“Aha, uhu, será que Supremo ainda é nosso?”, por Helena Chagas

Se os últimos dias haviam sido favoráveis à narrativa do ministro Sergio Moro e dos procuradores, a ponto de alguns acreditarem que o episódio estivesse “superado”, o conjunto da obra trazido pela revista [Veja] reabre o assunto

do Os Divergentes

“Aha, uhu, será que Supremo ainda é nosso?”

por Helena Chagas

“Aha uhu o Fachin é nosso!”, festejou o procurador Deltan Dallagnol no grupo do Telegram com outros procuradores da força tarefa da Lava Jato, ao sair de 45 minutos de conversa com o ministro do STF no dia 13 de julho de 2015, segundo revela a Veja desta semana, em reportagem conjunta com The Intercept.  Não se pode fazer, de antemão, reparos à conduta de Edson Fachin – que veio a se tornar relator da Lava jato bem depois, com a morte de Teori Zavaszki, em janeiro de 2017 – por ter recebido um procurador. Mas o episódio gera constrangimento no STF e volta a esquentar o caso Vaza Jato.

Ministro da Justiça, Sérgio Moro na Solenidade de Assinatura da MP para Confisco de Bens de Traficantes. Brasília, 17/06/2019 – Foto Orlando Brito

Se os últimos dias haviam sido favoráveis à narrativa do ministro Sergio Moro e dos procuradores, a ponto de alguns acreditarem que o episódio estivesse “superado”, o conjunto da obra trazido pela revista reabre o assunto. E reforça a autenticidade das mensagens ao cotejá-las com ações e operações comprovadas ao longo da linha do tempo da Lava Jato. O próprio encontro de Dallgnol com Fachin, inclusive, pode ser facilmente checado. Vai ficando a cada dia mais difícil negar que sejam verdadeiras.

No STF, que viajou para o recesso preferindo deixar o problema para depois, aumentará, segundo interlocutores de ministros, a pressão pela concessão do habeas corpus dem favor do ex-presidente Lula na segunda turma. Fachin, hoje relator, votou contra na primeira rodada e reafirmou sua posição ao negar pedido de liberdade provisória para o ex-presidente Lula defendido por Gilmar Mendes. Há quem acredite, porém, que o relator da Lava Jato terá ficado bastante incomodado com a sem-cerimônia da referência “Fachin é nosso” – e poderá querer mostrar que, afinal, é um juiz que não é de ninguém.

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Ministro do STF, Edson Fachin – Foto Orlando Brito

A oportunidade seria o retorno do caso de Lula à segunda turma, onde já haveria claro entendimento de que o então juiz Moro foi parcial ao julgar o ex-presidente por porte de Gilmar Mendes e de Ricardo Lewandowski. O decano Celso de Mello, que negou o HC heterodoxo proposto por Gilmar para Lula, é dúvida, mas fez questão de dizer que aquela decisão não determinaria seu juízo posterior do assunto. Cármen Lúcia é considerada um voto perdido pela defesa de Lula, mas Fachin, agora exposto nas mensagens dos procuradores, poderia mudar de opinião à luz das novas revelações.

Isso pode acontecer à medida em que as revelações de Veja, e outras que ainda vão aparecer, forem se desdobrando ao longo do mês. Um ponto importante para Lula é que boa parte dos casos mencionados nessa nova leva pouco têm a ver diretamente com o processo do ex-presidente. Referem-se a outros casos de interferência do juiz nos trabalhos da acusação, mostrando até que recebia antecipadamente pareceres e denúncias antes de serem protocoladas oficialmente, num claro conluio com a acusação. Sem falar nas sugestões de inclusão de documentos e trechos de depoimentos no material que ainda iria receber do MP.

