A fome voltou e é preciso combatê-la, por Gustavo Conde

Reumanizar as pessoas passa obrigatoriamente por combater a fome e a miséria, o patamar básico para que um ser humano possa querer exercer sua cidadania e sua liberdade.

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A fome voltou e é preciso combatê-la

por Gustavo Conde

Recebi ontem de Daniel Souza, filho do Betinho, o clipe do Natal Sem Fome. Ele está muito concentrado na campanha e decidido a mobilizar o país. Não há outro caminho para que reumanizemos o mundo, senão o combate à fome.

Reumanizar as pessoas passa obrigatoriamente por combater a fome e a miséria, o patamar básico para que um ser humano possa querer exercer sua cidadania e sua liberdade.

“Para a fome não há vacina”, disse Daniel Souza. É doloroso dizer que o mundo procura a vacina contra a covid mas negligencia o combate à fome porque a fome só atinge os mais pobres – e o vírus, ainda que atinja mais os mais pobres, também atinge os mais ricos.

A luta é, portanto, complexa e acumula passivos classistas. No entanto, é uma oportunidade única para tentarmos promover um empuxo civilizatório em um mundo que amarga retrocessos. A razão é simples: se tivermos sucesso na luta contra a fome, teremos sucesso na reumanização das pessoas.

A luta é a luta em si, mas é também o conjunto de seus corolários e de suas consequências.

800 milhões de pessoas passam fome no mundo. Mas as bilhões de pessoas restantes que não passam fome e que se negam a lutar contra a fome estão passando por outro tipo de grave de privação: uma privação de ordem moral.

Elas carecem do sentimento de humanidade, amargam o “sobrepeso” da indiferença, padecem no egocentrismo do consumo, mergulham na precarização do sentido (não sabem o que significa a palavra ‘fome’ e criminalizam a luta contra a fome).

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A luta é contra a fome e contra esse sucateamento do sujeito. São duas faces da mesma moeda, porque a luta contra a pobreza requer consistência técnica, política e filosófica – um ser precarizado intelectualmente não terá condições morais para se engajar na luta contra a fome.

A luta contra a fome é também a luta pela educação e pela saúde. Mas que não nos enganemos: a fome é a primeira e mais degradante barreira para que o ser humano tenha acesso à sua própria humanidade.

Eis uma singela solução para que o mundo saia da condição desumana em que aportou – após os maus perdedores do século apelarem ao coquetel ‘mentira e violência’ para retornarem a governos predatórios: lutar contra a fome com todas as forças que nos cabem.

Lutar contra a fome é humanizar as redes sociais. Lutar contra a fome é redefinir os parâmetros do debate público. Lutar contra a fome é exercer a humanidade de si para promover a humanidade do outro.

Não foi à toa que o Prêmio Nobel da Paz tenha sido direcionado ao Programa Mundial de Alimentos da ONU. É um recado forte aos povos do mundo: sem vencer a fome, não venceremos mais nenhum desafio social e/ou econômico.

É preciso aprender logo essa lição.

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2 comentários

  1. O Conde afim de parecer bom demais abusa da forma e relativiza no conteúdo. Se, é preciso reumanizar, oque somos então?

  2. Bravos Conde, talvez esta pauta possa aglutinar uma certa “corrente” progressista no país. Ficar indiferente a fome é uma lição que tem um preço do atraso humanitário. A eleição de Bolsonaro deveria já ter dado um “recado”: erramos em não considerar a segurança alimentar e os direitos a terra para quem sabe plantar.

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