O golpe verde ou amarelo?, por Fernando Horta

Se é verdade que até hoje tratamos “o exército” como um ente sempre disposto a golpes e ilegalidades em nome de posturas políticas próprias é porque a própria instituição nunca fez o trabalho de exaltar seus quadros mais legalistas.

O golpe verde ou amarelo?, por Fernando Horta

Em agosto de 1961 João Goulart estava na China. Quando da renúncia de Jânio Quadros, o então vice-presidente cumpria missão diplomática que era parte da política externa desenhada na época. Os militares golpistas acharam que a melhor maneira de tomar o poder no Brasil era evitar o retorno de Goulart e aproveitar a “vacância” do cargo de presidente. O golpe de 1964 era na verdade para ter acontecido em 1961. Foi a coragem de políticos como Leonel Brizola, aliada ao senso de legalidade apurado de militares como o general Machado Lopes (então comandante do terceiro exército) que deram ao Brasil um sopro de liberdade.

Quando informado do golpe em curso pelos militares do centro do país, Machado Lopes teria enviado um telegrama conciso aos seus chefes dizendo “Avise que eu vou formar com a corja”. Não havia nenhum censo de apoio político do general a Brizola ou Goulart. Não havia simpatia, nem qualquer traço de bem-querer. Machado Lopes achava Brizola e Goulart uma “corja”, mas sabia de sua missão constitucional. O golpe estava verde. Precisava amadurecer.

Entre 1961 e 1964 o golpismo dentro do exército se fortaleceu. Inúmeras foram as transferências de oficiais legalistas para unidades militares longínquas e sem importância política. Muitos foram sendo postos na reserva e retirados do caminho que a instituição trilhava para acabar com a democracia brasileira. A vitória da “campanha da legalidade” de Brizola foi no fim uma vitória de Pirro. A inação do parlamento deu tempo aos golpistas para que se reorganizassem e em abril de 1964 viria a noite de 21 anos.

Se é verdade que até hoje tratamos “o exército” como um ente sempre disposto a golpes e ilegalidades em nome de posturas políticas próprias é porque a própria instituição nunca fez o trabalho de exaltar seus quadros mais legalistas. Pessoas como Henrique Teixeira Lott, José Machado Lopes e, ao que tudo parece, hoje Edson Pujol, Ilques Barbosa Júnior e Antonio Bermudez não viram nomes de pontes como, por exemplo, generais-presidentes torturadores.

O controle que a instituição faz sobre sua memória reforça a percepção civil de uma força sustentada pela sociedade pronta para mutilá-la a qualquer momento. Na situação atual, ocorre algo parecido. É claro que a resistência aos golpes não é feita só pelo alto oficialato, mas o silêncio da história oficial parece ser o mesmo. O Brasil não conhece, por exemplo, a revolta dos cabos e suboficiais da base aérea de Canoas em 1961 que impediu que se cumprisse a ordem de bombardear o Palácio Piratini. Pouco também se sabe dos inúmeros militares presos e torturados por seus próprios colegas de farda no golpe de 1964, assim como hoje não se vê a parcela legalista das forças que não apoiam o fascismo de Bolsonaro.

Que se escreva, portanto, que em março de 2021 o golpe estava ainda verde. Precisava amadurecer. E que Pujol, Barbosa Júnior e Bermudez, junto com Fernando Azevedo avisaram aos civis do que estaria para ocorrer.

Se seguirmos o caminho da história, Bolsonaro vai mapear e afastar todo o oficialato contrário aos seus arroubos autoritários. Vai colocar uma parte na reserva e outra parte despachar para quartéis longe de qualquer centro urbano. Enquanto isso, nomeará comandantes submissos e que aceitem prestar continência a um capitão genocida. Enquanto humilha oficiais que cumprem a constituição, Bolsonaro – em frente aos olhos do parlamento e do STF – prepara o seu golpe.

Hoje, com mais de 3700 mortes diárias por COVID (subnotificadas) e com outra tentativa malsucedida de golpe, há quem prefira discutir BBB ou comemorar o “movimento de 64”. Do ponto de vista da realidade, ambos cumprem papel de semelhante perversidade.

Além dos perversos, o Brasil sofre também com os omissos. O parlamento brasileiro vive da ignorância de seus membros. Ignoram a pandemia, ignoram o golpismo de Bia Kicis e Carla Zambelli, ignoram as perversidades dos “majores alguma coisa” ou “pastores de sei lá eu onde” que não tem nome próprio mas são cães de guarda do presidente fascista. O parlamento brasileiro vive como Luís XVI antes da Revolução Francesa e ao STF só falta repetir a famosa frase “se não tem pão, que comam brioches”.

Antes de se eleger, os filhos de Jair e os filhos de Januário já urdiam o golpe. Uns através da famosa frase do cabo e do soldado fechando o STF. Os outros pela a criminosa perseguição a Lula. No ano passado, novamente Bolsonaro articulou um golpe, denunciado na época pela revista Fórum. Esta é – portanto – a terceira vez que Bolsonaro atenta contra a democracia. E todos seguem fazendo cara de paisagem. A cada tentativa o golpe se torna mais forte. Nesta última tentativa o miliciano-presidente conseguiu incitar revolta nas brigadas militares estatais e tentou passar uma lei aumentando seus poderes sobre esses contingentes armados. A senhora História é conhecida por ter uma memória quase perfeita, mas uma imensa dificuldade de ser ouvida.

Foram três anos, entre 1961 e 1964, em que os golpistas afastaram toda resistência interna. Com Bolsonaro serão apenas 60 dias. E se o destino nos deu um exemplo de resistência de onde menos se poderia esperar, que o exemplo de coragem dos comandantes das forças que se demitiram ante ao golpismo de Bolsonaro não fique em vão. É hora de o mundo civil depor o fascista genocida e abrir caminho para a reconstrução de nossas instituições. E se tais resultados não parecerem bons o suficiente, retirem Bolsonaro para estancar as quase quatro mil mortes diárias (subnotificadas) que ele faz acontecer.

Talvez sejamos forçados a reconhecer que a caserna tenha demonstrado mais coragem no ato de seus comandantes do que o parlamento democrático e a Suprema Corte nos últimos dois anos. A sanha de poder de um fascista só para dependurada de cabeça para baixo numa trave, ao escrutínio vergonhoso de seus outrora apoiadores.

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