Guerras híbridas, uma Lava Jato global e as eleições brasileiras, por Cesar Calejon

Apoiados na narrativa do “combate à corrupção”, os Estados Unidos e as suas principais empresas promovem “revoluções coloridas”

USP arte

Guerras híbridas, uma Lava Jato global e as eleições brasileiras

por Cesar Calejon

Acostumados a ditar os rumos geopolíticos do mundo, sobretudo a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os Estados Unidos e os seus principais conglomerados empresariais vêm sofisticando os instrumentos que utilizam para conquistar novas fronteiras. 

Atualmente, para atenuar o processo de derrocada que lhes acomete e a formação de uma economia paralela global – principalmente, comandada por China e Rússia – que não será indexada pelo dólar, o regime estadunidense adota o conceito da guerra híbrida, que, via de regra, envolve o Departamento de Justiça dos EUA, o FBI, a CIA e as grandes companhias de tecnologia (big techs).

Apoiados na narrativa do “combate à corrupção”, geralmente seguindo os moldes do Foreign Corrupt Prevention Act (FCPA), os Estados Unidos e as suas principais empresas promovem “revoluções coloridas” (Brasil, Ucrânia, Cazaquistão, Cuba etc.), desestabilizam democracias e destroem ou adquirem concorrentes que possam lhes oferecer alguma competição efetiva no cenário internacional, exatamente como aconteceu no Brasil, considerando o golpe parlamentar de 2016 e o desmonte do setor naval, petroleiro e da construção civil do país.     

Contudo, os métodos da Lava Jato são aplicados no âmbito global, inclusive contra países que são, historicamente, percebidos como aliados dos estadunidenses, como a França.

Recentemente lançado no Brasil, o livro Arapuca Estadunidense (Kotter, 2021) traz o relato de Frédéric Pierucci, ex-executivo da empresa francesa Alstom, em coautoria com o jornalista Matthieu Aron, sobre como os Estados Unidos o utilizaram como um peão emboscado na falácia do “combate à corrupção” para adquirir o controle de boa parte das centrais nucleares francesas. Assim como aconteceu com o controle do governo brasileiro, a Petrobras, o Pré-Sal etc.

Por meio de dados sólidos e veemente análise, Pierucci demonstra a trama do Departamento de Justiça dos EUA com a General Eletric para comprar a Alstom.

Preso ao desembarcar no Aeroporto JFK sob acusação de corrupção na Indonésia, com base no FCPA, a lei anticorrupção estadunidense, Pierucci narra o seu infortúnio e os bastidores do processo a que teve de responder enquanto era mantido em uma prisão de alta segurança, para onde foi conduzido acorrentado. Ficaria ali como refém (a expressão é dele próprio no subtítulo do livro), até que o intento estadunidense fosse alcançado. Ou seja, o que esses bastidores revelam é a guerra comercial que o Departamento de Justiça dos EUA trava em favor de empresas estadunidenses ao forçar o uso extraterritorial do FCPA.

A Alstom foi a quinta empresa absorvida pela gigante estadunidense depois de ser enquadrada judicialmente com base no FCPA. O fato aponta o conluio da empresa com o estamento judicial, vez que, como o livro detalha, entre outros indícios, a GE “(…) estreitou laços com a unidade anticorrupção do DOJ” graças, em grande medida, a um mecanismo conhecido como “porta giratória”: profissionais oriundos do serviço público – no caso, o DOJ – são recrutados por grandes empresas e gabinetes de advocacia, para onde levam seu “capital burocrático” – o acesso aos antigos contatos profissionais e a experiência amealhada – para atuar, agora, do outro lado do balcão.

No limite, essa é uma condição que pode afetar relações diplomáticas a ponto de subjugação. Por exemplo, se os Estados Unidos resolverem invadir um país e pedirem o alinhamento da França, como aconteceu na invasão do Iraque, a França agora já não tem a plena autonomia que teve para dizer não naquele momento.

O livro revela-se mais uma evidência incontornável de que o Brasil e a América Latina também são alvos dessa guerra e de que a assim chamada Operação Lava Jato e seus integrantes funcionaram como cavalos de troia dos interesses geoeconômicos estadunidenses e de empresas transnacionais concorrentes das nossas.

Para ficar em um só exemplo, os interesses da Trafigura na Lava Jato carecem ainda de uma investigação séria. Sem falar que procuradores que tiveram atuação decisiva no processo a que Pierucci foi submetido desempenharam seus papéis nas colaborações de legalidade duvidosa que mantiveram com seus parceiros no Brasil.

Um exemplo emblemático é o do conhecido procurador Daniel Kahn, que, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo, saudou a parceria frutuosa para seu país, assinalando que, sem ela, não teria sido possível aos EUA multarem a Petrobrás. E arrematou alertando que “(…) não seria surpresa se aparecesse outro caso de corrupção no Brasil” investigado pelos Estados Unidos.

Aliás, Kahn, a quem Pierucci alude dizendo que “(…) preferiria jamais ter conhecido”, é um exemplo da “porta giratória”: assim que encerrou sua atuação junto ao DOJ, passou a integrar o gabinete de Davis Polk, onde advoga na área de crimes do colarinho branco para a América Latina. Dentre os clientes do escritório, acreditem, está a Odebrecht.

Evidentemente, esse modus operandi precisa ser melhor ilustrado à população brasileira, considerando que Sergio Moro e Deltan Dallagnol, apesar de serem os principais artífices do ataque estadunidense contra a soberania e a economia do Brasil, ainda seguem impunes, capazes de se candidatar a cargos públicos. Esse é o principal risco das eleições presidenciais de 2022.

Cesar Calejon – Jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É autor dos livros ‘A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI’ (Kotter) e ‘Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil’ (Contracorrente)

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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