POLÍTICA: OS CAMINHOS DA DIREITA ESTADOUNIDENSE

A Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), o desfile anual de três dias dos presidenciáveis do GOP (Grand Old Party, termo que se refere ao Partido Republicano), louvando Deus, a pátria e o capitalismo, foi envolvida esse ano por uma grande guerra religiosa dentro do próprio partido. O movimento conservador, de acordo com um grupo de ativistas islamofóbicos, foi tomado pela Irmandade Muçulmana, a qual eles afirmam apoiar a Sharia, “um programa supremacista que justifica a destruição de igrejas cristãs paróquias” e “a substituição da nossa república constitucional […] por um califado islâmico teocrático que governaria de acordo com a shari’ah”.

Essa acusação saiu de um flyer entregue a mim por Krista Hughes, uma empregada do Centro de Políticas de Segurança (CSP, na sigla em inglês), cujo presidente, Frank Gaffney, é um dos principais cérebros da campanha publicitária direitista para inculcar no coração dos americanos o medo de que uma conspiração de extremistas muçulmanos procura subverter os Estados Unidos.

No CPAC, o principal alvo de Gaffney era Suhail Khan, um ex-funcionário da Casa Republicana, indicado pela administração Bush e atualmente membro sênior de uma usina de idéias evangélica focada na liberdade religiosa. Khan, que se auto-descreve como um devoto muçulmano e trabalha no quadro da União Conservadora Americana, a organizadora do CPAC, é um conservador convicto. Criado na região da Baía de São Francisco, ele disse que a atmosfera na UC Berkeley, onde ele estudou, lhe causou repulsa e o conduziu à sua atual persuasão política. Porém, sua credibilidade no meio conservador é nula para Gaffney, que começou uma guerra contra ele, bem como contra outro ícone do movimento conservador, Grover Norquist, também membro da ACU. Gaffney insiste que ambos estão juntos na liga islâmica anti-americana.

Khan, que disse há algum tempo que o CPAC afastou-se de Gaffney por ele ser um “louco fanático”, resistiu aos ataques da histeria conspiratória de Gaffney, que lembram as acusações do fundador da John Birch Society, Robert Welch, de que Dwight Eisenhower era um agente secreto comunista.

Outro conflito religioso do CPAC se deu pela inclusão, no segundo ano consecutivo, do grupo conservador gay GOProud. A própria presença do GOProud levou alguns grupos religiosos de direita e linhas-dura cristãos como Jim DeMint e Mike Huckabee a boicotar a conferência, revelando um racha na estrutura de três pontas do Partido Republicano, com conservadores [fiscais e de segurança nacional] que são geralmente mais tolerantes com homossexuais que se opõem aos conservadores sociais, que ainda veem a oposição aos direitos gays como um teste.  A confusão aumentou mais ainda quando o presidente da GOProud, Chris Barron, chamou uma das fundadoras da ACU, Cleta Mitchell, de “fanática asquerosa” por sua oposição ao GOProud. Isso imediatamente causou que o presidente da ACU, Al Cardenas, se afastasse de Barron, o que provavelmente significa o fim da parceiria da ACU com o GOProud.

Enquanto os gays foram deixados de lado, a diretoria da ACU se ateve em Khan. Foi Gaffney que não foi totalmente bem-vindo no CPAC. Gaffney não apareceu na última audiência do painel de sábado a tarde, chamado “O desafio da Sharia no Ocidente”, onde o moderador Cliff May, da neoconservadora Fundação para a Defesa das Democracias, promoveu um livro publicado pela CSP, de Gaffney. Enquanto aquele era o único painel do CPAC com uma agenda explicitamente anti-islâmica, um pouco mais cedo naquela manhã David Horowitz, que deveria introduzir o painel “Defendendo a Liberdade de Expressão nas Universidades”, usou esse oportunidade para declarar que “Suhail Khan usou seus escritórios na administração Bush, com o apoio de Grover, para levar água ao terrorista Sami al Arian”.

Outros enventos não oficiais, incluindo o filme A Guerra Sem Nome, apresentado pela Citizens United e com a presença de Newt Gingrich e a sua esposa Callista. No filme, os Gingriches alertam da ameaça extermista islâmica à civilização ocidental e perguntam: “Como podemos vencer uma guerra com um inimigo que a administração Obama se recusa a identificar?”. O filme também inclui entrevistas com Gaffney. Os agitadores da Anti-Park51, Pamela Geller e Robert Spencer, que Kahn chamou de “incentivadores de um ódio aberto”, tiveram o seu próprio painel não oficial no qual eles afirmavam que a construção da “Ground Zero Mosque” (mesquita a ser construída no centro de Nova York) era a segunda onda dos atentados de 11 de setembro.

