O banquete das telecomunicações no Brasil

Por Assis Ribeiro

“Supertele brasileira” será portuguesa

Brasil 247

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Demissão de Francisco Valim (centro) do comando da Oi pelos acionistas Carlos Jereissati (esq.) e Sérgio Andrade (dir.) é parte de um movimento mais amplo; operadora brasileira de telefonia, que recebeu montanhas de dinheiro do BNDES e dos fundos de pensão, será vendida para a Portugal Telecom e comandada pelo executivo Zeinal Bava; discurso nacionalista do governo será superado pelos interesses privados dos sócios que foram ao leilão de privatização sem dinheiro e embolsarão R$ 2 bilhões.

Em 1998, quando o governo FHC privatizou as telecomunicações, o consórcio liderado pelo empresário Carlos Jereissati, irmão do então senador tucano Tasso Jereissati, apresentou uma proposta pela antiga Telemar, que unia concessionárias no Rio de Janeiro e em vários estados do Nordeste, sem ter dinheiro para tanto. Ainda assim, aliado ao então presidente da Previ, Ricardo Sérgio de Oliveira, que ocupa papel de destaque no livro “Privataria Tucana”, venceu o leilão e os fundos de pensão estatais montaram uma operação emergencial para financiar os compradores.

Dias depois, o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que disputava espaço no governo FHC com Ricardo Sérgio batizou o consórcio Telemar como “telegangue” e comandou uma intervenção na empresa. Fez com que o BNDES comprasse 25% das ações e deu início a um novo processo de venda que deveria culminar com a entrada da Telecom Italia na empresa. Esse processo foi abortado quando as chamadas fitas do BNDES – grampos clandestinos publicados pela Folha – derrubaram Mendonça de Barros e permitiram que Jereissati e seu sócio Sergio Andrade, da empreiteira Andrade Gutierrez, continuassem à frente da Telemar.

No governo Lula, havia a expectativa de o governo montasse uma grande empresa brasileira de telecomunicações comandada por fundos de pensão, que eram acionistas tanto da Telemar, de Carlos Jereissati e Sérgio Andrade, como da Brasil Telecom, de Daniel Dantas. Fez-se uma fusão à força entre as duas empresas, que envolveu até ações de espionagem e operações da Polícia Federal, e governo usou montanhas de recursos tanto do BNDES como dos fundos de pensão para criar a chamada “supertele nacional” – uma empresa que teria a missão de enfrentar a espanhola Telefônica, dona da Vivo, a mexicana Telmex, dona da Claro e da Embratel, e a italiana TIM.

Três anos depois da criação dessa empresa, no entanto, a Oi é a quarta do setor e não consegue apresentar bons resultados. Tanto que seu presidente, Francisco Valim, foi demitido por telefone na semana passada. Sua saída, no entanto, faz parte de um movimento mais amplo. Muito em breve, a “supertele brasileira” será uma empresa portuguesa. Isso porque Carlos Jereissati e Sérgio Andrade estão vendendo suas ações para a Portugal Telecom, numa operação conduzida pelo BTG Pactual, de André Esteves. O novo presidente da companhia deverá ser o português Zeinal Bava.

Leia, abaixo, nota de Lauro Jardim, que é muito próximo a Sérgio Andrade:

Uma megaoperação

Carlos Jereissati e Sérgio Andrade iniciaram negociações para a venda de suas participações na Oi – de 19,35% cada um – para a Portugal Telecom, que é dona de 12,07% da holding. O quase onipresente BTG Pactual é o banco que trabalha na operação. Na mesa, um negócio de 2 bilhões de reais, no total. Se a transação for fechada, marcará precocemente o fim da ambiciosa ideia do governo de criar uma supertele nacional. Tal como ela foi concebida, em 2008, Jereissati e Andrade contaram com o firme apoio do BNDES, quando a Oi comprou a Brasil Telecom. Mas o discurso do governo não se abala: a fundação dos funcionários da Oi (dona de 11,5% da holding), a Previ (9,7%), a Petros (7,5%) e o BNDES (13%) serão exibidos como sinais da forte presença brasileira na empresa.

Na verdade, o caso das telecomunicações mereceria um “Privataria 2”.

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