O caso Carlos Alberto Decotelli, o Ministro negro e normal

Com o sacrifício de Decotelli - por seus erros, por suas vulnerabilidades e por suas virtudes - o setor perde a contribuição de um Ministro que, embora falsificando seu currículo, era o primeiro a acenar com um discurso democrático, de tolerância e de preocupação em recuperar as atribuições do MEC.

A Fundação Getúlio Vargas assassinou a reputação do seu professor Carlos Alberto Decotelli com requintes de crueldade. Decotelli já estava fragilizado pela turbinagem no seu currículo, especialmente no doutorado, pela possibilidade de plágio em sua dissertação de mestrado. Mas era um professor acatado nos cursos de extensão da escola, segundo o depoimento insuspeito de Elizabeth Guedes, presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares.

Qual a motivação da FGV? Ela é participante ativa dos cursos de MBA, um curso caça níqueis que enobrece o currículo dos executivos alunos e garante o caixa das instituições de ensino para trabalhos mais nobres. Mesmo assim, Decotelli é um professor respeitado, querido por seus alunos, a julgar pelas manifestações que divulgou e pelo depoimento de Elizabeth, que controlava um cursinho rival da FGV, o IBMEC.

Decotelli foi crucificado por três razões.

No caso da FGV, para se desculpar de sua distração em não conferir os currículos de seus professores. De uma só penada, a facada da FGV atingiu todos seus professores PJ. Ao dividir seus professores entre os de primeira classe (os efetivos) e os de segunda classe (os PJs alocados nos cursos MBA), ela fez o mesmo com os alunos. O aluno de MBA, colocou em seu currículo um diploma da FGV, pagou, cursou e descobriu que era um mero aluno de segunda classe, com professores de segunda classe.

Outra motivo da perseguição a Decotelli é o fato de ser uma pessoa normal. As atitudes dos malucos olavistas que invadiram o governo são perdoadas, por serem malucos. E pelo fato de que denúncias que afetam os normais não pegarem neles, que são suficientemente malucos ou malandros para classificar toda denúncia como exagero do “politicamente correto”.

A denúncia sobre a manipulação do doutorado abalou Decotelli, obrigando-o a vir a público com uma autocrítica pungente. Ernesto, o idiota, destrói dois séculos de diplomacia brasileira, mas é maluco. Abraham Weintraub, o idiota, pouco se importava com as críticas, que eram muito mais para seus modos de maluco do que para a destruição do Ministério da Educação. Damares, ora Damares. Mas Decotelli é normal.

O terceiro fato é por ser negro, sim. E ser do governo Bolsonaro, sim. Dois casos graves de manipulação de currículo – do Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, e do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel – mereceram repercussão muito menor. Salles é poupado apesar de estar sendo investigado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo, por enriquecimento ilícito, e de estar expondo o Brasil a represálias internacionais, pelo desmonte da fiscalização ambiental. Mas o desmonte é tratado como desburocratização, interessa a grandes grupos. E, por isso, ele é suportado.

Afinal, a opinião pública oficial usa princípios de forma utilitária. Mais à frente, Salles será descartado, o processo será completado, é até capaz que pegue alguma pena maior. Mas estará com o caixa bem fornido. O que faz é uma avaliação fria da relação custo-benefício. A mesma que a mídia faz.

Com o sacrifício de Decotelli – por seus erros, por suas vulnerabilidades e por suas virtudes – o setor perde a contribuição de um Ministro que, embora falsificando seu currículo, era o primeiro a acenar com um discurso democrático, de tolerância e de preocupação em recuperar as atribuições do MEC.

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