Esquerdas estão “atrasadas” no embate político pelas redes sociais, diz presidente do PT

"Não conseguimos dar um arranque para utilizar bem as redes sociais no sentido da mobilização e da opinião política", disse ao GGN. Assista

Reprodução/TV GGN

Jornal GGN – A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, disse em entrevista exclusiva ao GGN (assista abaixo) que as esquerdas estão “bem mais atrasadas” que a direita na utilização das redes sociais para o enfrentamento político.

Dois anos depois da vitória eleitoral de Jair Bolsonaro – que soube instrumentalizar plataformas como o Facebook e WhatsApp como nenhum outro candidato – os partidos de esquerda ainda têm nas redes um grande desafio a ser superado.

“Acho que do ponto de vista de utilização de redes nós estamos bem mais atrasados. Nós não conseguimos dar um arranque para utilizar bem as redes sociais no sentido da mobilização e da opinião política. A forma da esquerda, seja fazer campanha, seja fazer militância, é muito presencial”, avaliou Gleisi.

No diagnóstico da deputada, há dois “problemas estruturais” que não podem ser “desprezados”: é preciso investir muito dinheiro para fazer postagens com alcance em massa e as plataformas comerciais não são “neutras”.

Segundo Gleisi, o PT está investindo no desenvolvimento de um aplicativo para organizar a militância, que deve ser lançado até o final de 2020. Até lá, a plataforma Casa 13 tem feito o trabalho de instruir e reunir dados sobre os filiados, candidatos e simpatizantes.

Embora defensa uma “alternativa” às redes sociais já estabelecidas – da mesma forma que exalta a imprensa alternativa em detrimento dos oligopólios de mídia – Gleisi ressalva que não é possível fugir da questão.

“Temos que continuar trabalhando nelas [redes comerciais] e fazendo com nossos recursos e com o nosso tamanho aquilo que a gente pode fazer. E trabalhar muito na disseminação orgânica com nossa militância.”

Assista à entrevista completa:

Confira alguns trechos:

GGN: A minha dúvida e a de alguns internautas é que a gente vê uma apropriação da indústria 4.0 pela direita. A gente percebeu isso muito forte na eleição de 2018 pela extrema-direita e alguns especialistas dizem que é um fenômeno mundial. Como você enxerga o comportamento da esquerda em relação a isso? Porque é uma coisa nova que poderia ser aproveitada pela esquerda como a direita fez, mas de uma forma adequada.

Gleisi Hoffmann: Acho que do ponto de vista de utilização de redes nós estamos bem mais atrasados. Nós não conseguimos dar um arranque para utilizar bem as redes sociais no sentido da mobilização e da opinião política. A forma da esquerda, seja fazer campanha, seja fazer militância, é muito presencial. É muito das plenárias, das reuniões, da presença nos locais, de andar. Para a gente, essa pandemia tem sido uma experiência desafiadora porque a gente não pode fazer o que a gente fazia, inclusive na campanha. Então vai dando uma agonia. Até o Lula falou hoje: ‘Eu tô agoniado, não aguento mais ficar nesse quadradinho, eu quero sair.’ [A pandemia comprometeu as Caravanas de Lula] totalmente. A gente ia começar as caravanas no final de março. Lula é uma pessoa do contato, do toque, pegar, olhar, então, para nós, tem sido um desafio. Acho que a gente já deu uma avançada, estamos melhorando.

Mas tem outros dois problemas que acho que são estruturais na questão de redes que a gente não pode desprezar. Primeiro são os recursos. Quem utiliza muito bem as redes e tem um grande impacto, são pessoas que investem dinheiro no impulsionamento de tema ou na mídia de rede social, numa operação para atingir milhões de pessoas. Isso exige muito dinheiro. Como você vai ter milhares de grupos de WhatsApp e milhares de posts? Enfim, tem toda uma operação midiática que não é uma coisa barata também. 

A segunda é que as plataformas utilizadas para fazer isso não são neutras. Twitter, Facebook, Instagram não são neutros. Eles têm lado, sabem onde estão, foram instrumentalizados pela extrema-direita sem fazer grandes ações contrárias. Agora como isso está ficando mais generalizado, eles estão começando a fazer [mudanças], mas eles não são neutros. 

