COVID-19: levar a epidemia a sério, por Ion de Andrade

O que fazer então se constatamos que há inegavelmente uma profunda crise de credibilidade que envolve o governo federal mas não queremos que o nosso povo fique à mercê de uma epidemia que tem tudo para ser da maior gravidade?

COVID-19: levar a epidemia a sério, por Ion de Andrade

O Brasil, como dezenas de outros países do mundo já tem casos confirmados da COVID-19, são dois, o que torna muito provável que já tenha de fato dezenas de outros não sabidos e não registrados, possivelmente transmitindo a doença por todo o país. É mais provável que isso esteja acontecendo do que imaginarmos que os únicos casos de COVID-19 sejam os que foram registrados. Quando a doença emergiu na Itália, aliás, o caso inicial ou índice já estava tão distante que não foi possível estabelecer uma conexão com a China.

A doença apesar de estar sendo alvo de grande interesse da comunidade científica internacional é ainda desconhecida no que toca a inúmeros pormenores importantes, como a duração e efetividade da sua imunidade, a possibilidade ou não de que o vírus permaneça no organismo eventualmente eclodindo depois em novo episódio, ou de que animais domésticos ou de criação possam ser seus reservatórios configurando uma nova zoonose. Essas variáveis a depender do que se descubra, podem tornar o problema ainda mais complexo.

O que se sabe porém já é suficientemente preocupante para que a epidemia seja levada a sério. E é o que incontáveis países estão fazendo.

Apesar da taxa de letalidade da doença ter estacionado no conhecimento do senso comum na casa dos 2 a 2,5% de óbitos, os números da OMS apontavam hoje, 01/03/2020 para uma letalidade de 3,6% na China, que é o país onde a epidemia avançou mais, permitindo a visualização de um panorama mais claro do alcance e limites dessa doença. Pessoalmente creio que esse patamar não recuará, pois se trata de estatística que se baseia em 2873 óbitos para os 79.968 doentes registrados no país.

Admite-se que cerca de 80% dos casos sejam leves, ou assintomáticos, o que sugere que esses quase oitenta mil casos da China são apenas 20% do total e que poderia haver mais 400.000 casos não registrados no país. Esses números tenderiam a aliviar a letalidade, pois ela também deveria ser reduzida em oitenta por cento já que a sua fórmula põe em relação o número de doentes e o de óbitos. Se o número de doentes sobe, os óbitos se tornam uma proporção menor do todo. Mas esse alívio estatístico é irrelevante porque a transmissão da doença pelos pacientes leves continuaria a elevar o número final de doentes sintomáticos e de óbitos, que é o que realmente interessa do ponto de vista das perdas humanas e da sociedade.

Tenho acompanhado com perplexidade e preocupação a expressão de pesquisadores e de profissionais de saúde de renome que estão comparando a gravidade dessa doença para a qual ainda não temos vacina, tratamento ou conhecimento detalhado de sua evolução futura, com a do sarampo ou a da gripe sazonal, para as quais continuamos perdendo vidas, mas temos vacina e conhecimentos de longa data sobre o seu comportamento e alcance. Há quem a compare erroneamente ao Ebola, cujo contágio é bem mais difícil que o do COVID-19 e a letalidade tão alta que seus surtos resultam relativamente pequenos comparativamente ao das doenças respiratórias. Outros afirmam que o nosso clima nos protegerá,  uma hipótese otimista, certamente a não descartar, que não pode, no entanto, minimizar nenhum esforço de contenção da doença.

Uma letalidade de 3,6% não é baixa. Uma letalidade de 14% em octogenários não é baixa, uma letalidade de 10% em hipertensos não é baixa. O cálculo percentual é que é enganoso. Dez por cento significa efetivamente dez pessoas a cada grupo de cem hipertensos sintomáticos para o COVID-19, o que deve ser multiplicado pela totalidade de grupos de cem hipertensos que adoecerem e desenvolverem sintomas no Brasil e no mundo. É pouco? A gripe espanhola, que matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em 1918 tinha, por estimativas atuais, uma letalidade situada entre 2 a 3%. A ela sim, pela dinâmica da epidemia é que parece justo comparar.

Essa tendência a subestimar a doença é que pode produzir uma desmobilização nacional que será certamente muito negativa para o enfrentamento de uma doença que, se atingir níveis maciços no Brasil, poderá provocar perdas de inúmeras vidas que sem ela não seriam perdidas. Isso não pode ser naturalizado.

Diversos países da Europa que já contam, diferentemente de nós, é verdade, centenas de casos, como a França ou a Itália estão tomando medidas draconianas, incluindo fechamento de escolas, de museus (dentre os quais o Louvre) e a proibição de eventos públicos de toda sorte. A Suíça, com um punhado de casos, suspendeu a Feira Internacional do Automóvel de Genebra, uma das principais vitrines da indústria automobilística mundial, produzindo certamente centenas de milhões de dólares de prejuízos aos organizadores e às empresas. A China se deu o desafio de construir em dez dias um hospital de 1.000 leitos. Por que esses países fizeram ou estão fazendo isso? Só para auferir ganhos políticos com uma farsa?

E no Brasil em que pé estamos? Hoje temos oficialmente os dois casos a que me referi no início do texto, mas vivemos aqui um trágico momento da nossa vida pública. A epidemia está se encontrando com um Brasil em que qualquer ato e qualquer decisão ganham sentido político.

Estamos doentes e quaisquer medidas tomadas por parte da autoridade sanitária federal (o Ministério da Saúde) poderiam ser interpretadas, (e para isso, reconheçamos não faltariam motivos), como um ardil para dificultar, por exemplo, a realização das manifestações públicas agendadas e contrárias às tantas e tão frequentes agressões ao Estado de direito e ao ordenamento democrático do Brasil, como a ocorrida recentemente no episódio em que o próprio Presidente da República compartilhou vídeo de ato público a ser realizado contra o Poder Legislativo…

O que fazer então se constatamos que há inegavelmente uma profunda crise de credibilidade que envolve o governo federal mas não queremos que o nosso povo fique à mercê de uma epidemia que tem tudo para ser da maior gravidade?

Essa é uma questão importante a responder para que as medidas que venham a ser preconizadas no âmbito da Saúde Pública possam galgar consenso e permitir uma reação homogênea do país diante dessa ameaça.

Até onde eu enxergo, algumas instituições da Saúde Pública conseguiram manter viva a sua credibilidade, que sobreviveu à polarização política, como é o caso da ABRASCO ou da FIOCRUZ, um importante patrimônio científico e técnico que o Ministério da Saúde deveria considerar envolver nesse momento de potencial de gravidade para o Brasil.

O momento requer objetividade, razão e coragem para tomar as medidas que permitam ao país contornar com o menor número de perdas possível esse tremendo desafio em Saúde Pública que se avizinha. Não se trata de entrar em pânico, se trata de construir a base de credibilidade necessária para que as medidas possam galgar consenso suficiente para serem efetivas.

O Ministério da Saúde poderia envolver, num comitê estratégico para o enfrentamento da COVID-19, entidades que serão ouvidas por diferentes setores da nossa sociedade, e nesse comitê construir e referendar as decisões que deverão ser tomadas.

A COVID-19 obviamente não acabará com a humanidade nem com o Brasil mas poderá nos cobrar um tributo muito amargo se não a enfrentarmos como ela deve ser enfrentada e como outros países já a estão enfrentando.

As ações vão precisar de recursos governamentais, do talento nacional e de uma coesão que deverá ser construída entre os diversos que fazem o Brasil real e no contexto dessa polarização em que estamos.

Esse é o desafio. Conseguiremos?

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