Marcelo Yuka, o cronista do Brasil, por Arthur Grohs

No fim de 2000, Yuka foi alvejado por criminosos que desejavam assaltar outra pessoa. O resultado: recebeu nove tiros e uma cadeira de rodas

do Facebook de Marcio Nunes

Marcelo Yuka, o cronista do Brasil

por Arthur Grohs

Homenagem ao legado do artista, cujo falecimento completou cinco anos em 2024

No segundo semestre de 1999, o Brasil passaria a encarar um retrato seu, eternizado por um de seus mais brilhantes filhos. A pintura, ao invés de tinta, era colorida por canções. Essas evidenciavam o cotidiano em constante processo de alienação e rodeado pela violência — a qual, por sua vez, era negligenciada por quem não era presa nessa cadeia “alimentar”. Trata-se do disco Lado B Lado A, d’O Rappa, banda carioca protagonizada (até aquele momento) pela genialidade do então baterista e principal compositor da banda, Marcelo Yuka.

Nascido no último dia de 1965, Marcelo Fontes do Nascimento Viana de Santa Ana desenvolveu a habilidade de fazer os mais incontornáveis problemas da realidade brasileiras caberem em quatro ou cinco minutos de música. Proporcionava testemunhar o peso da vida com o esforço de soprar um dente-de-leão. Afinal, suas canções, que continuam embalando gerações, lançam luz naquilo o cartão postal parece ocultar.

Não haviam tablets em 1999. Tampouco a infância estava entregue aos smartphones e aos computadores. Era momento de certo otimismo, afinal, o Plano Real havia resolvido o que seus predecessores conseguiram agravar. Logo, havia, em vigência, a conversa sobre um Brasil melhor e possível. Mesmo assim, Yuka alertava, com leveza e o sorriso — próprio da imagem popular que se tem do cidadão carioca —, que “faltou luz, mas era dia” e que “o Sol invadiu a sala”, fazendo “da TV um espelho, refletindo o que a gente esquecia”. Porque, já estava em curso, certa alienação do indivíduo em relação ao concreto, afastando-o daquilo que importa mais do que a economia e que se encontra no “som das crianças brincando nas ruas, como se fosse um quintal” e na “cerveja gelada na esquina, como se espantasse o mal”.

Yuka, com o mesmo tom, abordou a relação entre o desamparo e o tráfico. Algo que que a sociedade brasileira — em especial, seus setores mais conservadores e reacionários, mas não somente — têm dificuldade em aceitar (ou compreender). Quer dizer, o músico — assim como, anos depois, especificamente em 2007, Mano Brown, no Roda Viva — tratava os peões da estrutura “comercial” tráfico, não como criminosos, mas como trabalhadores. Ele, na realidade, reconhecia que os problemas sociais (e, dentre eles, consta a indiferença do Estado em relação a eles) eram tão grandes que, no frigir dos ovos, criava uma realidade paralela. Nela, uma parte da população marginalizada se via sem alternativas, senão se tornarem “comerciantes”. Como o próprio Yuka escreveu em “A feira”: “tô vendendo ervas que curam e acalmam, tô vendendo ervas que aliviam e temperam. Mas eu não sou autorizado e quando o rappa chega, eu quase sempre escapo. Quem me fornece é que ganha mais, a clientela é vasta, eu sei”.

Essa delicada sutileza, por vezes, invertia-se em um semblante austero que denunciava a violência policial no lado B do cartão postal, sobretudo, o carioca. Refutando o discurso de caso isolado, a letra de “Tribunal de Rua”, desvela a impotência do marginalizado diante do abuso e da covardia de um “fardado alucinado”. Afinal, trata das cenas em que a polícia, em maior número, ataca e constrange um inocente, em nome do combate à criminalidade. Categórico, aliás, em dizer que se trata, acima de tudo, de “resquício de ditadura”.

Ao excetuar os louros da efêmera carreira, abreviada por uma morte ainda mais precoce, aos 53 anos, importa também salientar quem foi Marcelo Yuka após o fatídico dia que o motivou a dizer: “eu não sei muito bem o que aconteceu. Eu só sei que eu sou baterista, tomei tiros, estou paraplégico e minha vida acabou”. No fim do ano 2000, Yuka foi alvejado por criminosos que desejavam assaltar outra pessoa. Como resultado, sofreu nove tiros e passou a depender da cadeira de rodas. Em suas palavras, passou do gênero “homem” para “homem na cadeira de rodas”. Mais do que a invalidez das pernas, Yuka passou a ter a dor física como constante companheira pelos anos que se sucederam até seu óbito.

A resiliência, contudo, esteve longe de ser contemplada por ele. Continuou a dar palestras e militar politicamente em prol dos princípios que acreditava. Ao contrário de um moralismo barato, o ensinamento que deveria se cristalizar veio à tona na entrevista que Yuka deu à Marília Gabriela, quando disse: “Muita gente, no começo da minha lesão, fala assim: ‘você vai ser uma pessoa melhor por causa disso’. Eu não sei. Eu queria aprender pelo amor; pela dor, todo mundo aprende, acho mais convencional”.

Muito provavelmente, Yuka não teve como ambição alguma em ser tratado com a alcunha de “o cronista do Brasil”. Porém, de alguma forma, a vivacidade de sua obra, que mescla a alegria da simplicidade, a coexistência com o contraditório, com o paradoxo, e, além disso, a indignação em relação à injustiça, permanece atual. Sua poesia ainda se vê representada pelas ruas dos subúrbios do país, enquanto as músicas permanecem ecoando nas mentes e nos corações daqueles que reverenciam o brilhantismo de seu legado.

Arthur Grohs (né F. Simões Pires) é formado em jornalismo (UFPel), mestre e doutorando em Comunicação (PUCRS).

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Redação

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