A gente também teria, do ponto de vista de redes, mais do que atuar, ter plataformas que pudessem ser alternativas a essas que estão aí. É como a grande mídia. A grande mídia não é neutra, tem lado, tem linha editorial, enfim, vai dar espaço e por uma opinião de acordo com a linha dela. Se nós não tivéssemos a mídia que se contrapõe a isso, a essa grande mídia comercial – o GGN é um exemplo – onde é que a gente iria fazer debates e conversas como esta que estamos fazendo aqui? Então acho que a gente tem que ter os instrumentos e é um desafio para nós. Isso também requer tecnologia, desenvolvimento. A China, por exemplo, tem as suas redes. Não entra rede de fora, tem a sua segurança. Não estou dizendo que é bom ou mau. Estou dizendo o seguinte: eles têm as redes deles. O Brasil nunca se preocupou com isso, a gente consome as tecnologias americanas que estão aí, com todas as implicações que isso tem. Muitas vezes essas redes regulam emissão de mensagem. 

GGN: Eu vou continuar nessa questão porque o que ocorreu na eleição de 2018 foi um pouco desesperador do ponto de vista da comunicação. Lembro que era muito difícil manter um diálogo civilizado com amigos e parentes inclinados ao voto em Bolsonaro, não só pelo ódio ao PT, mas porque a desinformação corria solta pelo submundo do WhatsApp e era impossível saber a quantidade de fake news que elas receberam pelo celular para conseguir rebater. Nos Estados Unidos as redes sociais estão fazendo mudanças que desagradam alguns políticos e a saída para os candidatos tem sido desenvolver seus próprios aplicativos [algo que, sem a devida regulação, pode gerar uma outra bolha de desinformação e ataques]. Você citou dois problemas estruturais. Enquanto eles não se resolvem, como o PT pretende contornar essa questão para a eleição deste ano e em 2022?

Gleisi: A gente tem que continuar usando as redes, não dá para sair delas. Temos que continuar trabalhando nelas e fazendo com nossos recursos e com nosso tamanho aquilo que a gente pode fazer. E trabalhar muito na disseminação orgânica com nossa militância. Formar um grande grupo. O PT tem militância grande. Que a gente consiga atingir e isso vai espalhando organicamente. 

Em relação a aplicativos, eu acho que mesmo que os grupos [políticos] desenvolvam, o alcance é muito menor do que nessas plataformas comerciais. Elas pegam todo mundo, as pessoas já estão lá, são acessíveis para todos. O aplicativo, a pessoa tem que ser convencida de que aquilo é um meio para gerar informação e é correto. Para eles que gostam de fake news, tem que ter o verniz de uma oficialidade jornalística. 

Nós estamos desenvolvendo, sim, um aplicativo para o PT, para a gente trabalhar com a militância, não só focado na disseminação de informação, mas de organização partidária também. E principalmente de participação dos filiados e dos militantes. Fazer enquetes para pesquisas, para a gente tomar decisões partidárias. Nós estamos desenvolvendo isso.

Agora na campanha a gente tem também algumas plataformas que a gente está trabalhando. Tem uma grande que se chama Casa 13, que é a plataforma para trabalhar a preparação das eleições. Então ela tem lá informações, por exemplo, de todo legado do governo federal, do Lula e Dilma, por município. Tudo que foi feito em cada município, para que os candidatos possam utilizar isso, debater na sua cidade.

Também tem uma plataforma dentro da Casa 13 que é de plano de governo participativo. A gente já está com mais de 300 municípios fazendo plano de governo, outros estão entrando. (…) Tem também toda orientação jurídica: como fazer campanha, como prestar contas, quais são as datas. Tem a plataforma Elas Por Elas, específica para mulheres. A do Representa, que é da juventude, e orientação sobre redes sociais, então, quem não tem ainda [uma conta em rede social], [pode aprender] como criar Twitter, Instagram, como fazer capa, qual a melhor linguagem para cada tipo de rede, como fazer o card sozinho, adesivos. Tem também a plataforma do Candidate-se. Todas as candidaturas do PT estão ali registradas. Hoje a gente já tem mais de 17 mil candidatos a vereadores e vereadores, e isso deve crescer. E a gente tem toda a informação de quem são, onde estão, o WhatsApp. Isso cria uma rede grande e interação com as plataformas. Depois, vamos migrar para esse aplicativo do partido que estamos desenvolvendo e só vai ficar pronto no final do ano.

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