Moro e a geração 7×1

Durante audiência realizada no início da semana, o juiz Sérgio Moro deixou escapar, mais uma vez, a personalidade autoritária que caracteriza a geração 7×1. Moro poderia entrar para a história política como uma espécie de Joaquim Barbosa, um burocrata que seduzido pelo excesso de carinhos da elite e da imprensa, optou pelo ódio e não pela justiça. Mas não, Moro é muito mais do que isso. Moro, assim como Deltan Dallagnol, é o exemplar de uma nova geração de jovens prodígios, brancos, criados confortavelmente em berço de ouro, que estudaram em colégios particulares, ingressaram em universidades públicas quando nelas ingressavam apenas filhos de ricos ou tiveram seus estudos em universidades privadas financiados pelos pais, seja na PUC ou em Harvard. Jovens privilegiados que utilizam-se da vulnerabilidade popular à ideologia fascista para propagar um discurso moralista e que, como todo filho mimado, submetem tudo (inclusive a justiça) à sua vontade particular.

No caso da audiência realizada na segunda-feira (06), Moro questionou o executivo da Odebrecht, Fernando Barbosa (que estava na condição de testemunha), o que ele entendia sobre o conteúdo de um e-mail e foi, imediatamente, rebatido pelos advogados do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Em resposta à atuação dos advogados, Moro respondeu: “faça concurso para juiz e assuma a condução da audiência, mas, quem manda na audiência é o juiz”. Tendência para o autoritarismo à parte, o juiz em questão demonstra uma visível incapacidade de colocar-se no ponto de vista do outro – seja por conta de uma personalidade excessivamente afagada ou pela incapacidade de superar aquela tensão infantil entre nossa constelação de interesses e a resistência do mundo. Por isso, as objeções são vistas, sempre, como afronta – como uma ousada tentativa de destronar o ego do juiz.

Basta lembrar a revolta de Sérgio Moro contra a Folha de São Paulo por ter publicado um artigo de Rogério Cezar de Cerqueira Leite no qual o autor chamava-o de justiceiro messiânico. A resposta de Moro foi simples, mas esclarecedora: a publicação de opiniões panfletárias-partidárias deveria ser evitada. O verbo “dever” aqui reitera como a geração 7×1 do judiciário submete a limitação do arbítrio alheio à imposição do seu arbítrio particular – uma normatividade seletiva que procura desautorizar posturas que afrontam o direito desses rapazes de serem o centro do mundo. Deltan Dallagnol repete a fórmula sempre que pode, como no seu ativismo quase religioso em defesa das dez medidas contra a corrupção. Repleta de clichês moralistas, as falas de Dallagnol invariavelmente recaem no argumento de que ele é o missionário enviado pelo povo para combater a imoralidade que assola o país e, por consequência, os que estão contra ele estão contra o sentimento popular. Pois é, logo ele, um burocrata de carteirinha.

Nisso, os prodígios mimados do judiciário são idênticos aos prodígios mimados do futebol. Ninguém pode contrariá-los ou criticá-los. Como na eliminação da Copa América, quando Neymar postou no Instagram que “vai aparecer um monte de babaca pra falar merda” ou na conquista do ouro olímpico quando o mesmo Neymar protagonizou uma patética discussão com torcedores que o criticavam. Ou como Thiago Silva, que será lembrado como um dos poucos, talvez o único, capitão da história que num jogo de quartas de final do mundial pediu para não bater um pênalti e preferiu ficar sentado em cima de uma bola chorando feito criança. Seis meses depois, estava lá, rebatendo críticas e brigando com Deus e o mundo, reivindicado a braçadeira de capitão perdida – como se lhe fosse um bem próprio. Se a geração 7×1 no futebol é um problema, imagina na justiça.

publicado em http://kadorojas.blogspot.com.br/

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