“Gente estranha tirou a vida do meu pai”, diz Aikyry Wajãpi

Morte do cacique Emyra ainda é uma impunidade para os indígena, mas MPF concluiu que foi um afogamento. Imagem do protesto em frente à Câmara Municipal de Pedra Branca para cobrar mais investigações no caso

da Amazônia Real 

“Gente estranha tirou a vida do meu pai”, diz Aikyry Wajãpi

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Pedra Branca (AP) – Abalado pela morte do pai, o cacique Emyra Wajãpi, Aikyry Wajãpi concedeu uma entrevista à agência Amazônia Real. Professor da Escola Indígena Estadual Mariry, localizada em Pedra Branca do Amapari, distante a 180 quilômetros de Macapá, capital do estado do Amapá, ele iniciou a conversa agradecendo a todos pelo apoio recebido, as manifestações e às pessoas que colaboraram na divulgação internacional do caso. O cacique Emyra completaria nesta terça-feira (10) 69 anos, diz o filho. Aikyry, de 43 anos, está revoltado com a impunidade e o resultado das investigações da Polícia Federal.

Para o Ministério Público Federal no Amapá, o exame de necroscópico revelou como causa da morte do cacique Emyra o afogamento. Segundo o órgão, a Polícia Técnico-Científica explicou que, embora tenham sido verificadas lesões superficiais na região da cabeça, a ausência de hemorragia ou traumatismo craniano apontam que os ferimentos não seriam capazes de provocar a morte. “As lesões são compatíveis com impacto provocado por queda”, diz o órgão. A morte acidental de Emyra passou a ser a principal hipótese investigativa do MPF.

“Não queremos mais que no futuro aconteça isso com nossas gerações, com nossos filhos, com nossos netos. Queremos viver em paz dentro da nossa terra indígena, tranquilos. Não queremos morrer de conflito, nem por assassinos, por isso que a Polícia Federal precisa investigar melhor. Por que mataram meu pai? Quem matou? Quem mandou matar?”, questiona Aikyry Wajãpi.

Cacique Emyra Wajãpi (Foto: Notícias Wajãpi)

Essa versão apresentada pelo MPF é contestada pelos Wajãpi. O professor Aikyry mantém a denúncia de que seu pai foi assassinado. “O mundo viu meu pai, ele não morreu à toa, não. Ele não morreu por doença. Gente estranha tirou a vida do meu pai”, afirma.

O cacique foi encontrado morto no dia 22 de julho. O povo Wajãpi denunciou a morte de Emyra no dia 27 de julho. A primeira notícia veiculada dizia que a liderança foi assassinada a facadas por um grupo de garimpeiros, que invadiu a Terra Indígena Wajãpi, no município de Pedra Branca do Amapari, no oeste do Amapá.

O coordenador indígena Kurani Wajãpi divulgou um vídeo pedindo socorro e revelando que houve um tiroteio na Aldeia Jakare. “Como não haviam índios no local e nem feridos, considero mais um alerta de ameaça”, disse ele, declarando seu temor.

“Estou pedindo ajuda das autoridades competentes, para que tomem logo a decisão de mandar a Polícia Federal para a terra indígena Wajãpi, para prenderem os garimpeiros que aqui estão. Já teve um assassinato de uma liderança na quarta-feira e não queremos mais mortes, por isso estamos pedindo socorro”.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) confirmou a morte do cacique, mas tratou a ação dos garimpeiros como “suposta invasão à Terra Indígena Wajãpi”. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) pôs em dúvida a existência de conflito e a alegação de que a morte do cacique Emyra tivesse relação com episódio.  “Não tem nenhum indício forte que esse índio foi assassinado lá”, declarou o presidente à imprensa, na saída do Palácio do Planalto, ao mesmo tempo em que voltou a insistir no projeto de legalizar garimpo em terras indígenas.

O Ministério Público Federal no Amapá, que abriu uma investigação para apurar a morte do cacique e a invasão de garimpeiros, disse que a perícia afastou a possibilidade de homicídio e o uso de faca ou arma de fogo no caso. “O documento [laudo] descarta a hipótese investigativa inicialmente apresentada: corpo não apresentava traumas de qualquer natureza na região dorsal e na genitália. No pescoço, não havia sinais indicativos de asfixia, tampouco de lesões oculares”, declarou o MPF.

Segundo o MPF, a apuração sobre a denúncia de invasão e de garimpo ilegal na TI Wajãpi, continua em andamento. “Diligências terrestres e aéreas realizadas pela PF com apoio da Secretaria de Estado da Justiça e Segurança Pública do Amapá não detectaram indícios da ocorrência dos crimes. O MPF aguarda a conclusão do relatório técnico pela autoridade policial. Desde o recebimento das notícias, os órgãos atuam em conjunto para preservar a integridade dos povos indígenas e esclarecer os fatos”.

Leia a entrevista exclusiva com o professor Aikyry Wajãpi:

O professor e filho do cacique Emyra, Aikyra Wajãpi (Arquivo pessoal)

Amazônia Real – Como o senhor soube da morte do cacique Emyra Wajãpi?

