15 de setembro de 2026

André Mendonça e a crise no STF, por Carmem Leitão e Rômulo Paes de Sousa

Mendonça começou a aparecer como o Ministro que encarna o ‘bem’; Moraes, como a face do ‘mal’; e a PF vai alternando bem e mal
André Mendonça em foto de Fellipe Sampaio - STF

No 7 de setembro de 2026, Mendonça foi destaque em culto religioso e ato político na Avenida Paulista com apoio bolsonarista.
Mendonça afastou diretores da PF em meio a crise no STF, que mistura questões institucionais com mobilização religiosa e eleitoral.
Crise expõe risco à laicidade, com Mendonça visto como “ungido”, e polarização política envolvendo fé e justiça no Brasil.

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André Mendonça e a crise no STF: entre a Constituição Federal e o populismo religioso

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por Carmem Leitão e Rômulo Paes de Sousa

Na manhã de 7 de setembro de 2026, antes do ato bolsonarista programado na Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas participaram de um culto na Igreja Mundial do Poder de Deus. Tarcísio falou do púlpito; Flávio fez uma oração pela “nação”. O apóstolo Valdemiro Santiago exibiu aos fiéis um vídeo de André Mendonça, gravado em março, apresentando-o como mensagem para aquela ocasião. Na avenida, apareceram camisetas com as frases “Força, Mendonça!” e “Oramos por você!”.

O ministro não havia produzido aquele vídeo para a campanha. É justamente por isso que sua recontextualização diz tanto para uma parcela da sociedade: em poucos dias, uma controvérsia sobre condutas, relatórios e limites institucionais no Supremo Tribunal Federal (STF) havia sido convertida em uma cena religiosa e eleitoral[1]. Menos de 24 horas após essa cena ritual, Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal e do diretor de Inteligência da corporação. A crise deixava de ser apenas um embate entre gabinetes do Supremo, o que já era extremamente grave, e alcançava a cadeia de comando de uma instituição de Estado.

Há um aspecto particularmente sensível nos próprios autos. Um dos relatórios, tal como reproduzido na decisão, mencionou a ‘matriz religiosa comum’ de Mendonça e Messias e o apoio de igrejas às suas indicações como possível chave para interpretar a ausência de recurso da AGU. Mendonça chamou essa associação de ‘abjeta e leviana’[2]. Se a fé compartilhada foi usada como atalho inferencial sem evidência de conduta, há discriminação e abuso analítico a apurar. O reconhecimento desse problema, contudo, não autoriza a operação inversa: transformar toda investigação do ministro em perseguição aos evangélicos ou sua reação institucional em ato de um ‘ungido’ acima de qualquer questionamento. É precisamente porque a religião não pode valer como indício de culpa que tampouco pode valer como presunção de inocência ou como fonte extraconstitucional de poder.

Na arena política, porém, a pergunta começou a mudar. Em vez de “o que cada autoridade fez e como pode demonstrá-lo?”, passou-se a perguntar “de que lado está o povo de Deus?”. Mendonça foi apresentado como pastor perseguido, “mártir” e contraponto moral a Moraes. Michelle Bolsonaro chamou-o de “escolhido e ungido do Senhor”[3]. Pedidos de esclarecimento passaram a ser apresentados como agressões contra uma comunidade religiosa. Essa mudança de linguagem não é um mero detalhe retórico. É a operação que busca transformar a identidade confessional de um agente público em um escudo contra a responsabilização institucional.

Nas diferentes dimensões e perspectivas que essa mobilização faz circular, o conflito institucional ganha papéis teológicos: Mendonça começou a aparecer como o Ministro que encarna o ‘bem’; Moraes, como a face do ‘mal’; e a Polícia Federal, quando contraria aquele que se apresenta como o escolhido de Deus, pode ser recodificada como instrumento de perseguição. Essa moralização radicaliza uma operação típica do populismo: o adversário deixa de ser um ator legítimo, cujos atos devem ser criticados e controlados, ele se torna um inimigo a ser derrotado.

O problema democrático não está na oração, na fé de um ministro ou na presença de cidadãos e cidadãs religiosos na vida pública. O Estado laico é aquele que protege todas as crenças e o direito de não crer, sem conferir a nenhuma delas autoridade sobre a Constituição. O risco surge quando a condição religiosa passa a funcionar como uma jurisdição paralela.

Há uma promessa institucional especialmente relevante. Na sabatina de 2021, Mendonça afirmou: “Na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição”. Comprometeu-se a defender o Estado laico e afirmou que não há espaço para manifestações religiosas nas sessões da Corte. A fórmula não lhe exigia abandonar a fé, mas sim separar os fundamentos da devoção pessoal dos da decisão pública. A crise atual testa essa fronteira. Em vídeo divulgado em 4 de setembro, o ministro agradeceu a “irmãos e irmãs” pelas orações, sem enfrentar ali as questões factuais levantadas contra sua atuação. Ao mesmo tempo, a própria Igreja Presbiteriana de Pinheiros afirmou que suas pregações não se confundem com seu trabalho no STF e retirou do ar vídeos que estavam sendo editados fora de contexto[4].

A infraestrutura da mobilização tornou-se visível. Um levantamento da Agência Pública identificou mais de vinte anúncios patrocinados no Instagram® e no Facebook® com pedidos de oração por Mendonça. A maioria havia sido paga por campanhas de candidatos(as) bolsonaristas. Duas publicações tinham alcance estimado superior a 1 milhão de usuários(as) cada uma, e um abaixo-assinado reuniu mais de 14 mil adesões nas primeiras horas[5]. Púlpito, aplicativo de mensagens, cantor gospel, liderança política e publicidade digital formam uma cadeia de confiança potente, capaz de transportar uma controvérsia jurídica para dentro da campanha eleitoral.

