Leôncio e o coveiro de Santa Rita

Na gripe espanhola, em 1918, morreu um quinto da população de Santa Rita de Caldas. O herói da cidade era o coveiro. Diariamente ele pegava a lista de mortos entregue pelo médico, passava na casa de cada um, colocava o corpo na carroça, depois ia para o cemitério enterrá-los em uma cova comum, assistido pela população admirada com sua coragem.

Em um desses enterros, ouviu-se um gemido no fundo da cova. O coveiro não gostou de alguém tentando estragar o show. Olhou para dentro, viu um defunto gemendo.

— O que você quer?

— Me tira daqui.

— Porque?

— Porque estou vivo, ué.

— Qual o seu nome?

— Fulano de tal.

O coveiro conferiu na lista, encontrou o nome. Incontinente, deu com a pá na cabeça do defunto.

— Diacho de defunto besta, querendo discutir com o doutor.

Está parecendo a entrevista do Leôncio Martins Rodrigues ontem, ao “Estadão”. Leôncio previu, com base na análise histórica de Hitler e Mussolini, que todo governante que pretende ser bem sucedido no seu último mandato tem propósitos continuistas ou ditatoriais. Para não brigar com o doutor, o “Estadão” utilizou o velho recurso da “repercussão”, que segue a máxima “se publicou alguma notícia inverossímil, trate de repercutir para lhe dar sobrevida, utilizando o recurso do se…”. Mas, “e se fosse verdade….”.

O resultado é a manchete interna “Tese de mais 4 anos para Lula inquieta oposição”.

Confira o material que serviu de base para a manchete, para saber o que o diacho do defunto besta provocou na oposição:

Luiz Carlos Hauly (PSDB): “Em se tratando do Brasil (…) não duvide de nada”. Nem da Terceira Guerra Mundial.

Raul Jungmann (PPS): “O programa vai ter que aumentar os juros para conter a farra (fiscal). Por isso o caminho do terceiro mandato não dará certo”.

José Aníbal (PSDB) (meu amigo, que há anos tem por hábito calçar toda declaração com a informação de que conversou com Fernando Henrique Cardoso): “A tentação é real (…) Eu disse ao ex-presidente que se Lula tiver condições de fazer o sucessor, vai querer ser ele mesmo o sucessor”. E FHC concordou. Mas Aníbal diz que não tem risco por que o programa não será bem sucedido.

Rodrigo Maia (PFL): “Não consigo enxergar nesse plano algo que leve ao terceiro mandato, mas todo cuidado é pouco”. Observação minha: o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Os cientistas sociais

Francisco Weffort: Diz que o próprio autor da idéia (Leôncio) impõe tantas condicionantes que fica difícil examinar a questão.

Fábio Wanderley Reis: As chances para ocorrer todas as circunstâncias favoráveis mencionadas por Leôncio “são muito pequenas, mesmo que se leve em conta a existência, dentro do PT, de um grupo que sempre buscou um pder hegemônico”.

Celso de Roma: O desejo real do governo (…) é viabilizar um candidato para daqui a quatro anos, não necessariamente o presidente.

Ou seja, houve alguém no “Estadão” que não quis discutir com o doutor, e mandou as favas os fatos, que foram tão inconvenientes quanto o “diacho do defunto besta”.

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