O senhor da guerra

O manifesto de Fernando Henrique Cardoso, divulgado hoje pelos jornais, tem três enfoques: nenhuma auto-crítica em relação ao seu governo; “auto-crítica” em relação a erros de terceiros do PSDB; e “fogo no palheiro” contra o governo Lula. Os dois primeiros são típicos FHC; o último é o novo FHC.

Com ele, FHC não visa as próximas eleições, mas o próximo mandato. Não visa Lula, mas José Serra e Aécio Neves. Não visa fortalecer Geraldo Alckmin, mas puni-lo (faz a “auto-crítica” na questão da segurança de São Paulo) por tê-lo esquecido.

Porque o destempero? A partir de 1º de janeiro, o quadro político muda. Em cenário de paz, o espaço político é ocupado pelos governantes estaduais e federais. Na guerra, é transferido para a mídia e para o parlamento.

A pacificação interessa Lula, Serra e Aécio, ao PT e ao PSDB. Para Lula, para garantir condições de governabilidade. Para os governadores, para garantir uma parceria administrativa com o Governo Federal. Esse pacto de governabilidade será favorecido pelo fato de, ao menos por enquanto, o PT não ter um candidato forte à sucessão de Lula.

As parcerias serão relevantes para os governadores porque as próximas eleições presidenciais serão fundamentalmente em torno do que os candidatos fizeram, não do que falaram.

Além disso, a partir do próximo ano o PSDB terá que ser refundado, para perder a cara de FHC. No fundo, a falta de discurso na campanha de Alckmin reflete a falta de definições do PSDB e o incômodo de ter sua imagem associada a um ex-presidente rejeitado por parcelas expressivas do eleitorado.

Em ambiente de paz, Aécio tem a oferecer os valores da gestão e da concórdia; Serra, os valores da coerência, de políticas públicas pró-ativas e mais equilibradas entre eficiência, responsabilidade fiscal e o social. E FHC? A privatização já aconteceu, a estabilidade já ocorreu. De gestão, ele nunca gostou; a reforma administrativa, ele abandonou, assim como não racionalizou as despesas públicas, não definiu estratégias comerciais, não recorreu à diplomacia comercial, foi tímido na criação de um ambiente competitivo –os valores que deverão vigorar, daqui para a frente, na área pública.

Já como comandante da guerra, tem espaço assegurado em parte da mídia, junto aos carbonários do Senado e a uma parcela da elite paulista.

A grande incógnita dessa história é como se comportará Serra nesse jogo. Remeto ao comentário que o leitor Sérgio de Souza colocou em um dos posts, sobre o papel nacional dos novos governadores: “Quércia, como governador, foi pífio em sua inserção nacional. Serra foi submisso a FHC e continua sendo. Não conseguiu liderar nem mesmo seu partido na oposição à Lula. Mercadante tem sido garoto de recados de Lula. Não é liderança (com luz própria) nem mesmo no PT. A última vez que tivemos, nos estados, governadores desse porte, foi na safra de 82 (Tancredo, Montoro, Brizola e outros). Morreram. (…) A mais forte liderança poderá ser, infelizmente, Aécio. Mas isso é outra história”.

No fundo, ou Serra decifra esse enigma, de como se libertar de FHC, ou será devorado.

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