A religião castradora do prazer e a ascensão da extrema direita, por Cristiane Alves

A sociedade tradicional, conservadora e religiosa é um pilar da existência e da manutenção do patriarcado. E é através da religião e do maniqueísmo purista que essa realidade se garante como norma aceitável.

A religião castradora do prazer e a ascensão da extrema direita

por Cristiane Alves

Olhando alguns vídeos atuais sobre a postura de muitas mulheres e homens diante das atitudes e presença de alguns líderes de extrema direita, muitas vezes, questionamos os motivos. Vemos um êxtase. O mesmo transe orgásmico dos grupos de adolescentes diante de suas bandas preferidas. Existe uma aura sexual visível, quase palpável, de gritos histéricos e frenesis arrepiados.

Grande parte desses fanáticos adoradores é composta por mulheres e causa certa indignação, sobretudo porque a extrema direita “conservadora” é convencionalmente machista. E talvez Freud explique muito mais, e melhor, que qualquer teórico político.

A sociedade tradicional, conservadora e religiosa é um pilar da existência e da manutenção do patriarcado. E é através da religião e do maniqueísmo purista que essa realidade se garante como norma aceitável.

A religiosidade, via de regra, é elevadora do homem (macho). Do elemento feito à semelhança de Deus e por ele autorizado para toda honra e poder. Do falo como instrumento de potência, tal qual um cetro régio. À mulher cabe a submissão e, para sua eficiência, a castração do prazer.

Basicamente temos que a mulher de direita é castrada. Tal condição não causa desconforto, desde que não exista outra realidade contrastante. É, portanto, “normal” e até agradável ser alijada de escolhas e direitos, desde que exista o prazer “aceitável, branco e limpo”.

Vemos isso entre as mulheres que apoiam Bolsonaro, seus filhos e seu séquito de homens armados, violentos e intolerantes.

A religiosidade castra o prazer, mas permite o prazer sublime e superior. O prazer do transe, do êxtase coletivo, do culto orgásmico. O líder religioso é o prazer inerte, limpo, ungido. Ele tem o direito dado por Deus de arbitrar, possuir, exigir.

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A mulher aceita ser a caça, com um orgulho positivo. Aceita ser o objeto da vontade do homem, visto que é decisão superior, que a ninguém cabe contestar.

Por outro lado, assume que sua sexualidade é religiosa e ilibada. Então o homem abusador toma um espectro sublime, pois, se não lhe cabe desejar e demonstrar cabe que o outro lhe possua e invada. A agressão toma contorno romântico e desejado. O homem ideal é o que invade a torre da pureza religiosa, sem imputar culpa ao objeto de desejo.

A mulher de direita sonha com o estupro gourmet. Onde se nega, mas é dominada por um algoz másculo, bruto, forte, cheiroso, musculoso e preferencialmente branco (em função da normatividade racial idealizada).

Mulheres de direita precisam do estuprador armado, que não lhe peça licença para expressar sua lascívia, porque lhes eximem da culpa pelo profano.

Então essa onda bolsonarista é freudiana. Cunhada em complexo de Édipo e síndrome de Estocolmo. Estruturada na paixão pelo pai opressor e sádico (Deus, o pastor, o padre, o marido, o crush bad boy) e na norma patriarcal que alivia o fardo da escolha por um prazer que só pertence ao detentor do cajado de Abraão.

Sim, sua impressão de olhar para pessoas prestes a ter um orgasmo é real. Não é sem propósito que as religiões neocristãs precisem do ódio, do cinza, do monótono, do silêncio, do insípido e inodoro. A religião canaliza toda libido aos cultos, como uma forma de conexão com o divino.

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Mas eis que a política não é mais laica e temos nela outro púlpito.

Eis o Messias.

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1 comentário

  1. É necessário a observância da liberdade do homem e da mulher na sociedade. Que o amor em sua amplidão transforme as relações intimas de cada individuo.

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