Velocidade de propagação da covid-19 aumenta enquanto governo encalha testes

Números da semana confirmam que coronavírus cresce mais rápido e governo não oferece resposta sobre testes encalhados

Governo Federal tem quase sete milhões de testes prestes a vencer armazenados e sem destinação - Mufid Majnun/ Unsplash

do Brasil de Fato

por Nara Lacerda

A notícia de que o governo federal tem quase sete mil testes PCR da covid-19 encalhados em um galpão de armazenamento e prestes a vencer tomou conta das manchetes e debates nesta semana, em meio a uma escalada de números da pandemia no Brasil. Publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, a denuncia veio à tona um dia depois de o país confirmar 200 mil casos em uma semana, cenário que não era observado desde setembro.

Frente à recomendação de que a testagem em massa é uma das medidas mais eficazes para controle da pandemia, a informação dos testes que podem ir pro lixo já soa muito grave. Quando se soma a isso, o fato de que o Brasil não está nem mesmo entre as 100 nações que mais realizam exames na população, o fato ganha contornos ainda mais negativos. O número de exames armazenados é maior do que o total já realizado em todo o país.

Os registros de novas mortes também avançaram com mais velocidade durante a semana anterior à descoberta da existência dos testes próximos ao vencimento. Foram confirmados 3.331 casos fatais. Na terça-feira (24), o Brasil ultrapassou a marca de 170 mil mortes pela covid-19. No mesmo dia, o número de pacientes em acompanhamento era de 473 mil. Na sexta-feira (27) já estava acima de 500 mil.

Também na terça-feira, relatório do Imperial College de Londres reafirmava o crescimento do surto. A taxa de propagação medida pela instituição chegou a 1,3 no Brasil. Isso significa que cada 100 pessoas têm potencial de infectar outras 130 e o número cresce a cada grupo de novos infectados. Resultado semelhante não era observado desde maio.

Em participação no podcast A Covid-19 na Semana, o médico de família Aristóteles Cardona, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, afirma que o poder público precisa se concentrar em medidas para evitar um aumento do contágio. A proximidade das festas de fim de ano causa ainda mais preocupação e é necessário atuar com agilidade.

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“Se a partir de agora, os estados, municípios, o governo federal – que a gente nem acredita muito nisso –  passassem a ter uma postura mais séria, a gente teria como reverter isso. As estimativas, pelo crescimento que a gente tem visto nos últimos dias, são muito preocupantes. Algumas delas colocam que, neste ritmo, antes do Natal a gente volta ao patamar de mais de mil mortes diárias.”

Na quarta-feira (25), o total de novos pacientes com a covid-19 no Brasil aumentou 47.898 em 24 horas. O registro de contaminados se aproximou novamente dos 50 mil, nível semelhante ao observado em agosto. No dia anterior o número de óbitos causado pela covid-19 em todo o mundo chegou ao patamar mais alto já registrado em 24 horas. Foram confirmadas 12.785 mortes.

Os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), registrados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apresentaram tendência de aumento em todo o país. Cenário semelhante não era observado desde o fim de junho. O boletim InfoGripe mostrou que todas as regiões do país estão na chamada zona de risco. O novo coronavírus é a causa da SRAG em quase 98% dos pacientes.

Na sexta-feira (27), o Brasil estava prestes a registrar novamente um total de 200 mil infectados em uma semana. Mesmo que o número não seja alcançado, os dados semanais continuam muito negativos. O chefe de operações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mike Ryan, defendeu unidade e coordenação entre os governos nas ações.

Para ele é possível “encontrar consenso sobre como ir adiante juntos para que a população tenha clareza sobre decisões, sobre a mensagem, sobre o mandato de implementação de medidas pelo governo”. Ryan ressaltou que não há mais como alegar desconhecimento sobre o coronavírus para justificar a inércia na tomada de decisões.

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Ao comentar a existência dos testes prestes a vencer, o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Arnaldo Medeiros, disse que a validade dos exames é “cartorial” e pode ser ampliada. As afirmações foram feitas na quarta-feira (25) em audiência na Câmara. No mesmo evento, a diretora da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Cristiane Gomes, contradisse Medeiros e afirmou que o prazo foi definido pela fabricante dos produtos.

O médico Aristóteles Cardona aponta a falta de coerência do governo e finaliza: “A gente tem essa notícia, em um ministério onde a justificativa para manter o ministro Eduardo Pazuello é de que ele entendia de logística. Aí estamos, perdendo testes por validade. Infelizmente a gente está desperdiçando muito.”

Edição: Rodrigo Chagas

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