Aikyry Wajãpi –  No dia 22 de julho, meu pai voltava de uma festa na casa de minha irmã, em outra aldeia, por volta das 16h30, mas não chegou ao seu destino. Preocupada, minha mãe, Waivisi Wajãpi, de 61 anos, saiu às 7h30 do dia seguinte para procurá-lo e o encontrou sem vida no rio, na aldeia Waseity. No mesmo dia, eu fui lá, cheguei ao meio-dia. Vi que meu pai não morreu afogado. Alguém bateu nele, porque tem uma pancada na cabeça, uma marca [ferimento] no olho. Cortaram um pouco a orelha e meteram alguma coisa no pênis dele, tipo uma furada de faca. Não cortaram o pênis [como foi divulgado], fizeram um buraco. Usaram alguma corda, pedaço de tecido que a gente usa, rasgaram e usaram, não sei pra quê, acho que para matar ele, né?

Amazônia Real – Por que o senhor tem certeza de que seu pai foi assassinado?

Aikyry Wajãpi – O cabelo do meu pai é fino. Encontramos um  outro cabelo grosso e preto. Encontramos um chinelo 39/40 lá no local. Então, isso que me fez falar para o pessoal da Funai, para que me ajudasse, que alguém matou meu pai e sua morte precisava ser investigada.

Os indígenas Wajãpi (Foto: Heitor Reali/Iphan/2017)

Amazônia Real – Por que a família não informou às autoridades no momento em que o corpo foi encontrado, no dia 23 de julho?

Aikyry Wajãpi –  Por que na localidade onde moro possui uma comunicação precária, o que impossibilitou contato com outros parentes. Após dois dias, cerca de 30 indígenas Wajãpi da aldeia Aramirã que moram na estrada foram até o local para tentar localizar quem teria matado meu pai, e depois as equipes de investigação se direcionaram para o local. Até agora ninguém sabe quem matou meu pai, nem a família, ninguém sabe. É uma loucura, porque quem sabe, só meu pai e pessoa que o matou.

Amazônia Real – O cacique Emyra Wajãpi tinha algum inimigo?

Aikyry Wajãpi – Não. Ele era chefe, liderança, se dava com todo mundo, não tinha problema com político, nem com outras lideranças Wajãpi, nem com a comunidade. Era uma pessoa tranquila com todo mundo.

O cacique Emyra Wajãpi quando jovem na aldeia Waseity (Foto: Notícias Wajãpi)

Amazônia Real – Diante das notícias das investigações da Polícia Federal, como está sua família?

Aikyry Wajãpi – Minha família está muito preocupada e espera o resultado final da investigação. Eu, junto com meus familiares, autorizamos o corpo do meu pai ser investigado [exumado] pela Politec. Entregamos cabelo, chinelo, corda e também as imagens [fotos e vídeos] que registrei do corpo com as marcas encontradas. O pessoal da Polícia Federal trouxe até Macapá o celular para tirar as imagens.

Amazônia Real – Sua mãe foi a primeira pessoa que encontrou o corpo do marido. O que ela diz sobre essa investigação?

Aikyry Wajãpi – Minha mãe já deu o depoimento na aldeia, falou das pessoas que estavam lá e enganaram ela. Está na mão da Polícia Federal, por isso não quero falar muito disso, por isso eu quero falar mais sobre o resultado da perícia e do DNA.

Amazônia Real – Como surgiu a notícia da invasão de garimpeiros na TI Wajãpi?

Aikyry Wajãpi –  Eu não vou falar sobre isso porque eu não vi. Quem pode falar sobre isso é a pessoa que viu, que é a outra família.

Amazônia Real – Foi incomum a realização de uma exumação na TI Wajãpi. Como sua família acompanhou essa situação?

Aikyry Wajãpi – Antigamente, não podia mexer no corpo da pessoa que estava na terra, mas hoje a cultura é dinâmica. É importante ser investigado através do conhecimento científico. Cultura junto com o conhecimento científico também porque, às vezes, a gente entra na cultura e não resolve nada. Isso não quer dizer que o conhecimento científico vai mudar a cultura, é tentar fortalecer a cultura.

O objeto que enterrou junto, precisa ser respeitado também. Colocar no lugar onde estava, enterrar na posição direta, pois a visão do homem tem que estar onde o Sol nasce… Esta é a cultura indígena Wajãpi. Então vamos dizer que teve uma pequena cerimônia, que a família se juntou agradecendo ao nosso criador Ianejar, apoiando a investigação do meu pai também.

O mundo apoiou meu pai, apoiou nas investigações. O mundo conheceu meu pai, este foi tipo um presente que ele ganhou de cerimonial, por isso estamos agradecendo o mundo que o apoiou e queremos continuar fazendo isso na próxima vez, se houver morte e dúvida.

Protesto em agosto em frente à Câmara Municipal de Pedra Branca (Foto: Rudja Santos/Amazônia Real)
O que diz a Polícia Federal?

A Polícia Federal do Amapá informou que aguarda o laudo complementar toxicológico da perícia realizada nos restos mortais do cacique Emyra Wajãpi. Segundo a polícia, amostras dos órgãos internos do indígena foram encaminhadas ao Laboratório de Toxicologia Forense. O resultado ainda não foi divulgado. Segundo a PF, o laudo servirá para auxiliar a investigação das circunstâncias dos fatos, “não interferindo, contudo, na conclusão pericial quanto à causa da morte por afogamento”.

Em video, indígenas criticaram atuação da PF na investigação da morte de Emyra Wajãpi

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