A face islamofóbica e colonizada do discurso de Bolsonaro na ONU, por Bruno Beaklini

Se a posição brasileira fosse realmente de asilo universal e direito dos refugiados, deveria defender essa postura em escala universal, incluindo a crítica direta aos EUA.

Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, discursa no debate geral da 76ª sessão da Assembléia Geral da ONU, em Nova York, em 21 de setembro de 2021 [Cia Pak/UN Photo]

do Monitor do Oriente Médio

A face islamofóbica e colonizada do discurso de Bolsonaro na ONU

por Bruno Beaklini

Na terça-feira 21 de setembro, o presidente de uma república com mais de 16 milhões de árabes descendentes passou por uma vergonha de escala planetária. No discurso de abertura na Assembleia Geral da ONU, além de todos os vexames ocorridos antes e depois do evento, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu também ofender a população de credo islâmico em todo o planeta. Ele, talvez por pressão do Departamento de Estado, quem sabe por mais um arroubo da própria estupidez, prometeu dar asilo para a população afegã composta de “cristãos, mulheres, crianças e juízes”.

Se a posição brasileira fosse realmente de asilo universal e direito dos refugiados, deveria defender essa postura em escala universal, incluindo a crítica direta aos EUA. Sob a administração de seu ídolo Donald Trump, a Superpotência decadente expulsou centenas de milhares de latino americanos, além de colocar em jaulas milhares de crianças centro americanas. Já no recente e desastroso governo Biden, a meta é a deportação de milhares de haitianos.

O que faz Bolsonaro? Ficou comprometido com a agenda internacional dos Estados Unidos, sem entrar no mérito do problema de fundo. Mais, falou para os possíveis financiadores internacionais – e ilegais por consequência – de sua aventura rumo à reeleição em 2022. Steve Bannon já disse que o pleito brasileiro do ano que vem é a mais importante eleição de seu projeto. A posição do desgoverno Bolsonaro segue sendo subalternizada, como sempre.

Bolsonaro na ONU [Charge Carlos Latuff]

Prometer refúgio a mulheres e crianças deveria ser uma prática permanente do Itamaraty, ainda mais em países árabes (não é o caso do Afeganistão) ou islâmicos, sendo estes muito atingidos pelos bombardeios em massa promovidos pelos EUA. E não uma exceção.

A outra aberração ao ofertar “asilo para cristãos” no Afeganistão resulta no mínimo absurda. Um porque esta população convertida seria 0,03% do país. Outro fator é de longo prazo. Existe um fenômeno muito recorrente no Oriente Médio (na região chamada de Oeste da Ásia) e na Grande Oriente Médio (Ásia Central e norte da África incluído) que é a conversão recente de populações e invasores coloniais ao pentecostalismo. O mesmo ocorre em terras afegãs.

Até onde se sabe o sistema de crenças das nove etnias residentes no Afeganistão não inclui nenhuma forma de cristianismo. A tradição do primeiro cristianismo, a nossa, a de Issa, Eescho em aramaico, é solenemente ignorada pelo energúmeno que hoje ocupa a Presidência do país.

Logo, oferecer “asilo” aos cristãos de um país invadido por tropas ocidentalizadas tanto no período soviético (matriz russa e bizantina) ou da aliança EUA e OTAN (matriz anglo-saxã) seria como proteger um capelão de forças coloniais britânicas a soldo da Companhia das Índias Orientais. Talvez outra analogia, defender os inquisidores promovendo perseguição antissemita em sentido amplo (contra árabes culturais de todo tipo, sejam cristãos, judeus ou muçulmanos), como nas Cruzadas ou na “reconquista” sanguinária de Al-Andaluz.

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 Bolsonaro, como sempre, apesar de alguns poucos levantinos traidores que seguem apoiando-o, segue sendo portador de uma estupidez abissal em relação ao mundo árabe. Infelizmente ainda somos menos ativos do que deveríamos ser na defesa dos legítimos interesses de nossos países ancestrais. Mais de 95% dos patrícios e patrícias vêm do Líbano, Síria e Palestina. Os três territórios sofrem ocupação estrangeira, agressões militares e tentativas permanentes de invasão.

