A lista e o caos

As repercussões da lista de Fachin vão muito além do que ela, concretamente, 

representa, ou seja, a possibilidade de condenação de expressiva parcela do mundo político brasileiro.

 

De certa forma, essa é a sua consequência menos importante.

 

O fim dos processos – por enquanto, o Supremo Tribunal Federal apenas permite a abertura de inquéritos para investigar a veracidade das acusações dos delatores – vai ocorrer daqui a muito tempo, e nem todos os nomes da lista serão condenados.

 

As sequelas mais profundas para o país são outras.

 

Aí vão algumas, as mais visíveis:

 

1) Aprofundar na opinião pública a percepção de que todos os políticos são ladrões e a política é suja;

 

2) Abrir caminho, nessa esteira de criminalização da política, para a ascensão dos chamados “salvadores da pátria”, pessoas como os fascistas Bolsonaro e Doria, abutres que se aproveitam desses momentos de fraqueza democrática para atingir seus sonhos de poder;

 

3) Fixar a ideia de que as fontes da corrupção são algumas empresas, como a Odebrecht, com suas dezenas de delatores, e os políticos em geral, deixando de lado setores inteiros, como o Judiciário, o Ministério Público e a imprensa, suspeitíssimos de também terem em seus quadros malandros e picaretas de todos os calibres;

 

4) Acabar com um dos pilares fundamentais da democracia, a independência e harmonia entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, já que os dois primeiros estarão em farrapos, enquanto caberá ao último, intacto em sua pureza, executar a tarefa de livrar o país do mal.

 

Cabe aos chamados “cientistas sociais” dissecar os efeitos da lista de Fachin na vida brasileira.

 

Uma coisa, porém, é certa: em vez de ajudar, ela aumenta a maior crise político-econômica da história do Brasil.

 

A situação nunca deveria ter chegado onde chegou.

 

A nação está em cacos, estraçalhada, e sem perspectiva de que, desse caos, nasça algo benéfico, a lírica flor do pântano.

 

A única possibilidade de o Brasil superar este momento delicadíssimo seria a concretização de um amplo pacto de pacificação entre todos os atores desta tragicomédia – algo que, pelas peculiaridades dos atores, é simplesmente impossível de ser feito. 

 

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