As Dicotomias de Moro, ou as Argumentações de Schrödinger, por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Eu vou afirmar que Sérgio Moro fez, sim, media training para comparecer ao Senado. Não tenho provas (algo me diz que elas vão surgir rapidinho), mas tenho convicções baseadas em evidências

Pedro França/Agência Senado - 19.06.2019

As Dicotomias de Moro, ou as Argumentações de Schrödinger

por Letícia Sallorenzo – a Madrasta do Texto Ruim

Vou cobrar insalubridade não sei de quem, mas vou. Assisti ao showzinho depoimento do atual ministro da justiça e ex-juiz Sérgio Moro, que foi se explicar à comissão de Constituição e Justiça do Senado sobre a Vaza-Jato.

Eu vou afirmar que Sérgio Moro fez, sim, media training para comparecer ao Senado. Não tenho provas (algo me diz que elas vão surgir rapidinho), mas tenho convicções baseadas em evidências que começo a expor a seguir. Vamos lá.

Moro repetiu ad nauseam, com o objetivo de reforçar/fixar bem fixadinho os seguintes frames:

– Agi dentro da legalidade

– Agi com imparcialidade

– Cumpri com meu dever

– Foi hacker

– Divulgação dessas mensagens é crime

– Objetivo é minar a Lava Jato

– Objetivo é minar as instituições

– O trabalho é [resultado de] jornalismo sensacionalista

Duas palavras que Moro não disse em nenhum momento (eu, pelo menos, não ouvi): Intercept e Glenn Greenwald. O conselho profissional que ele deve ter recebido: “Não reforce o nome do seu algoz. Ninguém precisa saber o nome do seu algoz.” E Moro obedeceu ao comando do media training.

O que me causou espanto foi entender a lógica argumentativa do Batoré de toga marreco de Maringá atual ministro da Justiça. Vou batizá-la de Dicotomias de Moro ou Argumentações de Schrödinger, por dois motivos: primeiro porque eu também entendo de frames, e segundo pra deixar bem claro qual o procedimento discursivo do conge de Rosanja ministro de Bolsonaro.

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Para explicá-la, permitam-me uma brevíssima parábola do filósofo que, preso e condenado à morte, ouviu de seu carrasco: “Diga uma verdade irrefutável e eu te solto.” O filósofo, então, declarou: “Eu minto.” Foi solto.

Tal qual o filósofo maroto da parábola, Moro apresentou pelo menos três argumentações contraditórias:

– O celular foi hackeado – o celular não foi hackeado, foi clonado

– Eu não reconheço as mensagens – as mensagens não têm nada de mais

– Eu não uso o Telegram – eu já usei o Telegram.

Em cima dessa construção discursiva, ele trabalhava as falas:

  • Um senador acusava Moro de crime citando as mensagens –> Moro dizia não se lembrar dos diálogos, portanto não tinha como afirmar se os diálogos são reais ou não. Podem ser, mas não são, mas podem ser, mas não são.
  • Um senador elogiava ou defendia Moro, citando as mensagens –> Moro não entrava no mérito da veracidade das mensagens, concordava com o interlocutor e agradecia a fala.

As inferências resultantes dessas afirmações são igualmente dicotômicas, pra não dizer contraditórias: afirmar não reconhecer as mensagens dá a entender que as mensagens são inegociavelmente falsas. Por outro lado, afirmar que as mensagens não têm nada de mais dá a entender que existe a possibilidade de as mensagens serem verdadeiras.

Afirmar “não uso o Telegram” dá a entender que as mensagens nunca existiram; afirmar “já usei o Telegram” dá a entender que as mensagens existiram.

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E aí? Em qual Moro acreditamos? Spoiler: em qualquer um. Lá na frente, um deles será taxado de mentiroso, e será imediatamente salvo pelo outro Moro, aquele que dizia o contrário.

Estratégia de mestre, devo reconhecer. Tão genial mas tão genial que até mesmo um sujeito de poucas habilidades cognitivas é capaz de executar. (Mas quem elaborou essa jogada não foi um marreco qualquer, não! Foi profissional de alta estirpe!)

