As palavras falam, o corpo fala, o silêncio fala, por Cristiane Alves

As palavras falam, o corpo fala, o silêncio fala

por Cristiane Alves

Não sou linguista, já disse mais de uma vez. Sou cientista humana e docente.

Das minhas experiências vividas apreendi que nem tudo que fala, fala tudo. É preciso olhar e não apenas ouvir. É o que faz o cego, usa sentidos múltiplos para apreender o que lhe traduzem pela fala. Nós, videntes, somos muito mais cegos às vezes.

Se me chamam, com esmerado carinho, de “linda!”, mas meneiam a cabeça e erguem os olhos de modo debochado, sei que “linda” não é propriamente um elogio. 

As palavras falam, o corpo fala, o silêncio fala.

Quando uma pessoa pública dissemina o ódio de forma doce, atrai ao ódio os que gostam de ódio e os que gostam de doce. O ódio vira guloseima e guloseimas viciam e engordam. Então vivemos em tempos de obesidade mórbida das mais variadas perversidades, num adiposo emaranhado de sentimentos raivosos que, por vezes, diminuímos com regimes restritivos, mas que o efeito sanfona insiste em se fazer presente. A questão é que obesidade mórbida mata. Estão matando e morrendo de ódio.

O ódio cria um mundo paralelo, surreal e esquizofrênico, onde o delirante se vê perseguido por todos os que não lhe são iguais, precisa se defender das potenciais ameaças e ataca furiosamente.

Ataca, mata e se justifica. Mesmo que a ameaça, de fato, nunca tenha existido. E não adianta tentar provar o erro, não adianta argumentar com um paranóico, pois toda alienação lhe é fato real.

Mas talvez o mais preocupante seja que aqueles que deveriam conter a histeria coletiva, que deveriam medicar os delirantes paranóides, esses fingem que não estão vendo. Passam e vêem o massacre feito por pessoas desequilibradas e, podendo resolver a barbárie, dizem apenas que “eles estão fora de si”. E de fato estão, mas os mortos e feridos não. 

Apenas que os mortos e feridos, sendo vistos pelos que zelam pela sanidade coletiva como inimigos, se tornam descartáveis. E na sanha por uma vingança branca usam os incautos como arma letal e horrenda. Saem de mãos limpas e a consciência tranquila daqueles que colocam a arma na mão do assassino, apontam as vítimas, incitam o ódio, mas não atiram. São limpos por fora e cheios de carniça por dentro, tal qual os mais adornados sepulcros.

O silêncio do judiciário, a conivência, a anuência seguidamente ensejada, têm levado o país ao caos. Nessa ode, os odiosos culpam as vitimas por terem que odiar, questionam porquê insistem em não ser como eles. 

Odiosos não querem nada, querem a liberdade de expressar ofensas, querem humilhar sem restrição, querem pisar o menos favorecido, atear fogo no indigente e não ter crise de consciência externa. Odeiam crise, crise é invenção de esquerdista chorão.

São fortes e viris com os fracos e servis por isso não querem empoderamento. Sabem de sua indigência moral e cívica, de sua inapetência. Sabem que entre os que massacram estão muitos infinitamente melhores, mais competentes, mais inteligentes, mais bonitos, mais humanos.

O judiciário aplaude a barbárie num levante malthusiano higienista, como que para garantir que somente os fortes sobrevivam. São os contra o aborto pois sabem que mantendo a conjuntura morrerá a mãe e o feto, ou sobreviverão para que surja o aborto social que provavelmente matará outro pobre. 

Querem drenar o sangue da massa ao seu chouriço regado a azeite importado, mesmo dizendo que o sangue do povo é ruim.

O judiciário permite os piores crimes, camuflando a psicopatia sob o manto da liberdade de expressão.

Então quando tudo está explodindo em ódio e vísceras olham com desprezo e asco e culpam os que tentaram tratar a doença. Falam que os médicos deveriam ter acelerado os relatórios, os mesmos que nunca quiseram ler.

Agora estão gordos e ricos, mas onde se sustentarão no futuro? Não falo de História, eles não se preocupam com ela, querem a compensação agora. E têm agora 

Falo dos que virão.

Cristiane Alves – Formação em Geografia (licenciatura e bacharelado) – UNESP, Especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação – UNESP

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