Bolsonaro, o ignorante no Mundo Árabe, citou a missão brasileira ao Líbano, a participação importante e reconhecida na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FINUL, UNIFIL na sigla em inglês). Obviamente não deu contexto algum. A missão começou após um pedido do governo libanês, desde outubro de 2006, quando os povos da terra do cedro alinhados com o Eixo da Resistência e com o Hezbollah na primeira linha, derrotaram o invasor sionista. Era a segunda vitória consecutiva em menos de dez anos.

O gabinete do primeiro ministro em Beirute pede para as Nações Unidas uma força de proteção da fronteira, justamente para colocar um território tampão impedindo – ou dificultando – que os tanques Merkava dos colonialistas pudessem avançar sobre as terras do Sul do Líbano. A UNIFIL estabeleceu também uma Força Tarefa Marítima (FTM), cuja frota contava com a briosa Fragata Independência da marinha de João Cândido, iniciada em 1º de janeiro de 2011. Sua missão era ajudar a patrulhar águas libanesas cuja maior ameaça é a presença de vasos invasores sionistas. A missão brasileira se encerrou em 2020.

A UNIFIL tem suas limitações e não consegue nem romper o bloqueio naval do invasor colonial em águas outrora navegadas pela gloriosa marinha fenícia. Tampouco a UNIFIL protege os céus da Cananeia agredida e ocupada, mas já ajuda. Logo, o energúmeno afirma a missão brasileira junto a ONU no Líbano e esconde a posição anticolonial destas unidades militares do país irmanado.

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Porque o ignorante não citou a missão brasileira em Suez? Quando o governo egípcio sob o comando de Gamal Abdel Nasser nacionaliza o Canal de Suez, as forças coloniais da Grã Bretanha, França e da entidade sionista invadem simultaneamente a Península do Sinai, visando retomar o estreito que liga o Mediterrâneo ao Mar Vermelho e ao Índico. A intervenção da ONU reforça as posições árabes e do Egito, protegendo os territórios invadidos pelos ocidentais em 1956. Tampouco citou a participação do então tenente de infantaria, Carlos Lamarca, que quando já promovido a capitão, opta pela “luta justa” (jihad) e se alinha com a insurgência do povo brasileiro contra a ditadura militar alinhada com os Estados Unidos.

Essa missão que durou dez anos não foi citada pelo presidente que levou o Brasil ao máximo vexame, tanto ao falar 11 mentiras em 12 minutos de discurso como também ao participar da Assembleia Geral da ONU sem estar vacinado. Ao contrário, fez um pronunciamento contra o terrorismo, em escala genérica, o que implica no Sistema Internacional estar alinhado com a chamada “guerra ao terror” (GWOT da sigla em inglês), esta sendo comandada pelo Império anglo-saxão e promovendo violação permanente do direito internacional.

Porque o presidente não defendeu a histórica posição brasileira de neutralidade e diplomacia, exigindo a retirada de tropas da OTAN de territórios externos às soberanias dos países membros do Tratado do Atlântico Norte? Porque não exigiu o fim imediato dos assassinatos coletivos de populações islamizadas através de aeronaves não tripuladas (drones) de ataques operados pelos EUA? Porque não demandou contra a permanente violação do espaço aéreo do Paquistão e do Iêmen? Porque não defendeu a autodeterminação dos povos e o rechaço ao colonialismo na Palestina Ocupada? Porque Jair Bolsonaro é um colonizado, fala para sua bolha doméstica e externa e busca o apoio da excrescência do ocidente, representada pelos financiadores de campanha de Trump, Orban e outros líderes xenófobos e islamofóbicos.

Uma agressão como esta é imperdoável para a colônia árabe brasileira e jamais deve ser esquecida.

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