Outrossim (sempre usei essa palavrinha, nunca fui réquer, me deixem!), o ministro da justiça citou ad nauseam um texto que, lá na frente, pode (e vai) ser usado contra ele, do jurista americano Matthew Stephenson, The Incredibly Shrinking Scandal (https://globalanticorruptionblog.com/2019/06/17/the-incredible-shrinking-scandal-further-reflections-on-the-lava-jato-leaks/ ). Corri atrás desse texto (lincado pelo Antagonista, que Deus me perdoe) e achei bem interessante avisar aqui que o autor ressalva que:

– O texto ainda é passível de atualização, como foi atualizado desde a última semana, quando os textos do Intercept começaram a sair

– Não é especialista em leis brasileiras

– É possível que o juiz e o MP tenham se comportado com viés ideológico contra Lula. Ele ainda não detectou isso, mas reconhece a possibilidade.

E o pobrezinho ainda pergunta, inocentemente, o que seria uma notícia apócrifa, citada nas mensagens: “seria uma fonte anônima, não identificada, o que significa que a identidade da fonte é desconhecida inclusive da acusação, ou é uma forma de dizer que a acusação não vai formalizar nos autos o nome do informante, o que caracterizaria uma fonte confidencial, e não anônima?”

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Quando ele descobrir que pode ser fake news plantada de propósito pelo MP via Imprensa colaborativa eu conto pra vocês qual foi a reação dele. Mas adianto que já tô com pena dele, coitadinho…

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13 comentários

  1. Abraji repudia ataques a Glenn Greenwald e equipe do Intercept
    https://abraji.org.br/abraji-repudia-ataques-a-glenn-greenwald-e-equipe-do-intercept
    A publicação de diálogos de autoridades relacionadas à operação Lava Jato, feita pelo site The Intercept, gerou ataques descabidos aos jornalistas responsáveis pela série de reportagens. 
    O ministro da Justiça, Sergio Moro, chamou o Intercept, no Twitter, de “site aliado a hackers criminosos” (14.jun.2019 https://twitter.com/SF_Moro/status/1139481629653708800). Trata-se de uma manifestação preocupante de um ministro que já deu diversas declarações públicas de respeito ao papel da imprensa e à liberdade de expressão. Moro, que é um dos convidados do 14º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que a Abraji realizará de 27 a 29 de junho, erra ao insinuar que um veículo é cúmplice de crime ao divulgar informações de interesse público. O Intercept alega que recebeu de uma fonte anônima mensagens privadas de Moro e de procuradores da Lava Jato. Jornalistas e veículos não são responsáveis pela forma como a fonte obtém as informações. 
    Na tarde da última quinta-feira (13.jun.2019), o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) ameaçou de “deportação” https://twitter.com/carlosjordy/status/1139249473312514054 o jornalista Glenn Greenwald, do Intercept, acusando-o de cometer “crimes contra a segurança nacional”. No dia anterior, Jordy apresentou uma proposta para convidar Greenwald a prestar esclarecimentos sobre a divulgação de conversas entre Sergio Moro e o procurador federal Deltan Dallagnol. Junto com Filipe Barros (PSL-PR), Jordy tenta ainda instaurar uma CPI para “investigar as atividades dos responsáveis pela criminosa interceptação e divulgação de conversas”.
    A onda de ataques a Greenwald começou logo após a publicação das primeiras partes da série “As mensagens secretas da Lava Jato”.
    Na segunda-feira (10.jun.2019), uma ação coordenada no Twitter colocou #DeportaGlennGreenwald como um dos assuntos mais comentados na plataforma. Os ataques e peças de desinformação também tiveram como alvo o deputado David Miranda (PSOL-RJ), casado com Greenwald. 
    Heitor Freire (CE) e Charlles Evangelista (MG), deputados federais do PSL, distribuíram em suas redes sociais montagens com fotos de Greenwald e afirmações falsas de que David Miranda é acusado de terrorismo e condenado por crime contra a segurança do Reino Unido. Paulo Eduardo Martins (PSC-PR) também publicou conteúdo semelhante.
    A Abraji manifesta solidariedade a Glenn Greenwald e repudia os ataques direcionados a ele, à sua família e a seus colegas do Intercept, especialmente os que partem de agentes públicos. Tentativas de intimidar e silenciar um veículo são ações típicas de contextos autoritários e não podem ser tolerados na democracia que rege o país.
    Diretoria da Abraji, 19 de junho de 2019.

