Avaliações da crise

Com toda a dificuldade de se tentar análises em cima do fogo alastrando, vamos a algumas considerações sobre o momento.
Na oposição e no governo há dois grupos claramente se digladiando entre si: os carbonários e os conciliadores. No PT, em ambiente de conciliação crescem as alas mineira e gaúcha; em caso de guerra, volta o predomínio da ala paulista. No PSDB, Aécio Neves aposta na conciliação, Fernando Henrique Cardoso na guerra e José Serra espera para se posicionar.
Tais posições não são estratificadas. Se os ventos da guerra predominarem, conciliadores se tornarão carbonários para não serem expulsos do jogo; e vice-versa.
O clima de hoje é francamente de guerra, inclusive tendo em vista a proximidade das eleições e a expectativa de um segundo turno. Não se pode transpor essa exacerbação para o clima pós-eleitoral, mas também não se pode ignorar seus efeitos sobre ele.
E há outros fatores no jogo. O caso do dossiê comprado sai do âmbito da política e entra no Judiciário. Pela proximidade de muitos dos envolvidos com Lula, não haverá como não respingar no presidente. O Judiciário também é afetado pela política e pelo chamado clamor das ruas. Mas qualquer análise sobre o futuro do governo terá que prever os próximos movimentos do Judiciário. E aí entram as seguintes circunstâncias
1. Pesam contra Lula, não apenas o dossiê em si, como o clima de arapongagem que tomou conta do jogo, incluindo os grampos no Tribunal Superior Eleitoral. Não há nada que ligue um episódio a outro, inclusive o próprio governo foi alvo de meia dúzia de dossiês, como no caso das contas secretas e dos dólares de Cuba. Mas quando os esquemas se aproximam demais do presidente, acende-se a luz nos demais poderes, seja o presidente o comandante ou, o que é mais provável, o chefe sem controle.
2. A defesa da legalidade e a popularidade de Lula junto aos eleitores de baixa renda bloquearam as tentativas de impeachment até agora. Mas se a Justiça constatar qualquer sinal de envolvimento de Lula com o episódio compra de dossiê, a legalidade muda de lado.
3. Embora haja mais que sinais, atos concretos de Lula no sentido de inverter a lógica do primeiro governo, há uma pesada herança de episódios nebulosos antes e depois da eleição. Quando pairam essas desconfianças no ar, a opinião pública midiática costuma dar uma chance aos governantes. A reincidência complica drasticamente a recomposição da imagem. Lula teria que ser muito mais rígido com os seus do que qualquer outro presidente na história recente do país. Mas o episódio revelou, no mínimo, que não dispõe de controle nem sobre seus quadros.
4. Some-se o fato de que há uma guerra declarada da mídia impressa ao governo, que tende a dar muito mais visibilidade a todos os atos negativos ao governo. Aí se trata de uma lógica à parte, em que entra em xeque a própria capacidade da mídia de continuar influenciando a opinião pública.
5. As armas de Lula para se sustentar serão a popularidade de um presidente recém-re-eleito e sua capacidade de apresentar propostas relevantes para o país no início de governo. Mas, com a guerra aberta, prejudica-se enormemente a condição de aprovar medidas relevantes. Por exemplo, a reforma política seria fundamental para conferir governabilidade a este e a qualquer futuro governo. Mas a leitura que provavelmente será feita pela oposição é que, aprová-la no início do segundo mandato, significará fortalecer Lula e conferir-lhe salvo conduto.
6. Lula dispõe de trunfos, mas terá que empreender uma dura corrida contra o tempo. O primeiro trunfo é o apoio dado pelas camadas mais humildes, somado ao novo papel da Internet, como coordenador de expectativas difusas não só dos anti-Lula, como dos pró-Lula. O segundo será a capacidade do PT de reconstruir rapidamente uma nova hegemonia. O terceiro, a capacidade do governo começar o ano com um boa agenda positiva. O quarto é o próprio final de campanha, que contribuirá para arrefecer um pouco os ânimos.
Mas lembre-se que, depois das eleições, o juiz não mais será o eleitor mas o Judiciário.

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