Tautismo da Globo vê na virada do Barça lição motivacional para brasileiros, por Wilson Ferreira

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por Wilson Ferreira

O final de domingo é um momento reconhecidamente depressivo para os telespectadores que repentinamente voltam a lembrar da segunda-feira. Nesse momento, a TV ataca com vídeos de pets engraçados e acidentes domésticos, ou, como no caso da Globo, também vídeos “motivacionais”. Como na introdução do “Fantástico” desse domingo na qual a virada histórica do time do Barcelona na “Champions League” serviu de mote para reunir várias outras histórias para provar que “o impossível acontece” e que “jamais podemos desistir” como fossem lições de moral para todos enfrentarem o baixo astral da vida e do próprio País. Ao sugerir que histórias sobre atletas e profissionais de alto nível poderiam ser fontes de inspiração moral e motivacional para os telespectadores comuns, revela a natureza da linguagem televisiva: o discurso metonímico ou “lateral” que vem se tornando crônico com o crescimento da doença do “tautismo” (autismo + tautologia) na grande mídia. A consequência é a “motivação” através do esquecimento e despolitização do telespectador, além da introjeção da culpa pelas mazelas do cotidiano.

Era um final de tarde de um sábado qualquer perdido nos anos 1990. Minha cunhada, à época adolescente, voltava de uma tarde no shopping com as amigas do colégio. “O que fizeram a tarde inteira no shopping?”, perguntei para puxar assunto. 

“Fomos ao cinema, depois passamos por uma loja para comprar umas roupas e depois demos um tempinho na praça de alimentação para comer um lanche e acabei encontrando com meu namorado”, ela disse.

“E então, o que achou do filme?”, comecei o interrogatório. “Legal!”, respondeu… “E a loja de roupas, como era?”… “Legal!”, respondeu de novo… “E como foi na praça de alimentação?”… “Legal!”, respondeu da mesma maneira. 

Depois, fiquei pensando: três experiências qualitativamente diferentes (assistir ao filme, comprar roupas e encontrar o namorado) foram definidas com a mesma expressão “legal!”. Pobreza de vocabulário? Apenas jogou conversa fora? 

Sintaticamente as respostas seguiram um mecanismo metonímico – um pensamento que se desloca horizontalmente, sem aprofundamento ou distinções semânticas. O que resulta num empobrecimento da percepção que transforma a cognição numa espécie de tábula rasa. A realidade parece ser periférica e superficial. 

Acredito ser o reflexo de um tipo de pensamento midiático que se desloca lateral ou horizontalmente cuja lógica reduz realidades e experiências qualitativamente distintas a um mínimo denominador comum. Seria o reflexo da linguagem metonímica através da qual diariamente as mídias constróem sua visão de mundo.

Metonímia: da TV ao tautismo

Estudos clássicos de mídia como os do espanhol Jesús Gonzalez Requena (El Discurso Televisivo: espectáculo de la posmodernidad, 1988) já apontavam para essa natureza metonímica da linguagem televisiva – o discurso da TV ao mesmo tempo que fragmenta e descontextualiza, volta a reunir fatos e eventos em um fluxo metonímico infinito no qual gêneros televisivos, informação e comercial, ficção e realidade, remetem-se um ao outro. Em essência, um discurso auto-referencial.

 Como viemos discutido em seguidas postagens, a grande mídia (jornais, TV etc.), particularmente a TV Globo, cada vez demonstra sintomas de um tautismo crônico – “tautismo”, autismo + tautologia, conceito da Teoria dos Sistemas no qual a hipertrofia de um sistema cria um “fechamento operacional” – o sistema torna-se auto-referencial fechando-se ao mundo exterior. Ou melhor, osinputs do mundo exterior passam a ser traduzidos por meio de uma descrição que o sistema faz de si mesmo.

Nesse contexto, a linguagem metonímica (o pensamento lateral) tende a se expandir pela crônica auto-referencialidade, transformando-se em um liquidificador que reduz qualquer input (notícia, dado histórico, evento etc.) a um denominador comum que reforce determinada pauta interna. 

O vídeo motivacional do “Fantástico”

Um flagrante exemplo dessa lateralidade que domina a visão de mundo tautista foi apresentado na introdução do Fantástico desse último domingo: antes da vinheta de apresentação do Fantástico, com a narração do apresentador Tadeu Schmidt, o programa apresentou um vídeo, por assim dizer, motivacional.

