Helene Grimaud, a pianista gentil, por André Motta Araújo

Uma figura gentil, leve, sem estrelismos, excepcional intérprete na geração da virada do Século XX para o XXI.

Helene Grimaud, a pianista gentil

por André Motta Araújo

De todas as decadências que o mundo artístico conheceu após o período de ouro de 1945 a 1990, fim da Guerra Fria, poucos setores se salvaram.

Um deles foi o mundo do piano, novas gerações de bons intérpretes continuaram a aparecer, a grande arte do piano clássico se mantém.

HOROWITZ E ASHKENAZY

Para meu gosto ninguém superou Vladimir Horowitz, no Século XX, pela técnica, arte e encanto pessoal. Uma “figura”, meio doido, meio gênio, um intérprete completo, humano, teve anos de depressão sem tocar, dominado pela esposa, a ditatorial Wanda Toscanini, filha do maior maestro do século, Arturo Toscanini. Horowitz atravessou o Século XX, do terremoto da Revolução Soviética ao Carnegie Hall, um personagem de nosso tempo.

Seu sucessor natural é Wladimir Ashkenazy, como ele judeu russo, hoje com 82 anos, com interpretações excepcionais, um lorde do piano.

SERGEI RACHMANINOV

Outro russo, sofisticado, maior amigo de Horowitz, Rachmaninov conseguiu o prodígio de ser ao mesmo tempo grande pianista, compositor e maestro.

Seu Concerto nº 2 é, para meu gosto, a maior obra sinfônica do Século XX, tão boa que parece ser do tempo de Mozart e Beethoven.

Mas a Rússia produziu outro portento menos conhecido, EMIL GILELS, que viajou pouco fora da URSS. Dirão muitos que Arthur Rubinstein foi o maior. Foi um grande pianista mas impulsionado demais pela mídia americana e israelense, a estrela ofuscou o intérprete, virou símbolo.

Claro que há outros grandes perto de nós como CLAUDIO ARRAU, com seu bigode chileno, já morto, o nosso NELSON FREIRE, a enigmática argentina MARTHA ARGERICH que se enfeiou (era uma linda mulher) para não ser incomodada, outro argentino, DANIEL BARENBOIM, dublê de maestro e intérprete.

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HELENE GRIMAUD

Uma figura gentil, leve, sem estrelismos, excepcional intérprete na geração da virada do Século XX para o XXI. A moça bonita HELENE GRIMAUD impressiona pela leveza da interpretação em figura tão frágil e de seus dedos sai um som portentoso. Acima o fabuloso Concerto nº 2 de Rachmaninov, tendo como regente outro gigante, Claudio Abaddo. Helene Grimaud, francesa de ascendência judaica, ativista com obra realizada na preservação dos lobos, é hoje uma das principais pianistas do circuito internacional, já tocou em São Paulo com a OSESP.

Felizmente os anos negros e cinzentos que marcam o fim da Guerra Fria até hoje salvou algo do espírito humano, o piano nos proteja da mediocridade.

AMA

8 comentários

  1. Eu digo, André Araujo, que a arte, a literatura, a poesia, a dança; todas as coisas belas e, por vezes, simples da vida nos eleva de da mediocridade. E nesses tempos, como necessitamos de arte e de beleza em meio a tanta feiura.

  2. Emil Gilels — Эмиль Гилельс (O nome em cirílico amplia as fontes de pesquisa):

    Grieg – Piano Concerto in A minor, Op 16, de Grieg, com a London Symphony Orchestra, conduzida por Sir Colin Davis → https://youtu.be/2-T61II1TG8

    No Conservatório de Moscou, Prelúdio em Si menor (Bach / Siloti) → https://youtu.be/K6eeNZBWvXA

    Prelude Op 23 No 5, de Rachmaninoff, numa peça da propaganda soviética da II Guerra, recital filmado numa base aérea → https://youtu.be/lDmDBlz1zYc

    Em Montreal (1971) — https://youtu.be/-qgiPtXdZoM
    Outro concerto de 1971 — https://youtu.be/zn4rEfzy47Y

  3. Para não dizer da elegância e discrição das vestes. Nada de fendas, decotes e transparências como algumas (Yuja Wang).

  4. André André no conhecimento você não me deixa a pé;
    Neste Brasil através de você vale até a pianista gentil;

  5. Obrigado pelo post.

    De emocionar: das cinzas desse momento tão sofrível, onde o degradê de formas e de conteúdos variados, vem se conformando até na cultura e nas artes – sob a capa do estrelismo midiático sem limites – assistir a talentos como Helene Grimaud, Nelson Freire e Martha Argerich celebrando um Rachmaninoff ajuda ao menos a dar sentido de reerguimento sob a árdua vivência hodierna.

  6. A menção a artistas russos sempre me remete à história da Rússia. No século XX, creio que não houve solo que recebeu tanto sangue: sangue dos milhões de pessoas que morreram – seja no processo da revolução de 17, seja nas duas primeiras guerras. Que foi dominado com mão de ferro por Stálin, que pegou um país destroçado e antes de morrer tinha tornado uma superpotência nuclear – mas a um custo humano aterrador, e que foi descrito por vários artistas, principalmente poetas, como Akmathova , Ossip Mandelstem e Marina Tsvetaeva. A literatura russa é um dos tesouros da humanidade.

  7. André, é uma pena que faltou um brasileiro na sua lista. Artur Cimirro é atualmente considerado o virtuose do piano, sendo comparado à Liszt, Beethoven , Cziffra. É compositor com mais de 200 opus, maestro, crítico e escritor. Já gravou mais de 20 CDs, em sua maioria de grandes compositores.nacionais e estrangeiros. Artur Cimirro vai precisar morrer para ser reconhecido. Na maioria das vezes é ussi o que acontece. Ele sim, faz questão de resgatar grandes nomes, já que a midia não o faz. É reconhecido apenas fora do Brasil, pois prevalece ainda a cultura que valoriza apenas àqueles que já têm seus trabalhos impulsionados pelo corporativismo. De qualquer modo, temos você a trabalhar para ajudar a manter viva a música erudita. Parabéns e obrigada.

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