Singer: Bolsonaro impõe “autoritarismo furtivo” e impeachment é mal necessário

Bolsonaro "está cumprindo à risca o que prometeu na campanha e tentando alargar o seu poder, o que é, literalmente, a transição para o autoritarismo", diz cientista político

Jornal GGN – Jair Bolsonaro é um exemplo claro do que a ciência política de “autoritarismo furtivo”. Eleito pelo povo – portanto, dentro da estrutura do Estado de Direito – Bolsonaro mina as instituições democráticas de dentro para fora, tentando consolidar seu projeto autoritário de poder.

Diante de uma ameaça real à sua própria existência, as demais instituições da República estão vacilantes. Rodrigo Maia, que cuida de uma dezena de pedidos de impeachment, está enquadrado pela relação de Bolsonaro com o centrão.

O Brasil não merece passar por um processo de impeachment a cada novo mandato presidencial, mas a situação é “excepcional” e o afastamento de Bolsonaro torna-se um mal necessário. É o que avalia o cientista política André Singer.

Segundo Singer, o autoritarismo furtivo dispõe sobre a “transição lenta da democracia para o autoritarismo, por meio de uma ação conduzida por líderes democraticamente eleitos e que se dá por dentro do Estado de Direito, e não como uma ruptura. É muito diferente dos golpes de Estado em que um certo dia apareciam tanques na rua, é um retrocesso em direção ao autoritarismo. E como é induzido por dentro das brechas das leis, a opinião pública, os movimentos sociais, a sociedade civil e a oposição não percebem bem o que está acontecendo e não conseguem mobilizar a sociedade.”

Neste momento, Bolsonaro mina a resistência fortalecendo suas alianças com o Centrão, que é quem pode blindá-lo do impeachment na Câmara. “Este acordo abalou a atuação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, peça-chave na resistência até porque dele depende a possibilidade de haver uma continuidade de um pedido de impeachment.”

“A sociedade e as instituições, incluindo partidos políticos, precisam tomar consciência do perigo e por um paradeiro a isso. Daqui a pouco será tarde demais. Não é um perigo menor. O apoio popular que ele parece manter, um terço do eleitorado, não é a maioria do pais. A maioria quer a democracia. E a Constituição dá os instrumentos legais para se afastar um chefe do Executivo que ameaça a democracia”, advertiu Singer.

Para ele, “o Brasil não pode fazer um impeachment por mandato e não deve. Mas estamos em uma circunstância excepcional.”

Com informações do Valor Econômico

 

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