Modernismo brasileiro de Anita Malfatti no MAM, por Walnice Nogueira Galvão

Por Walnice Nogueira Galvão*

Anita Malfatti no MAM

O modernismo brasileiro produziu duas grandes pintoras: Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. Ambas são, ademais, pioneiras, porque começaram cedo e se amalgamaram a todo o desdobrar do movimento.

Como ninguém ignora, a participação de Anita foi precoce e rumorosa. Ao fazer sua segunda exposição em São Paulo em 1917 – cinco anos antes que a Semana de Arte Moderna de 1922 inaugurasse oficialmente o movimento – Anita teve sua própria estreia, mas de choque. Estreia, a bem dizer, do modernismo também, e não só dela. Aquelas figuras deformadas, aquelas cores berrantes pouco harmoniosas, aquela temática esdrúxula, tudo isso atiçou as iras dos conformistas e até mesmo de alguns mais avançados, como Monteiro Lobato. O famigerado artigo com que saudou a mostra já trazia  a rejeição no próprio título: “Paranoia ou mistificação?”

Apesar do apoio que recebeu dos companheiros de luta, que comungavam da mesma estética, Mário de Andrade e Oswald de Andrade à frente, consta que a agressiva recepção feriu a pintora e contribuiu para o retraimento que se verificou em sua obra nos anos subsequentes, quando passou a se entregar a um trabalho menos arrojado.

Analistas sensíveis como Gilda de Mello e Souza (Exercícios de leitura) apontam ainda outro fator como responsável por esse recuo, vindo aliar-se ao anterior. As duas, como vimos, eram as principais artistas do grupo modernista. Mas enquanto Tarsila era bela,  da velha burguesia da terra, dona de fazendas onde recebia os amigos, cortejada pelos homens,  festejada tanto no Brasil quanto em Paris, Anita não era rica nem bela, vinha de origens imigrantes, era vilipendiada devido a sua arte, e tinha o braço direito atrofiado, o que procurava esconder de todas as maneiras mas acabava retornando nas figuras que pintava.

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De Tarsila lembramos logo seu alegre colorido, os desenhos sutilmente silhuetados a bico-de-pena, e, acima de tudo, as estupendas telas A negra, Abaporu e Antropofagia, que constituem sua contribuição mais original e marcante. De Anita vêm à mente, da fase expressionista com que se lançou,  os óleos O homem amarelo, A boba, A estudante russa, O japonês. Mário de Andrade, que tinha gosto apuradíssimo, comprou dela este último. Que, aliás, figura na presente exposição, devidamente consignado como pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Nesse mesmo Instituto acaba de reaparecer o caderno de croquis da pintora, antes extraviado.

As metamorfoses de Anita estão perfiladas na atual exposição do Museu de Arte Moderna, no Ibirapuera, em suas principais obras. Depois da alta fase expressionista, que assinala os anos de estudo na Alemanha e nos Estados Unidos, registram-se os nus femininos e masculinos em estudos a carvão ou a nanquim.

A mostra traz alguns exemplares de suas incursões pelo naïf ou primitivista, bem mais tarde. Na virada dos anos 40 para 50 houve no Brasil uma notável voga desse gênero  de pintura, quando, por exemplo, a 1ª. Bienal de Arte de São Paulo conferiu o prêmio de aquisição ao pintor José Antonio da Silva, expoente da tendência.

A contemporânea Tarsila também produziu então suas mais ingênuas obras, ao tempo em que Anita praticou o gênero. E ninguém poderá acusar esta última de pobreza de técnica, pois a essa altura ela já tinha cumprido demorados estágios em ateliês no exterior, contando mais cinco anos de Paris. Foi, evidentemente, uma opção estética, de alguém que participava com empenho do movimento artístico.

Destaca-se ainda na mostra a grande retratista e a grande colorista  – dizem que a essa altura por influência do mestre da cor Matisse.  Atente-se para A chinesa, uma tela de amplas proporções, na vibração do vívido contraste entre a figura em azul e o fundo escarlate.

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Quem quiser saber mais pode consultar o livro Anita Malfatti no tempo e no espaço, de autoria da maior especialista no assunto, Marta Rossetti Batista, do supracitado IEB, que lhe consagrou uma vida inteira de dedicação exclusiva.

*Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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