Continua a leitura e o desencanto com o mundo em que vivemos, por Sebastião Nunes

Escrever ficção-não-ficção é complicado, porque é preciso manter a lógica e a sequência. Segue mais um capítulo da distopia 2084, com meus amigos recém-mortos continuando na briga contra o genocida e seus semelhantes.

Continua a leitura e o desencanto com o mundo em que vivemos

por Sebastião Nunes

Sérgio Sant’Anna se preparou para ler o excelente ensaio de Raymond Chandler sobre a entrega do Oscar de 1946, ou 47 ou 48. Pigarreou, encheu o peito, abriu a boca e foi bruscamente interrompido.

– Ah, não. Essa velharia agora, não – emitindo alegres perdigotos, Luís Gonzaga Vieira decidiu em nome de todos. – Deixa o Oscar pra lá. Peguei aqui um texto sobre televisão que é muito melhor.

Pegou como? Perguntará o inexistente leitor. E eu responderei ao fantasma claro da inexistência: Acontece que cada fruto de cada árvore é o mesmo livro-fruta. Existe uma árvore torta em que todos os livros-fruta têm o título VIDA E OBRA DE JAIR MESSIAS GENOCIDA BOLSONARO, embora todas as páginas estejam em branco, pois na vida do genocida nada existe que mereça lembrança. (Pensei agora se não seria melhor que todas as páginas exibissem respingos de sangue das vítimas sacrificadas por seus parças. Mas deixa para lá. Pensaremos nisso depois.) Do mesmo modo todos os livros-folha da árvore que leem nossos amigos são exemplares de NUNCA VI MEUS MELHORES AMIGOS. Ponto final.

Então, no que falou, Vieira revirou os olhos e começou, indo até o fim no galope mais desembestado de que foi capaz.

“A televisão é realmente aquilo que temos esperado a vida inteira. Para ir ao cinema é preciso certo grau de esforço. Alguém precisa ficar com as crianças. É preciso tirar o carro da garagem. É preciso dirigir até o cinema e estacionar. Às vezes, é preciso andar alguns quarteirões. Depois, lá dentro, gente de cabeça grande senta na nossa frente e nos irrita… O rádio foi muito melhor, mas não havia nada para ver. Dava vontade de ficar olhando em volta e dava vontade de pensar em outras coisas, coisas em que não se queria pensar. Era preciso usar a imaginação para criar um quadro do que estava acontecendo a partir do som, e nada mais… Mas a televisão é perfeita. Basta girar os botões, espalhar-se na poltrona e esvaziar a mente de todo pensamento. Não tem que se concentrar. Não tem de recordar. Não se gasta o cérebro porque não é necessário. O coração, o fígado e os pulmões continuam funcionando perfeitamente. Fora disso, tudo é paz e silêncio. É o nirvana do pobre. A quem culpar pelo que ela exibe? Será que foram as agências de publicidade que criaram a vulgaridade e a imbecilidade com que se aceita a televisão? Para mim, a televisão é só uma cara a mais desse considerável segmento de nossa civilização que nunca teve qualquer regra, exceto o dinheiro.”   

Aplausos demorados. Sérgio tentou começar sua leitura, mas não foi possível. O gosto da leitura em voz alta tinha afetado todos os amigos.

NOVAS LEITURAS, NOVOS INSIGHTS

Solene, Adão Ventura declamou:

“Odeio a publicidade. Quase sempre é desonesta e sempre é estúpida.”

Circunspecto, Manoel Lobato sintetizou:

“Toda crueldade é uma espécie de medo.”

Voluptuoso, Sérgio Sant’Anna entrou na roda com um texto mais curto:

“Certa vez, olhando pela janela do estúdio, vi por casualidade os chefes que voltavam do almoço no restaurante dos executivos. Mergulhei num prazer sinistro. Eles se pareciam exatamente com um bando de gangsters de Chicago indo ler a sentença de morte de um rival derrotado. Num relâmpago, vi um estranho parentesco espiritual entre os donos dos bancos e os figurões da máfia. As mesmas caras, as mesmas expressões, os mesmos gestos, o mesmo modo de vestir e o mesmo relaxamento exagerado de todos os movimentos.”

Otávio Ramos não deixou por menos, em outra clave:

“Existem escritores demais escrevendo resenhas sobre outros escritores. Existe consideração excessiva com livros que obviamente nunca irão a parte alguma. Existe demasiada incompreensão sobre o que há nos livros que leva alguém a lê-los. E há um grupo de resenhistas monotonamente decididos a dizer algo amável sobre quase qualquer livro.”

Litúrgico, Vieira entoou:

“Creio que a história e a crítica literária estão tão cheias de desonestidade e de jactância quanto a história em geral.”

Cerimonioso, Adão: martelou:

“Há coisas no negócio editorial de que gostaria, mas lidar com escritores não seria uma delas. Seus egos exigem demasiada atenção. Vivem vidas demasiado tensas, em que se sacrifica demasiada humanidade por demasiada pouca arte. Para toda essa gente a literatura é mais ou menos o fato central de sua existência, enquanto que, para uma imensa quantidade de pessoas razoavelmente inteligentes, é um fato marginal sem importância.”

Finalizando por hoje, Lobato sacramentou:

“Céus, esse cara merecia uma boa podada. Escreve de modo soberbo, às vezes, mas nunca sabe quando parar.” [Referindo-se à prolixidade de Sartre.]

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