Começam os tumultos na porta do Paraíso, por Sebastião Nunes

No que bestavam entre turbilhões de ex-viventes eternamente à espera, meus dois e fraternos amigos toparam de novo, por espantoso que pareça, com o mais antigo de nossos fraternos caríssimos (a expressão é dele), Manoel Lobato.

Começam os tumultos na porta do Paraíso

por Sebastião Nunes

A paz na eternidade é uma doce ilusão.

Sérgio Sant’Anna e Luís Gonzaga Vieira continuavam bestando no vastíssimo hall de entrada de Paraisópolis, na agradável pachorra de quem nada tem a fazer, exceto esperar. Mas estamos carecas de saber que, na eternidade, o tempo não existe e, por causa desse estranhíssimo (para nós, leigos) fenômeno, esperar e esperança são palavras vazias de sentido.

Claro que alguém poderia argumentar que, se o tempo não existe, o movimento também não, mas sutilezas desse naipe escapam aos propósitos de meus relatos, para não dizer que estão além de meus conhecimentos fenomenológicos, quiçá científicos, quem sabe teológicos.

Em frente, pois.

No que bestavam entre turbilhões de ex-viventes eternamente à espera, meus dois e fraternos amigos toparam de novo, por espantoso que pareça, com o mais antigo de nossos fraternos caríssimos (a expressão é dele), Manoel Lobato.

– Olha o velho sacana de novo – disse Sérgio, apontando o titubeante vulto, que por ali transitava que nem alma penada, aos arrancos.

Míope qual velha toupeira, Vieira ajustou os óculos (um dos raros bens pessoais permitidos aos recém-desencarnados) e realmente viu, em meio aos infelizes e soturnos perambulantes, o velho sacana, que mais lerdamente perambulava.

Ah, sim, também são permitidos fuzis, espingardas de um e dois canos, espadas, escopetas, sabres, submetralhadoras, canhões, mísseis teleguiados ou não, torpedos, pistolas, revólveres de variados calibres etc.

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– Junta-te aos eleitos! – exclamou o calvo Luís Gonzaga, decerto relembrando o erudito palavreado de seu setecentista xará, padre Antônio Vieira, o nunca assaz louvado, festejado e paparicado jesuíta sermonista.

Como também fosse chegado a um mais castiço vernáculo, ergueu o contista-cronista-romancista-jornalista-advogado e farmacêutico, com alguma dificuldade, uma das duas pernas de que ainda dispunha, disposto a levá-la adiante quando…

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU

Não mais ou menos que de repente, puseram-se os ex-egotistas a escutar, espreitar e sondar, certos de que a porta do Paraíso enfim e definitivamente se abriria para suas ansiosas e curiosas almas.

Nada disso. O que aconteceu foi que, como se as comportas do céu e do inferno se abrissem, quinquilhões de desesperantes puseram-se, quase que em eco uns dos outros, a gritar, deblaterar, discursar, arengar, vociferar e gemer preces, xingamentos, rogos, promessas, ameaças e diatribes. Todos sobrepostos em banquinhos de três pernas.

O primeiro dos quais, quase junto de nossos amigos, declamava:

– Caralho, porra e merda para ti, porta do Paraíso. Aqui aportados a mando das parcas, acreditamos que para nós se abriria sem tardança a porta do Paraíso, e o que é que nos acontece? Há infinitos anos aqui estamos, paralisados como bichos-preguiça, lentos como lesmas, indefesos como criancinhas de colo, estúpidos que nem galinhas… E nada nos é revelado, narrado, contado. Afinal de contas, o que somos? Almas novas desesperadas ou seres amaldiçoados? Hein? Responda, seu velho maldito, pois sei que por detrás da porta nos espreita o velho São Pedro, puxa-saco de Deus e guardião das chaves. Abre essa porta e vem cá para fora, se és homem, ou santo, ou porteiro. Chega de esperar! Basta!

Mais para a direita, uma enorme criatura maltrapilha, de dentro de cujos farrapos se abriam feridas horrorosas e malcheirosas, resmungava:

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– Basta de postergação! Chega de fazer-nos de palhaços. Fomos sequestrados de nossos corpos e agora, em almas pasmosas transformados, só nos resta a revolta, já que não existem tempo ou espaço, nem sei que átrio, entrada ou hall nos comporta!

E assim por diante e sucessivamente, de modo que trepadas em quinquilhões de bancos, quinquilhões de vociferantes almas furiosas arengavam, furiosamente, como se em praça pública a discursar furiosas estivessem.

Boquiabriram-se Luís, Manoel e Sérgio diante de tais despautérios. E mais boquiabertos se puseram quando, como se ordenados por algum infernal Donald Trump ou Jair Bolsonaro, sacaram todos suas armas, fossem elas quais fossem e, emitindo um horrível e uníssono berro, lançaram-se todos sobre as portas do Paraíso.

Quem diria, não é mesmo? Até diante das portas do Paraíso a extrema direita faz valer seus rompantes, aqui na figura de quinquilhões de almas recém-chegadas, vindas do mundo do lado de lá, do mundo vivo e tumultuoso que nos acolhe, embora não nos dê descanso, no eterno combate diuturno aos malfeitos dos malfeitores.

Foi quando se ouviu atroz ranger de enferrujadas dobradiças, e a tremenda porta se abriu, e o tremendo (pois que altíssimo e de feroz catadura), São Pedro apareceu.

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