não ser” e o monólogo de Julieta “Ó Romeu, Romeu! Por que és Romeu?” sejam mais conhecidos”:

    “Where are thou, Romeo?” = “aonde estas, Romeo?”.  Banido por obsolescencia ha muitos seculos, o “tu” ja existiu no ingles.  E ainda continua enchendo o saco no portugues!

    1. Gilberto Cruvinel

      5 de novembro de 2016 2:55 pm

      obrigado pela correção, Ivan

      Obrigado pela correção, Ivan. Gostaria de pedir ao Nassif que liberasse o modo de edição para que eu possa corrigir este e mais dois enganos de digitação.

    2. Morvan

      6 de novembro de 2016 12:14 am

      Where Art Thou

      Boa noite. “Where art thou, para ser mais preciso, já que o Tu também sofre flexão, no inglês arcaico ou desusado.

      1. Ivan de Union

        6 de novembro de 2016 9:01 am

        “Art”, exato.  Minha

        “Art”, exato.  Minha “correcao” estava errada.  (So distraido mesmo!)

        1. Morvan

          7 de novembro de 2016 12:53 am

          Obrigado Pelo Retorno

          Boa noite. Obrigado pelo retorno informativo. Você tem crédito, não se preocupe. Fiz o reparo, como sempre o fazemos, à guisa de contribuir com a informação.

  2. Snaporaz

    5 de novembro de 2016 1:19 pm

    Sou mais Ivo Barroso…
     

    Sou mais Ivo Barroso…

     

  3. Meire

    5 de novembro de 2016 10:24 pm

    O Bardo.

    [video:https://youtu.be/S8Osse7w9fs%5D 

    Um bardo, ou aedo, na Europa antiga, era uma pessoa encarregada de transmitir histórias, mitoslendas e poemas de forma oral, cantando as histórias do seu povo em poemas recitados. Era simultaneamente músico e poeta e, mais tarde, seria designado de trovador. É a principal raiz da música tradicional irlandesa. O bardo usava frequentemente um alaúde para tocar suas melodias e músicas, que contavam na maioria das vezes uma história triste.

  4. Meire

    5 de novembro de 2016 10:32 pm

    Não sei quem é Arnaldo

    Não sei quem é Arnaldo Poesia, mas a tradução desse soneto XVIII de Shakespeare, para mim é a melhor das tres.

    Na tradução de Arnaldo Poesia, houve o cuidado e a preservação de manter o destinatário como uma pessoa do sexo masculino:

    Se te comparo a um dia de verãoÉs por certo mais belo e mais amenoO vento espalha as folhas pelo chãoE o tempo do verão é bem pequenoÀs vezes brilha o Sol em demasiaOutras vezes obscurece com frieza;O que é belo declina num só dia,Na eterna mutação da natureza.Mas em ti o verão será eterno,E a beleza que tens não perderás;Nem chegarás exausta ao triste inverno:Nestas linhas com o tempo crescerás.E enquanto nesta terra houver um ser,Meus versos ardentes te farão viver

     

  5. antonio francisco

    6 de novembro de 2016 10:33 pm

    Ah! A poesia! – Grato, Gilberto Cruvinel!

    Nestes tempos tão escurecidos pelo golpismo, muito bom a gente ver que há interesse pela poesia clássica do mestre Shakespeare.

    Mas, há também o interesse maravilhoso de amapaenses no Dia Nacional da Poesia, conforme registrou  Alcinéa Cavalcante:

    boca1

    https://www.alcinea.com/cultura/hoje-e-o-dia-nacional-da-poesia

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