Como era de esperar, mundos paralelos se desencontram no infinito, por Sebastião Nunes

Estamos chegando perto, não do final, mas do miolo da encrenca. O genocida terá se estrepado? Nem eu sei. Saberemos nos próximos capítulos.

Como era de esperar, mundos paralelos se desencontram no infinito

por Sebastião Nunes

Enquanto o pseudo-espírito do pseudo-humano Jair Messias, tentava passar a perna em São Pedro e no arcanjo Gabriel, nossos amigos caíram suavemente no planalto Z, depois de despencar X quilômetros durante Y anos. (Essa marcação espaço-temporal é uma mania que não me larga desde o primeiro emprego, de almoxarife numa fábrica de pregos.) (Aliás, como dito e redito, na eternidade não existe tempo nem espaço, de modo que tanto faz como tanto fez.)

Adão Ventura, susceptível em excesso a fedores, miasmas e cheiros de qualquer natureza, tapou o nariz com um lenço. (Não, não era uma máscara, pois a Covid não deu as caras por lá.) Os demais, assustados em excesso para se ocupar com ninharias, se puseram a sondar o ambiente.

AS VÍSCERAS EXPOSTAS DO FRACASSO

Era um lugar horrível. Parecia um gigantesco terreno baldio de periferia, no qual urubus, ratos e baratas disputavam arduamente restos de comida. Lembrava vagamente o plano-piloto de Brasília. Cercado por ruínas sombrias do que devem ter sido prédios ministeriais, destroços de uma edificação futurista lembrava vagamente o Palácio da Alvorada, em Brasília. Na frente dele, um cartaz em farrapos exibia restos de duas fake news que foram exibidas lá em cima, próximo ao portão do Paraíso:

BOLSO ARO NÃ GENOCID

MITO U CARALH

Não se via vivalma, como diz o clichê. Nem morta. Aquilo parecia desabitado há dezenas de anos, agora sim, anos terrestres. Entre tijolos, ferragens retorcidas, pedaços de gesso, cimento e pedra, crescia um denso matagal, constituído de ervas comuns em ruas de subúrbio: quebra-pedra, mastruço, picão, trevo, serralha, beldroega, caruru e capim, muito capim, à espera de ruminantes inexistentes que pudessem apreciá-lo. Era desolador e sinistro. Patético e irreal. Como avisos fúnebres para ninguém.

– Parece que aconteceu uma tragédia neste lugar – disse Sérgio Sant’Anna. – Me lembra um anfiteatro grego arruinado.

– Será que encenaram lá dentro um drama de Shakespeare? – aventurou-se a imaginar Luís Gonzaga Vieira.

– Quem sabe uma tragédia digna dos grandes dramaturgos, aqueles para os quais vida e morte eram apenas verso e reverso de uma moeda maldita – delirou Otávio Ramos, sempre chegado a imaginar horrores.

Jimi Hendrix sacou alguns acordes da guitarra. Janis Joplin emitiu alguns sons que lembravam soluços de bêbado. Manoel Lobato lembrou os tempos de farmacêutico e recordou a noite em que uma puta enterrou uma peixeira na própria barriga. Adão não disse nada, apenas passou a língua pelos beiços ressecados.

DE BAIXO PARA CIMA

Enquanto isso, lá em cima, o pseudo-espírito do pseudo-humano Bolsonaro fazia das tripas coração para bolar um plano capaz de evitar que Jair Messias despencasse no abismo sem fundo. Viu, com horror, que as fakes news que sustentavam Bolsonaro à beira do abismo, começavam a rachar, como se feitas de isopor. Pior ainda, percebeu as mãos de Jair Messias assumindo uma cor arroxeada, como se todo o sangue do corpo ali se concentrasse, numa tentativa desesperada de fortalecê-lo.

“Não posso mentir” – pensou sombriamente. “Eles descobrem tudo o que penso, então não adianta sair pela tangente”.

– E não adianta mesmo – disse Gabriel Arcanjo. – O melhor que você pode fazer pelo seu chefe é contar coisas boas que ele fez em vida.

“Ah, caralho, estou fodido” – continuou pensando o pseudo-espírito do pseudo-humano Jair Messias. E perguntou, agora em voz alta:

– Você está sugerindo que ele morreu?

– Sugerindo, não – respondeu Gabriel. – Estou dizendo com todas as letras: ele foi estraçalhado por uma multidão enfurecida.

– Como, quando, onde?

– Ah, isso você vai ter de perguntar pra ele. Segredo de estado, sabe como é?

DE CIMA PARA BAIXO

Estamos de volta ao planalto onde caíram nossos amigos imortais-mortais-imortais. Lá estão eles, de olhos arregalados diante de ruínas que pareciam muito antigas, mas que, se fossem mesmo restos do Palácio da Alvorada, deviam ser recentes. Mas recentes em relação a quê? Eles não estavam apenas fora do espaço, mas também fora do tempo inventado pelos humanos. Indecisos, chamaram Sancho e, fornecidos do manjar dos deuses de que precisavam, sentaram-se no nada para meditar.

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