Rádio, viagem no tempo e identidade no filme polonês “The Man With The Magical Box”, por Wilson Ferreira

“The Man With The Magic Box” faz o contrário: a viagem no tempo como busca da permanência, duração – a busca da própria identidade.

por Wilson Ferreira

Um filme sobre viagem no tempo com a colcha de retalhos típica da nostalgia pós-moderna: um mix de “Brazil” de Terry Gilliam, “Clube da Luta”, “Blade Runner”, “1984” de Orwell com alusões a “Stalker” de Tarkovsky. É o thriller sci-fi polonês “The Man With The Magic Box” (“Czlowiec z magicznym pudelkiem”, 2017) – na Varsóvia de 2030 um homem encontra em seu velho apartamento um antigo rádio de 1950 que misteriosamente transmite músicas do passado com ondas Theta que produzem nele flashs de memória de uma outra vida. Mas um governo nacionalista totalitário monitora qualquer tentativa de fuga por meio de viagens no tempo através da mente. Diferente da maioria das abordagens do cinema sobre a viagem no tempo (como possibilidade de mudança como “segunda chance”), “The Man With The Magic Box” faz o contrário: a viagem no tempo como busca da permanência, duração – a busca da própria identidade.

Dentro da iconografia dos filmes gnósticos, escadas em espiral fazem parte de uma importante simbologia, principalmente se o filme abordar a temática da viagem no tempo.

A espiral partilha de uma complexa simbologia do eixo e da verticalidade. Enquanto forma ela enquadra-se perfeitamente no tema da identidade. Por ser uma forma logarítmica, isto é, por crescer de modo terminal sem modificar a forma total constitui-se no ícone da temporalidade, da permanência do ser através das mudanças. Ao mesmo tempo, o simbolismo da espiral associa-se com o do labirinto, de uma viagem da alma após a morte.

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A espiral simboliza, igualmente, a viagem da alma, após a morte, ao longo dos caminhos desconhecidos, mas que conduzem, através dos desvios ordenados, à morada central do ser eterno.

Uma escadaria em espiral num velho edifício residencial é o simbolismo chave do thriller sci-fi polonês The Man With Magic Box (Czlowiec z magicznym pudelkiem, 2017) – num futuro não muito distante em uma Varsóvia distópica governada por Estado nacionalista totalitário, com a ajuda de uma espécie de sociedade secreta, Adam escapa da parte pobre para morar na Cidade Nova. Obtém uma identidade nova, um emprego de faxineiro em uma grande corporação e um apartamento em um prédio antigo com uma imensa escadaria central na forma de espiral.

“O melhor amanhã foi o de ontem” é uma pichação que vemos in passant durante o filme, mas que sintetiza o espírito da produção polonesa: é um filme sobre viagem no tempo, mas não esconde a sua nostalgia pós-moderna: além de ser uma colcha de retalhos de referências, alusões e homenagens (como a cena que emula o final de O Clube Luta e citações aqui e ali de Brazil de Terry Gilliam, Blade Runner de Ridley Scott e as paisagens devastadas de Stalker de Andrei Tarkovsky), esteticamente é um mix de futurismo, vintage e atmosfera retrô. O “clássico” pastiche da nostalgia pós-moderna.

O que num filme sobre viagem no tempo é quase uma metalinguagem. Mas o simbolismo central da identidade, permanência e transformação representado pela recorrente escadaria em espiral confere uma abordagem bem distinta da atual safra da viagem no tempo no cinema: voltar ao passado não é uma maneira de adquirir uma “segunda chance” ou corrigir erros do passado para corrigir o presente.

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Ao contrário: os protagonistas viajam no tempo para lutarem por suas lembranças, a própria identidade e a memória. Lutam através do tempo para permanecerem os mesmos.

O Filme

A narrativa abre com uma sequência ao melhor estilo de filmes de Terry Gilliam como Brazil ou Os Doze Macacos, apenas sem a característica lente em grande angular nervosa do diretor inglês: Goria (Olga Boladz) está sentada diante de autoridades policiais de algum sistema totalitário. Ela foi condenada a ter a memória da vida atual deletada, para ganhar um novo trabalho e identidade.

Corta para Adam (Piotr Polak), atravessando um rio em um pequeno barco conduzido por um guia. Estamos em Varsóvia de 2030 e Adam está sendo levado para iniciar uma vida na Cidade Nova, com uma outra identidade, residência e trabalho. Ela será apenas um faxineiro em uma grande corporação, morando em um edifício antigo sem elevadores: o único acesso é através de uma escadaria em espiral.

No trabalho sente uma imediata atração por Goria, agora trabalhando como chefa do departamento de RH da empresa. Goria é independente, vistosa, sempre expansiva e cínica. Quer apenas sexo casual com alguém com tal baixo status na empresa.

Em seu velho apartamento, Adam encontra um aparelho de rádio da década de 1950 que misteriosamente transmite uma bela música do passado. Mas o que ele não sabe é que aquela “caixa mágica” transmite ondas Theta que fazem Adam de início começar a ter estranhas visões de outra vida – O ano de 1952, na Polônia sob o punho de ferro do stalinismo e fazendo parte de um grupo de técnicos e engenheiros da emissora de TV estatal. Secretamente, fazem experiências com ondas eletromagnéticas e hertzianas da TV e rádio.

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Objetivo: atravessar a cortina de ferro e fugir do totalitarismo stalinista. Senão fisicamente, pelo menos através de uma viagem mental pelo tempo, induzido pelas ondas de rádio e TV. Mas há um problema: o governo está monitorando aquele grupo, tanto no passado quanto no futuro, em 2030.

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