Ao lado disso, consolida-se o entendimento, já apoiado inclusive pela próprio Lula, de que o questionamento do ex-presidente a Moro não representará nem o fim nem a revogação de toda a Lava Jato, amparada por fortes provas em boa parte das acusações. Nem a narrativa petista ousou defender isso, numa forma de esvaziar o principal argumento de Sergio Moro para escapar aos questionamentos. Em seu depoimento no Senado, por exemplo, o ministro da Justiça chegou a alertar os senadores do risco de revogação de todas as condenações, devolução do dinheiro recuperado, etc. Vai ficando claro, porém, que isso não acontecerá, já que cada recurso terá que ser analisado individualmente, à luz de provas.

3 comentários

  1. Nassif,
    Este negócio de que “Fachin é coisa nossa” impressiona pelo pouco caso que esta quadrilha formada por procuradores da República demonstram pelo STF, logo, por qualquer instituição.
    Também não é possível esquecer a submissão de diversos ministros ao jogo exercitado pela Globo, que aproveitou o discurso do ódio barra pesada para pressionar qualquer um a “pensar de acordo com as premissas do JN”. O ataque global dobrou Carlos Ayres Britto ( presidente do Instituto Innovare, isto é, Instituto Globo), Carlos Velloso, Joaquim Barbosa ( com este , tentaram fazê-lo presidente da República), o de personalidade fraca Dias Toffoli, Rosa Weber, Carmen Lucia,o hors concours LRBarroso, o quase pedagógico “in Fux we trust” e, quem sabe, outros ilustres que ocuparam um dos onze tronos daquele tribunal.
    Os que se aposentaram, se aposentaram, mas cinco dos onze ministros demonstram fragilidade em caso de ameaças diversas, ou seja, a turma da Lopes Quintas vem sendo bastante eficiente na arte de deixar qualquer um de quatro. Cabe ressaltar que, mesmo assim, aquele grupo continua imerso em dificuldades de ordem econômica, ou seja, nada consegue ser perfeito lá pelo Jardim Botânico.
    Não se sabe o que GGreenwald tem em seu poder, não se sabe quem é o Deep Throat tupiniquim, mas já é do conhecimento de todos que as próximas sexta-feiras serão terríveis para os ilustres atores da patranha safada, ainda mais com as centenas de áudios que logo chegarão ao facebook e whatsapp de todos.
    Em minha opinião, o nosso grande juiz moro sempre soube dos áudios, daí o medo de negar enfaticamente todo o material para, logo adiante, ser ouvido de maneira inequívoca, quando só restaria dizer que ” a minha voz não é a minha voz, tem alguém me imitando”, ou seja, o fim do mundo.
    A favor do safado, a extrema maldade do meu presidente que, eleito graças ao nobre juiz, o mantém exposto da maneira que está fazendo, uma verdadeira aula de como se cuspir no prato em que come.

  2. Não dá para torcer os fatos e entender que não estamos num ambiente político, onde um golpe de estado está atuando, que o Supremo Tribunal Federal é parte do comando, e em sua maioria é golpista, e as Leis e a Constituição por conta disso, são manipuladas e estão submetidas à lógica, às necessidades para dar suporte ao golpe. Não tem essa de ficar constrangido, todos sabem de suas responsabilidades e, como diria Odorico Paraguaçu, o arrependimento de membros do comando golpista, não limparia a sujeira em que se envolveram no “pratrasmente”. É esperar em vão. Soltar o Presidente Lula, é o golpe de estado, os golpistas iniciarem a jogar a toalha diante dos desacertos, político, econômico em que mergulharam o país, sem nem usarem o aparato de repressão montado para um Ministério da Segurança Pública, este um verdadeiro atentado à Federação, que foi fundido com o Ministério Justiça, para enfrentar as pressões que previam viriam das ruas, e que até agora não aconteceu, instrumento repressivo para garantir os interesses econômicos defendidos pelos golpistas, que está sob comando exatamente de Sérgio Moro.

  3. Nassif, alguns de meus comentários não foram publicados. Está acontecendo constantemente uma informação de que o meu envio parece ser repetido. Porém, mesmo assim, alguns são publicados e outros não, em menor escala. Fica o registro.

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