Vladimir Safatle: não há presidente no Brasil, eleições foram fraudadas

Filósofo observa falta de legitimidade no processo que levou Bolsonaro ao Planalto: “Moro quebrou as regras para prender o candidato à Presidência que impedia seu próprio projeto pessoal de se tornar presidente em 2022"

Vladimir Safatle. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Jornal GGN – O governo Jair Bolsonaro goza de pouca legitimidade para se manter. Na avaliação do filósofo e pensador político Vladimir Safatle é possível dizer, na verdade, que não houve eleição em 2018, portanto a população brasileira não tem um presidente de fato.

Esse quadro ficou mais claro a partir das revelações expostas pelo The Intercept Brasil dos diálogos trocados entre os procuradores da Operação Lava Jato e o então juiz Sérgio Moro, que mais tarde veio a se tornar o Ministro da Justiça do governo Bolsonaro.

“O sr. Moro e seus asseclas utilizaram dinheiro público como se fosse privado (no caso do pedido do sr. Dallagnol para uso de 38.000 reais da 13ª Vara para o pagamento de campanha publicitária), aproveitaram-se financeiramente da condição de servidores públicos com informações privilegiadas (ao, em meio a processo envolvendo alguns dos maiores agentes econômicos nacionais, serem pagos em palestras milionárias), tentaram tomar para si a gestão de 2,5 bilhões de reais da Petrobras por meio da criação de uma fundação privada: tudo em nome ao combate à corrupção”, relembra Safatle em artigo publicado nesta quarta-feira (31), no El País.

O filósofo ressalta que, em resposta ao escândalo, que também flagrou Moro “melhorando provas” junto com os procuradores da Lava Jato, “seus apoiadores afirmam que era necessário ‘quebrar as regras’ para conseguir enfim combater o pior de todos os males que assola esse país desde o momento que suas terras foram invadidas por portugueses, a saber, a corrupção”.

“No entanto, ninguém precisa acreditar nessa história cínica. Na verdade, o sr. Moro quebrou todas as regras possíveis para benefício próprio, ou seja, para prender o candidato à Presidência que impedia seu próprio projeto pessoal de se tornar presidente em 2022”.

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Safatle ressalta que, como juiz, Moro infringiu regras fundamentais do Estado Democrático de Direito, uma vez que “todos, independente de quem sejam, têm o direito a um julgamento justo e imparcial”.

“Ninguém que tem interesse pessoal em um processo pode ser o juiz do mesmo. Mas como ninguém parou o sr. Moro, ele pode ser agora catapultado para o centro da política brasileira pelas mãos de um político que ele, mais do que ninguém, elegeu ao tirar o primeiro colocado de circulação, ao alimentar o noticiário com notícias construídas tendo em vista o calendário eleitoral. Que ninguém se engane. Este senhor já está em campanha, sua mulher já está em campanha, seus apoiadores já estão em campanha”, completa o analista político.

A atuação de Sérgio Moro no julgamento das ações da Lava Jato foi fundamental para afastar o principal opositor político de Bolsonaro na corrida eleitoral e validar seu discurso de combate à corrupção.

Em sete meses de gestão do atual presidente, é possível observar que Moro ajudou a eleger alguém com a sua própria rede de corrupção. “Casos de financiamento ilegal no partido deste que ocupa a Presidência, envolvimento de seu filho senador em desvios de verba de gabinete, envolvimento de sua família com milícias. A lista não é pequena. Diante deste cenário, basta juntar os pontos para tirar as reais consequências”, analisa Safatle a respeito de Jair Bolsonaro.

Com isso, o filósofo nos leva à conclusão de que a eleição passada foi “fraudada, viciada, montada em todas as peças para ter o resultado que teve”.

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“Não há razão alguma para respeitá-la. Uma eleição real pede partidos livres, possibilidade de todos se candidatarem e não interferência de poderes extra-eleitorais nos processos em curso. Não há eleição real quando se escolhe quem pode e quem não pode concorrer”.

O governo Bolsonaro segue hoje com 30% de apoio da população brasileira, proporção que deve permanecer inalterada, pois se trata daqueles que aderiram ao seu discurso antidemocrático.

“Seu ato sórdido de falar sobre um desaparecido político na cadeira de um barbeiro contando a história de seu pretenso justiçamento por membros da luta armada, quando todas as informações do estado mostram seu assassinato sob tortura não é “mais uma derrapada”. É um ato de governo pensado e encenado. É a sua real concepção de governo e que consiste em mudar paulatinamente o centro dos limites do intolerável. Os que dizem que “são só palavras” não entendem nada sobre o que palavras realmente são. Palavras são o que temos de mais real, pois sua circulação autoriza ações, violências, afetos e túmulos”, pondera o filósofo.

A saída desse estágio em que se encontra o país continua dependendo da mobilização dos movimentos contrários à fragilização da democracia no país. Aliás, o silêncio dos grupos que não elegeram Bolsonaro e daqueles que se colocam contra seu governo é um fator preocupante e que precisa ser revertido para evitar novas perdas à população brasileira, como ocorreu com a reforma da Previdência, aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados.

“Onde estávamos [durante o processo da reforma da Previdência] e o que realmente nos mobiliza neste momento? Todos deveriam fazer uma autocrítica honesta, não apenas partidos e sindicatos, mas todos, isto se não quisermos ser tragados por movimentos desta natureza mais uma vez. Enquanto a capacidade de produção de força comum estiver fora de nosso alcance, continuaremos a perder”, observa Safatle.

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“Isto pode parecer com mais um chamado em nome da “unidade”. Mas valeria a pena precisar melhor esse ponto. Por mais paradoxal que isto possa parecer, talvez precisemos agora de divisão para unir, e não de união”, propõe.

“Há certas situações nas quais é necessário dividir para crescer. A oposição brasileira até agora sonhou com uma união em cima do nada. Ela não definiu as rupturas que quer tomar para si, o horizonte de suas novas lutas”, completa.

“Tentará ela ser, mais uma vez, o “good cop” do capitalismo brasileiro ou estará enfim disposta a vocalizar rupturas até agora não tentadas? Será ela o arauto do retorno a uma democracia que nunca existiu entre nós ou assumirá enfim o desafio de romper e criar o que até agora não existiu? Pregará ela o evangelho da “integração para todos” e do respeito a uma emancipação de indivíduos proprietários ou estará disposta a ser a força de desintegração que nos levará para fora do universo de propriedades? Essas divisões podem criar novas alianças. Por isso, elas podem nos fazer crescer”, conclui.

Clique aqui para ler na íntegra o artigo de Vladimir Safatle. 

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1 comentário

  1. Antes tarde do que nunca! Muitos de nós estamos desde 2018 dizendo isso, enquanto o pessoal da campanha do Haddad dizia que estávamos “estragando a festa”.

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