O ano de oportunidades na África, por Caroline Kende-Robb

Sugestão de Caiubi Miranda

no Project Syndicate

O ano de oportunidades na África

por Caroline Kende-Robb

GENEBRA – Ainda estamos perto do início de 2018, e já pressentimos que a tensão e a desordem serão as características definidoras do ano. Das políticas contra a imigração dos Estados Unidos aos focos de crise geopolíticos no Médio Oriente e na Ásia Oriental, parecem estar na ordem do dia as perturbações, os tumultos e a incerteza.

Foi adequado que Lagarde tenha feito essa observação em Adis Abeba, porque é na África que os raios da prosperidade brilham com mais intensidade. Com efeito, prevejo que 2018 seja um ano determinante para muitas – embora não todas – economias Africanas, devido aos ganhos em oito áreas essenciais.

Para começar, África está pronta para uma recuperação modesta, embora fragmentada, do crescimento. Depois de três anos de fraco desempenho econômico, espera-se que o crescimento global acelere este ano para 3,5%, depois de 2,9% em 2017. Os ganhos previstos para este ano serão registrados num ambiente de melhoria das condições globais, de um aumento da produção petrolífera, e da melhoria das situações de seca no leste e no sul.

Na verdade, este crescimento não será uniforme. Embora perto de um terço das economias africanas vá crescer perto de 5%, são previsíveis abrandamentos em pelo menos uma dúzia. Os importantes aumentos da dívida pública, que atingiu 50% do PIB em quase metade dos países subsaarianos, são especialmente preocupantes. Mas, em geral, a África está posicionada para um ano positivo.

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Em segundo lugar, o panorama político de África está  liberalizando-se. Alguns dos presidentes africanos há mais tempo no cargo – incluindo Robert Mugabe do Zimbabué, José Eduardo dos Santos de Angola, e Yahya Jammeh da Gâmbia – abandonaram o cargo em 2017. Na África do Sul, a demissão de Jacob Zuma permitiu que Cyril Ramaphosa se tornasse presidente. Em Janeiro, quando a antiga estrela do futebol George Weah assumiu o cargo de presidente, os liberianos testemunharam a primeira transferência pacífica de poder do seu país desde 1944.

Contudo, todas estas evoluções sofrerão um teste, já que os eleitores de 18 países vão às urnas neste ano. A agravar o histórico de divergências na África estará a fragilidade política continuada numa série de estados, onde se incluem a República Centro-Africana, o Burundi, a Nigéria, o Sudão do Sul e a Somália.

Uma terceira fonte de otimismo vem do setor agrícola de África, onde o potencial dos pequenos agricultores, na sua maioria mulheres, está finalmente sendo desenvolvido. Prevê-se que a produção agrícola de África atinja o bilhão de dólares até 2030. Esta maturação não poderia ter chegado num momento mais oportuno, já que perto de dois terços dos africanos dependem da agricultura para sobreviverem. Grandes porções de terreno por cultivar, uma força de trabalho jovem, e a emergência de “agroempreendedores”  com um pendor tecnológico estão aumentando  a produção e  transformando economias inteiras.

Em quarto lugar, os africanos estão se beneficiando com o avanço da tecnologia. Incluindo mais de 995 milhões de assinantes de serviços móveis, a crescente conectividade de África está sendo usada para impulsionar a inovação. Setores essenciais como a agricultura, a saúde, a educação, os bancos e os seguros já estão sendo transformados, melhorando grandemente o panorama empresarial da região.

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Em quinto lugar, os líderes africanos estão tomando medidas sérias para a redução dos fluxos financeiros ilícitos decorrentes de práticas de corrupção, que privam os países africanos de perto de 50 mil milhões de dólares todos os anos e que provem, na sua maioria, do setor petrolífero e do gás. Embora os legisladores dos EUA tentem revogar aspectoa da lei de reforma financeira Dodd-Frank de 2010 (que contém uma provisão que obriga as empresas petrolíferas, de gás e mineradoras a divulgar os pagamentos feitos a governos) a tendência global é no sentido de uma maior transparência e responsabilização.

Por exemplo, os Panama Papers e os Paradise Papers descortinaram o lamacento sistema de paraísos fiscais e de empresas fictícias que albergam milhares de milhões de dólares provenientes de alguns dos países mais pobres do mundo, incluindo muitos em África. E com o G20 e a OCDE  colaboraando para impedir a evasão fiscal, a África poderá vir a se beneficiar dos esforços globais para acabar com a contabilidade criativa.

Em sexto lugar, o setor energético de África está preparado para prosperar. Embora 621 milhões de africanos ainda não disponham de acesso à eletricidade, inovações como as energias renováveis, as mini-redes  e os contadores inteligentes estão levando energia a mais pessoas que nunca. Na África do Sul, a energia renovável disparou: o preço da energia eólica compete hoje com o do carvão. A Etiópia, o Quênia, Marrocos e o Ruanda também estão  captaando investimentos importantes nas energias renováveis.

Uma sétima área que demonstra sinais de evolução é a educação. Não é novidade que a oferta educativa de África continua a ser deplorável; mais de 30 milhões de crianças na África subsaariana não frequentam a escola, e os que a frequentam não aprendem tanto quanto poderiam. Mas estas deficiências foram reconhecidas por muitos líderes e públicos africanos; para alguns países, como o Gana, a educação tornou-se até uma questão decisiva para os eleitores.

Como sublinha a Comissão para a Educação, alguns países estão  reforçando o investimento na educação. Isto representa uma oportunidade para adequar os resultados do ensino às futuras necessidades de emprego. Mas com mais de mil milhões de jovens vivendo na África em 2050, é urgentemente necessário um maior investimento na educação.

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Finalmente, está a ser prestada maior atenção ao desenvolvimento de uma identidade pan-africana, e as modas, os filmes e a comida africana expandem-se para novos mercados. À medida que se intensificam estas ligações culturais, o poder de influência da África continuará a crescer e a estender-se para muito além do continente.

Em muitos cantos do mundo, 2018 está a preparar-se para ser mais um ano decepcionante, com a desigualdade e a pobreza a continuarem a fomentar a raiva e o populismo. África não será inteiramente imune a esses desenvolvimentos. Não obstante, os habitantes do continente têm pelo menos oito boas razões – muito mais do que as pessoas noutros lugares – para estarem otimistas.

 

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1 comentário

  1. Como esse mundo é

    Como esse mundo é pequeno…

    Eu quero cegar do sovaco se ontem mesmo eu não estava na internet, vendo uma sequência de documentários sobre o permanente estado de apocalypse now na África, imagem dramática atrás de imagem dramática, um sofrimento indizível, miséria, exploração selvagem, a tragédia interminável do Congo…

    Hoje eu abro o GGN e descubro que a África está prestes a entrar no paraíso.

    A inglesinha aí, entre um suspiro e outro por estar perto da “grandeza” de Kofi Annan, produziu essa pérola tipicamente européia de otimismo e fé inquebrantável no espírito de justiça e liberdade dos europeus.

    Como dizem aqui, eles – os europeus – estão fazendo a parte deles.

    Façamos a nossa.

    Se sobrar alguma parte para nós.

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