Instituto Butantan amargou sucateamento antes de entrar na corrida mundial contra o coronavírus

Cintia Alves
Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.
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Há anos, funcionários do Butantan reclamam que o desmonte paulatino tem objetivo: privatizar a instituição

Jornal GGN – O anúncio foi feito à imprensa nesta quinta (11) como um “dia histórico”. O Instituto Butantan, mantido pelo governo de São Paulo, fechou parceria com um laboratório chinês para realizar no Brasil a última fase de testes clínicos para uma vacina contra covid-19. Se tudo der certo, o Instituto terá condições de produzir e disponibilizar o imunizante em larga escala a partir de junho de 2021.

Quem vê a instituição centenária em um aparente auge, entrando numa corrida mundial por uma vacina em plena pandemia de coronavírus, talvez não se lembre que, há 10 anos, o descaso com suas instalações culminou em um incêndio. E somente agora, em junho de 2020, o Butantan anuncia estar próximo de concluir a vacina contra dengue, em um processo que se arrasta há 12 anos, boa parte deles por falta de investimentos.

CRISE DE LADO A LADO

Com poucas verbas federais para impulsionar as pesquisas e sem o governo estadual preencher os postos de trabalho em déficit por causa de aposentadorias, mortes ou exonerações, funcionários do Butantan reclamam, há anos, que o sucateamento tem objetivo: privatizar a instituição.

Antes mesmo da privatização sair do papel, o desmonte paulatino parecia servir bem às jogadas do mercado.

Em 2019, a Rede Brasil Atual – site que acompanha de perto a crise no Instituto – informou que há anos laboratórios e fábricas são reprovados em auditorias da Anvisa, atrasando a instalação da estrutura para produção de vacinas. Em 2015, o ex-diretor Isaías Raw encerrou mais de 30 anos de serviço advertindo que, àquela altura, ainda não havia como produzir a vacina de dengue em larga escala.

Em 2014, a RBA citou outro caso, sobre a vacina Onco BCG, usada em pacientes com câncer de bexiga. Ela era fabricada pelo Butantan, que perdeu o negócio 5 anos antes sob o “pretexto de modernização da fábrica”.

“Coincidência ou não”, contou a RBA, a vacina “passou a ser fabricada pela Fundação Ataulpho de Paiva, do Rio de Janeiro, que hoje fornece as vacinas BCG para o Ministério da Saúde. (…) O custo de cada dose era de R$ 3 quando produzida em São Paulo, subiu para R$ 100.”

As custosas adequações exigidas pela Anvisa “levam anos, atrasam pesquisas e a produção. Como resultado, boa parte das vacinas e soros vendidos [pelo Butantan] para o Ministério da Saúde é importada, envasada e rotulada”, frisou a RBA no ano passado.

Hoje, o diretor do Butantan, Dimas Covas, afirma que a produção de vacinas para gripe já atingiu o patamar de 1 milhão de doses diárias. Com isso, ele garante que conseguirá atender à alta demanda pela vacina de coronavírus. Mas nem sempre foi assim.

Na visão de Raw, por décadas o governo federal não investiu pesadamente no Butantan porque privilegiava a Fiocruz e não queria concorrência para os laboratórios que vendiam vacinas para o Ministério da Saúde.

Ao mesmo tempo, o governo de São Paulo teve papel importante no “desinvestimento”. Além da questão dos concursos públicos, os problemas administrativos da Fundação Butantan são os mais citados nas reclamações da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo.

A crise na Fundação emergiu no final de 2009, quando o Ministério Público encontrou desvios de recursos que podem ter passado dos R$ 100 milhões.

Raw avaliou que “alguém ganhava” com os contratos questionáveis (como a locação de mil impressoras) da Fundação, e a manutenção de funcionários com altos salários sem participação relevante na produção científica.

O GGN lista abaixo algumas reportagens que detalham a crise histórica no Butantan:

Ex-diretor do Butantan denuncia desmonte da instituição

 

Butantan reclama de falta de verbas para vacina contra a dengue

Instituto Butantan é esquecido pelo governo de São Paulo

 

 

Cintia Alves

Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.

2 Comentários

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  1. Esse é o busílis. A situação do Instituto Butantan é muito ruim. Um exemplo pode ser lido aqui, em https://www.cartacapital.com.br/sociedade/butantan-se-afasta-da-saude-publica-e-mira-em-grandes-laboratorios/.
    Antes fosse por “apenas” isto. Também tem mais a respeito de agrotóxicos, como se lê em: https://www.cartacapital.com.br/saude/pesquisadora-prova-que-nao-existe-dose-segura-de-agrotoxico-e-e-perseguida/.
    Fico na dúvida se é o Instituto Butantan que está realmente interessado na vacina ou se é uma fundação operando dentro do Butantan. Qual a diferença? Ora, o preço!

  2. Prezados camaradas

    Esta “prática administrativa” se espalha pelo resto dos órgãos públicos: basta ver a situação do Instituto Adolfo Lutz, IAC, FDE, etc. Não são apenas a ausência de concursos públicos (para reposição de pessoal), há restrições orçamentárias sutis, que contribuem para a imagem (vendida para a opinião pública, comprada pela mídia) de descaso e caos administrativo (a “gestão” pública ineficiente e caricata, oposta ao virtuoso mercado). Exemplo: há várias rubricas para a aquisição de insumos, realização de serviços, execução de manutenção predial; etc. Se sobra dinheiro em uma rubrica, a sobra não pode ser utilizada em outra rubrica.
    Mais um exemplo: se vc recebe R$ 1000,00 mensais para manutenção, e só gasta R$ 800,00; no mês seguinte recebe R$ 800,00
    E vc não recebe o dinheiro no início do mês, para se planejar: o que está previsto para chegar dia 10, vem dia 28. E vc tem apenas 3 dias para utilizar a verba.
    A “corrupção” das verbas públicas (que o TCE vasculha em processos de adiantamento de R$ 4.000,00 mensais. Os funcionários ficam realmente milionários com essa grana!): o TCE não aceita notas fiscais manuais, apenas eletrônicas. Se, na cotação de preços, o menor valor for de um fornecedor que não emite NF eletrônica, ele é descartado.
    Mas tudo isso foi resolvida com as magníficas OS´s (Organizações Sociais, na verdade, “organizações sacanas”): o Governa entuba dinheiro em função de uma contrapartida (que ninguém sabe quanto entra e ninguém sabe o que deve ser realizado em troca). Assim, hospitais públicos (com uma média de 4,5 funcionários/leito – ABAIXO de indicadores de hospitais privados) com verbas reduzidas e sucateados; são reformados e passados à “gestão” privada. Nem o PAS do Maluf era tão escandaloso.

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