A pesquisa comparada reforça essa cautela que demarcamos. Amy Erica Smith[6] mostrou que as consequências democráticas da política religiosa no Brasil são mistas: a maioria das congregações transmite normas cívicas, enquanto a atuação político-partidária centrada no clero pode ampliar a polarização afetiva e reduzir a tolerância a quem pensa de forma diferente. Líderes religiosos influenciam candidaturas e prioridades, mas não controlam todas as preferências de seus(suas) fiéis. No atual cenário, o apelo religioso buscou deslocar o foco do caso Master e das condutas a serem reconhecidas e detalhadas para a narrativa do Ministro apresentado como vítima.

O risco adicional é de natureza institucional. Quando um ministro do Supremo passa a ser tratado como delegado de uma comunidade religiosa, qualquer decisão sobre impedimento, investigação ou responsabilidade pode ser apresentada como uma forma de violência contra milhões de fiéis. O tribunal converte-se em um campo de disputa entre protetores de identidades. Essa personalização corrói a imparcialidade esperada e torna a prestação de contas politicamente explosiva.

O campo conservador chega a essa disputa com redes, lideranças e uma narrativa bem testada. O campo progressista, porém, não está ausente do universo evangélico. Em agosto, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, formada por pastores(as) e teólogos(as), declarou apoio à reeleição de Lula e associou sua escolha à defesa da paz, dos direitos e das instituições. A Frente publicou uma carta dirigida a Mendonça, onde afirma que a fé não pode servir como “escudo, palanque ou instrumento eleitoral[7]. Pesquisas sobre as eleições de 2020 e 2022 registram o crescimento de coletivos como a Bancada Evangélica Popular e Cristãos Contra o Fascismo, ligados à laicidade, à justiça social e ao combate à desigualdade. São movimentos menores do que as máquinas conservadoras, mas desmentem a pretensão de falar em nome de toda a fé evangélica [8].

Apesar dos esforços para apresentar Mendonça como escolhido e protegido por Deus, os desdobramentos do caso Master, particularmente os relacionados ao financiamento do filme Dark Horse, tornam mais difícil sustentar essa narrativa. As controvérsias sobre a manutenção inicial de sigilos e a notícia de que Flávio Bolsonaro é investigado pela Polícia Federal ampliam os questionamentos sobre a condução das apurações e tensionam a imagem de um combate incondicional à corrupção. Nesse contexto, a invocação da fé pode mobilizar apoios, mas não responde às cobranças de transparência e imparcialidade. A legitimidade de um ministro do Supremo precisa se sustentar na consistência de seus atos e na igualdade de tratamento perante a lei; nenhuma alegação de escolha divina o coloca acima do escrutínio público.

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Carmem Leitão é professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará; e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde de Saúde Coletiva (Abrasco);

Rômulo Paes de Sousa é presidente da Associação Brasileira de Saúde de Saúde Coletiva (Abrasco)


[1] UOL, “Pastor resgata vídeo de Mendonça e o exibe em culto com Flávio e Tarcísio”, 7 set. 2026; UOL, “Tarcísio ‘prega’ e Flávio ora em culto na igreja do apóstolo Valdemiro”, 7 set. 2026; Brasil 247, “Ricardo Nunes leva camisetas em apoio a Mendonça a ato pró-Flávio Bolsonaro”, 7 set. 2026.

[2] STF, Petição 16.662/DF, decisão de 8 set. 2026, especialmente a reprodução do item X.4 do relatório e a resposta do relator; UOL, ‘Mendonça cita religião em decisão que afastou diretor da PF’, 8 set. 2026.

[3] Congresso em Foco, ‘Michelle recorda indicação de Mendonça e o chama de ungido do Senhor’, 6 set. 2026; Folha de S.Paulo, Juliano Spyer, ‘Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição’, 5 set. 2026; Agência Pública, reportagem de 4 set. 2026 citada acima. A caracterização de ‘bem’ e ‘mal’ descreve o enquadramento produzido por atores da mobilização; não é atribuída ao próprio Mendonça.

[4] UOL, “Mendonça defende Estado laico, ataca delações e evita críticas a Bolsonaro”, 1º dez. 2021; Folha de S.Paulo, “Igreja de André Mendonça cita cortes fora de contexto e exclui vídeos”, 4 set. 2026; Folha de S.Paulo, “Michelle Bolsonaro chama Mendonça de ‘ungido do Senhor’ em meio a crise no STF”, 6 set. 2026.

[5] Agência Pública, ‘André Mendonça mobiliza orações e se torna ícone do 7 de Setembro bolsonarista’, 4 set. 2026, https://apublica.org/2026/09/andre-mendonca-mobiliza-oracoes-e-se-torna-icone-do-7-de-setembro-bolsonarista/. O alcance dos anúncios é estimativa da Biblioteca de Anúncios da Meta, não contagem de pessoas persuadidas.

[6] Amy Erica Smith, Religion and Brazilian Democracy: Mobilizing the People of God, Cambridge: Cambridge University Press, 2019, https://www.cambridge.org/core/books/religion-and-brazilian-democracy/D9B7921525E8C676CFE11AEDC5C4102D.

[7] https://iclnoticias.com.br/frente-de-evangelicos-cobra-transparencia-de-mendonca-no-caso-master

[8] CNN Brasil, “Lula recebe apoio de grupo evangélico e tenta reduzir vantagem de Flávio”, 26 ago. 2026; Christina Vital da Cunha e João Moura, “Evangélicos à Esquerda diante da Alvorada Bolsonarista”, Mediações, v. 29, n. 3, 2024, DOI 10.5433/2176-6665.2024v29n3e51038.

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