Khan, entretanto, foi relegado a uma sala não oficial, onde ele moderou um painel inter-religioso de conservadores que discutiam uma sustentação mais robusta da liberdade religiosa internacional. Nesse painel, Krista Hughes e outros apoiadores da campanha de Gaffney vieram armados de pontos de escuta e câmeras, na esperança de flagrar Khan e outro expositor muçulmano, Muhamad Elibiary, da Fundação pela Liberdade e pela Justiça, num momento de aspirações califais secretas. Norquist também estava sendo observado, assim como sua mulher, Samah, que é descendente de palestinos e tem sido acusada de ser uma secreta “islamista”, o que provavelmente explica o desgosto de Norquist por Gaffney. Norquist e outros expositores finalmente encerraram as perguntas, que incluíram interrogatórios detalhados baseados em pontos de conversa de confiança da direita usados para provar as alegadas ambições teocráticas de organizações como a Sociedade Islâmica da América do Norte e o Conselho Americano de Relações Islâmicas.

Ainda assim, os apoiadores de Gaffney não ficaram satisfeitos. Hugher disse algum tempo depois que “eu simplesmente acredito que há ordens secretas que eles querem infiltrar no nosso governo e que isso pode soar como uma conspiração, mas eu acho que isso é possível”. Que radicais islamistas estão iniciando uma guerra não-violenta nos Estados Unidos, na qual eles procuram impor um severo código legal, foi a premissa do painel de maio, e, julgando pelas perguntas da audiência, as pessoas que foram ao CPAC tamém consideram isso uma possibilidade.

A divisão, pelo que parece, não é simplesmente entre islamofóbicos e aqueles de mente mais aberta; é uma lacuna entre os direitistas anti-intelectuais e as suas elites. Gaffney, popular na direita religiosa e nos círculos Cristão Zionistas, apela para a Nação Cristã e para ativistas fundamentalistas – eleitorado que qualquer candidato Republicano precisa conquistar para ser indicado à presidência.

Khan, enquanto isso, disse que era seguido por Doug Coe, chefe do The Family, grupo fundamentalista secreto que, como Jeff Sharlet relatou no seu livro The Family and C Street, facilita cultos e encontros para a elite política e empresários que o grupo considera serem os “homens-chave” de Jesus. Khan disse que ele não sabia nada dos escândalos do grupo, e que Coe o enviou versículos de Isaías e Pedro e pediu que “pudessem superar isso”. Sobre Coe, Khan disse: “ele é um homem de fé, um verdadeiro cristão. Eu digo, como um devoto muçulmano, que ele é alguem por quem eu tenho um grande respeito e compaixão”. Coe, disse Khan, “é alguém seguindo os passos de Cristo”.

Quando eu perguntei a Norquist se a briga representava uma richa prejudicial entre os conservadores e a direita religiosa, ele duas vezes mudou de assunto: uma vez com uma incursão na história do fanatismo na América – contra católicos, mórmons e judeus – o qual ele disse ter diminuido, prevendo uma resolução similar aos muçulmanos. Quando eu o pressionei uma segunda vez, ele colocou o seu chapéu de cientista político e insistiu que os decretos estatais baseados na lei da Sharia não moviam votos, sugerindo que a falta de apoio de um candidato a esses decretos não acabaria, no fim, alienando os eleitores conservadores.

Ainda, no entanto, Ralph Reed, o ex-queridinho do movimento, cuja Coalizão Fé e Liberdade o colocou de volta no mapa conservador, me disse: “nós certamente queremos ter certeza de que não teremos o fenômeno de uma ameaça terrorista externa substituído por uma ameaça nativa vinda de dentro”, adicionando que o seu grupo se opõe ao “código legal” da Sharia. E o painel de maio da Sharia, que incluiu o ex-diretor da CIA James Woolsey, o colaborador da National Review Andrew McCarthy e a ativista acadêmica do American Enterprise Institute, Ayaan Hirsi Ali, teve um público muito maior do que o evento de Khan promovendo a liberdade religiosa.

Eu perguntei a Khan e Samah Norquist porque os seus amigos conservadores, como Gingrich, estão contando com a onda da islamofobia. Ambos disseram que isso se relacionava ao jogo político de Newt.

“Ele dançou a dança do ventre no seu casamento!” Khan lembrou a Norquist.

“Ele dançou com sua esposa”, ela concordou.

Como diz o antigo ditado, com amigos como esses, quem precisa de inimigos?

Sarah Posner

Tradução de Arthur Carneiro Chini

Acesse o original aqui

Imagem retirada daqui

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