  2. Cara Letícia, se você se lembra, por ocasião das denúncias do Tacla Dúran, o marreco repetiu a exaustão o Zuccoloto seria seu amigo “pessoal”. Como se existisse amigo impessoal. Ao invés de dizer amigo íntimo. Portanto os crimes contra a norma culta são repetidos. É um jeca, com um mal português e um inglês pior. E total falta da noção do papel e do caráter de um juiz. Ou não…

    • É um jeca, com um maU (dsclp) português, inglês pior, e o agravante é: ele poderia falar fora da norma culta sem problemas (em ambientes informais, eu escrevo “minhazamygha”, por exemplo. Jamais falaria isso numa audiência do Senado, pois sei como me portar), mas tem que saber onde, quando e como usar a norma culta ao falar.
      E total falta de noção do papel e do caráter de um juiz.

  3. O cúmulo da hipocrisia (entre outros adjetivos depreciativos), pois, ofereceu-se a ir ao senado para se explicar sobre os assuntos vazados (obviamente que não se ofereceu para se explicar sobre os vazamentos: o que ninguém quer saber) e, lá chegando, ficou negando e negaciando o tempo todo. Ou seja, ofereceu-se para quê, mesmo? Para mentir descaradamente como sempre foi do seu (des)caráter? Antes tivesse se recusado a ir. Mas, como sempre e sempre, discursou negativamente para seus abandidados na dita grande mérdia, que repercutirão, não suas negações envergonhadas e hipócritas, mas, com certeza, seus arrazoados (viva a língua portuguesa, em Portugal) mentirosos e calhordas. Bando é muito pouco, milícia!

    • Tadinho do gringo que acha que Moro et al são sérios. Minha pena foi específica e muito bem direcionada pro gringo!😂

  4. Visto que o poderoso ex-juiz teve um ataque de conveniente aminésia, torna-se imperioso abrir uma CPI para quebrar o seu sigilo telefônico e examinar tudo, Tim Tim por Tim Tim.
    Saber se todos os conluios do então juiz com a acusação são verdadeiros.
    O Telegram pode ajudar a esclarecer.
    Se positivo, não restará outra alternativa senão a cadeia para os conspiradores. Ele e o procurador fundamentalista atrás das grades.

  5. Penso que o depoimento na CCJ de Sérgio Moro acelerou o seu próprio processo de desconstrução e de destruição. Não se defendeu, não se explicou, não mostrou arrependimentos e ainda demonstrou desprezar a humildade. Optou por um discurso fabricado, que parece não ter sido seu e que só o fez agravar mais ainda a sua frágil linha de defesa. Seria até providencial ele avaliar, se quem o recomendou seguir por essa linha de defesa para tentar impressionar os senadores e senadoras, na CCJ, realmente lhe quer bem. Senhor ministro Sérgio Moro, e todos os seus pares envolvidos direta ou indiretamente neste escândalo, eu quero registrar que invocar e tentar usar os feitos positivos da lava jato como uma justicativa super-heróica ou sobrenatural, com o intuito de amenizar os meios condenáveis que usaram e abusaram nas operações deflagradas, nas delacões, nas cooperadas notas escritas e nas demais artimanhas secretas no Telegram, ao contrário do que pensam, imaginam e fantasiam não tem nada de épico, inédito ou espetacular. Que fique bem claro que o acerto e o sucesso no trabalho é um simples dever e também é uma obrigação funcional, que deve ser executada com toda responsabilidade e com todo o respeito e obediência a constituição e ao juramento feito na posse do cargo.

  6. Adorei o texto, Letícia! Moro, e quem o assessora, eh ensaboado. Eles sabem que precisam caminhar na dubiedade em torno dos vazamentos. Outra coisa interessante é: ” os diálogos atribuídos…” A esquerda precisa urgentemente se valer da tática do inimigo, sobretudo a discursiva: vazamento deveria virar captação de diálogos ilegais entre Dalagnol e Moro, hacker (réker eu ri muiiito) deveria ser transformado noa próprios diálogos, que eh o q interessa e não a forma como foram conseguidos. E por aí vai. Por fim: apesar de dizer congji, nunca desdenhe do inimigo. Moro não foi ao senado à toa ou sem uma estratégia que, discursivamente, vc desmontou tão bem, Letícia!!

  7. Queridissima Madastra, não haveria como escrever “media training” em português. Há momentos que fico pensando se devemos incorporar todos os neologismos. Que o referido termo venha em parênteses.

  8. + comentários

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