“Nossa história é feita de reviravoltas surpreendentes, e não faltam histórias para nos lembrar que sempre vale à pena lutar!”, conclui o apresentador depois de apresentar um desfile de “reviravoltas impressionantes”. Como não poderia deixar de ser, o destaque foi a virada do time do Barcelona na Champions League contra o PSG (6 a 1) com o gol da classificação feito no último minuto. Depois, um desfile de episódios de “reviravoltas” – “quando parece que tá tudo perdido, de repente tudo se encaixa e o impossível acontece…”.

O homem que cai num buraco no meio do deserto, fica com o braço preso e depois de cinco dias, sem conseguir chamar por socorro, corta o próprio braço para poder escapar; a tripulação da Apollo 13 fadada a morrer no espaço mas que superou os problemas no último instante e voltou para casa; o mergulhador que bateu a cabeça, ficou paralisado mas se salvou; o time do Vasco que virou um placar adverso de 3 a 0; o Grêmio que virou um jogo com quatro jogadores  a menos e fugiu do rebaixamento; e  a virada no futebol americano do “time do Tom marido da Gisele Bündchen” no último instante. Todos exemplos de que “jamais podemos desistir”.

Domingo é o dia do baixo astral

Sabemos que a programação de domingo da TV, e o próprio dia da semana, é depressiva. Basta ouvirmos a abertura musical do programa do Faustão ou a do Fantástico, para cairmos na real de que o domingo está morrendo e que amanhã é segunda-feira – voltam as pressões do trabalho (se você ainda tiver um…), as contas para pagar, os velhos problemas do dia-a-dia.

Principalmente no contexto atual no qual programas como o Fantástico, seguindo a atual pauta do jornalismo da emissora, está recheado com denúncias de corrupção, Lava Jato e o martelar insistente de que os políticos são ladrões e de que o País é uma merda… Baixo astral generalizado. Demais para um final de domingo!

Enquanto a Record usa vídeos de pets engraçados para elevar um pouco o ânimo, a Globo apresenta vídeos motivacionais, como nesse domingo. Motivação tautista baseada no pensamento lateral e metonímico, que lembra, por exemplo, a capa da revista Exame mostrando um feliz Mick Jagger e a questão: “O que você e ele têm em comum”. Para justificar a reforma da Previdência e demonstrar que, sim!, podemos trabalhar até o final da vida.

A longevidade de Jagger, milionário astro do rock, é metonimicamente deslocada para o brasileiro comum – você poderá ser como ele, desde que se “prepare bem”… apesar das perversas condições sociais de um país que conspira contra os próprios brasileiros.

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7 comentários

  1. Para quem entende de futebol

    Para quem entende de futebol sabe que aquele jogo foi uma roubalheira só. Não foi penalti no Soares e muito menos falta no Neymar no lance do gol de falta. Para piorar a situação, um penalty claro no Di Maria que o apitador não deu, além do excesso de pontapés de Mascherano que merecia expulsão. Enfim, tudo que a Globo apóia, tem roubalheira, como o Golpe de 2016.

     

  2. O Barcelona conseguiu a

    O Barcelona conseguiu a virada graças a atuação decisiva do Juiz, ou árbitro. Podemos afirmar que o resultado do jogo foi corrompido pela atuação o juiz.

    Por isto a globo deve ter utilizado este jogo.

    O Brasil pode ser comparado sim. O resultado do jogo democrático de 2014 foi corrompido também com a decisiva ajuda de um juiz, ou mais de um: Moro e Gilmar Mendes.

     

  3. Era melhor utilizar o exemplo

    Era melhor utilizar o exemplo do Leicester.

    Um pequeno que luta contra gigantes e que venceu contra TODAS as previsões. Detalhe: sem ajuda do juiz.

  4. As corporações midiáticas

    As corporações midiáticas caminham velozmente, para se transformarem, fundamentalmente, em dispositivos de controle social, a serviço dos detentores do poder. É o nascimento da MATRIX., que fará a humanidade retroceder ao feudalismo. 

  5. Que jornalista infeliz,
    Que jornalista infeliz, manifestando novamente preconceito contra autistas, falando cono se fossem alienados ou alheios a tudo à sua volta. Você age igualzinho a Carmen Lúcia.

  6. O autor do texto demonstra

    O autor do texto demonstra psicofobia dirigida aos autistas e ignorância ao usar esse neologismo infeliz, “tautismo”. Preconceituoso.

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