O complexo sistema de vaporização de impessoas, por Sebastião Nunes

Continuando a saga da distopia 2084, começo neste 12º capítulo a desfazer a biografia de um herói futuro, que, infelizmente caiu em desgraça junto ao Grande Irmão sendo, por isso, vaporizado, isto é, tornado inexistente.

O complexo sistema de vaporização de impessoas

por Sebastião Nunes

Enquanto Wilson trabalhava, a abertura retangular despejou uma mensagem nova diante dele:

Globo 10-05-2083: informe g1 dado errado autoria retificar.

Quando leu o informe a retificar, Wilson mal conteve um sorriso. Alguém ficara enciumado nos escalões superiores, pois o que estava escrito era o seguinte:

“O consumo humano, o aumento da população, o turismo predador e a expansão da tecnologia alcançaram aquele estágio em que a mãe Terra não aceita mais a nossa presença em silêncio. Assinado: Dalai Lama.”

Era uma tarefa bem simples: tratava-se apenas de trocar um nome: o do Dalai Lama pelo do Grande Irmão, o “verdadeiro” autor da frase. Feito isso, interrogou-se sobre quem seria esse Dalai Lama. Remotas lembranças lhe ocorriam, mas nada de concreto. Em seu cérebro confuso e superpovoado de minúcias, misturavam-se religião, ciências, geografia, literatura, história… Em que área de conhecimento deveria buscar a esquiva criatura? Mais do que tudo, o que o irritava de verdade é que, trabalhando no Miniver, tendo acesso a praticamente todo o conhecido vivo, morto e vaporizado, retificado ou não retificado, mesmo assim sua ignorância era absurda.

Com um suspiro, acomodou-se na cadeira para realizar a grande tarefa do dia: corrigir um grave erro sobre uma pessoa não existente.

Tirou o dicionário de Novilíngua da gaveta, afastou o falaescreve, limpou as lentes dos óculos e estava preparado para começar.

A maior parte do trabalho de Wilson, embora realizado com a necessária boa vontade, era chata e cansativa. Mas havia tarefas tão difíceis e intrincadas que ele se perdia nelas como nas profundezas de um problema matemático.

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Havia delicados casos de falsificação sutilíssima em que só podia se orientar pelo conhecimento profundo do Socmundi e pela intuição daquilo que o Partido queria que fosse dito. Dessas coisas Wilson gostava. Em uma ocasião, inclusive, fora-lhe confiada a retificação de editoriais do Globo, totalmente escritos na Novilíngua.

O PRAZER DO TRABALHO BEM FEITO

Wilson releu a tira de papel: Globo 11-05-2084: ordemdia g1 duplomaismal refere impessoas reescrever total

Isto, na velhalíngua (ou no português antigo) podia ser traduzido como:

A informação sobre a ordem do dia do Grande Irmão no Globo de 11 de maio de 2084 é decididamente insatisfatória, por fazer referência a pessoas não existentes. Que seja reescrita completamente e que o rascunho seja enviado à autoridade superior antes do arquivamento.

Wilson leu o artigo mencionado. Tudo indicava que a ordem do dia do Grande Irmão fora dedicada a elogiar o trabalho de uma organização conhecida como FICC (ou Fundação Internacional Contra os Coronaviridae), que fornecia máscaras, luvas e outros artigos aos soldados da marinha. O camarada Joaquim Fulgêncio, membro destacado do Partido Interior e um dos líderes da FICC, havia recebido uma menção especial e lhe haviam concedido uma condecoração, a Ordem do Mérito Naval de Segunda Classe.

Três meses depois, a FICC fora dissolvida sem maiores explicações. Supunha-se que Joaquim e seus camaradas haviam caído em desgraça, embora nada tenha sido divulgado na imprensa ou na macrotela. Não era raro isso acontecer, porque poucas vezes os criminosos políticos eram processados ou mesmo denunciados. Os grandes expurgos que afetavam milhares de pessoas, com julgamento público de traidores e criminosos mentais, que confessavam abertamente seus delitos e eram executados com estardalhaço, tornaram-se espetáculos populares muito apreciados pelos proles, mas não ocorriam mais do que a cada dois ou três anos. O habitual era que os indivíduos que contrariavam de alguma forma as determinações do Partido desaparecessem sem mais nem menos e nunca mais se voltava a saber deles.

Ninguém tinha a menor ideia do que acontecia. Em alguns casos era possível que nem ao menos estivessem mortos. Wilson calculou que uns trinta conhecidos seus haviam desaparecido em algum momento sem deixar rastros.

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Wilson coçou suavemente o nariz com um clipes. No cubículo ao lado, o camarada Ramiro continua inclinado e com ar misterioso sobre o falaescreve. Levantou por instantes a cabeça e seus óculos voltaram a projetar um brilho hostil. Wilson bem que gostaria de saber se o camarada Ramiro se ocupava do mesmo trabalho que ele, pois era bem possível: tarefas delicadas nunca se confiavam a um só indivíduo. Por outro lado, confiá-la a um comitê seria admitir abertamente que se tratava de uma falsificação. O mais provável era que houvesse pelo menos uma dúzia de pessoas trabalhando em versões diferentes daquilo que o Grande Irmão havia realmente dito.

Quando terminassem, algum cérebro privilegiado do Partido Interior escolheria esta ou aquela versão, corrigiria alguma coisa, e então poria em marcha o complexo sistema de referências cruzadas. Em seguida, a mentira eleita passaria aos arquivos e se converteria em verdade.

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