Estão querendo apagar a memória de João Saldanha, por Raul Milliet Filho

Agora, é impossível analisar a vitória no México em 1970 sem realçar o trabalho desenvolvido por João Saldanha na disputa das eliminatórias daquela Copa e a montagem do time e da Comissão Técnica.

João dando instruções para Pelé e Gerson, eleitos os 2 melhores jogadores da copa de 70.

Mas o Deixa Falar não aceita.

por Raul Milliet Filho

O SportTV reprisou todos os jogos da Copa de 70 no México, permitindo que muita gente visse ou relembrasse aquela que foi, depois da seleção que disputou e ganhou a Copa de 1958, a melhor seleção brasileira de todos os tempos. Também pudera, com Garrincha e Pelé em campo, dois gênios, a seleção brasileira nunca foi derrotada.

Agora, é impossível analisar a vitória no México em 1970 sem realçar o trabalho desenvolvido por João Saldanha na disputa das eliminatórias daquela Copa e a montagem do time e da Comissão Técnica.

Os locutores e comentaristas responsáveis pela apresentação dos jogos praticamente não citaram o nome de João Saldanha. A coisa ficou tão escancarada, que só pode ser explicada por estes tempos bolsonaristas que ora vivemos e por um anticomunismo ferrenho e deslavado, hegemônico no campo das ideias em nosso país.

A trajetória de João Saldanha: do Alegrete ao comando da seleção brasileira

 

“Topo!”

Em fevereiro de 1969, Saldanha recebe, em sua casa em Ipanema, Antonio do Passo. Em pouco tempo de prosa, João escuta a mesma conversa que já fora ensaiada, pelo menos duas vezes, após o fracasso da seleção brasileira na copa de 1966.

“É convite, ou sondagem?”, pergunta João. “Convite”.

“Topo!”.

João Saldanha, membro do Partido Comunista desde 1942, comentarista esportivo, ex-diretor de futebol do Botafogo, técnico, campeão pelo mesmo Botafogo em 1957, jogador de futebol de praia do time comandado por Neném Prancha com Sérgio Porto, Heleno de Freitas e Pirica, amigo de Nélson Rodrigues, Luiz Carlos Prestes e Oscar Niemeyer, define os times, titular e reserva, no momento em que é anunciada sua escolha como técnico da seleção brasileira.

Saldanha conta quando entrou para o PCB:

Alegrete

João Alves Saldanha nasceu no dia 3 de julho de 1917 em Alegrete, Rio Grande do Sul, e morreu em Roma, em 12 de julho de 1990, em plena cobertura da Copa do Mundo da Itália.

Sua vida pode ser entendida em parte pela época e todas as passagens vividas por sua família na segunda década do século XX no tumultuado Rio Grande do Sul: “Quando nasci, minha família estava em plena batalha dos Chimangos e Maragatos. Maragatos eram os federalistas que lutaram contra os 35 anos de ditadura de Júlio de Castilhos. Chimangos eram ligados a outro ditador do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, que ficou 27 anos no poder.

Os meninos participavam da luta. Em 1923, aos 6 anos de idade, eu ajudava no contrabando de munição entre Brasil e Uruguai. Não havia grande noção de fronteira. O pai de Getúlio Vargas, grande latifundiário, sempre dizia: “Ora, por que cobrar a passagem do meu gado de um lado para o outro? O terreno é o mesmo. Se lá dá mais dinheiro, vou até lá, vendo e pronto”.

Em 1923, meu pai e seu grupo foram expulsos. Decidiram morar do outro lado, em Rivera”.

Gaspar Saldanha, pai de João, fazendeiro de ideias libertárias, teve, com sua mulher Jenny Jobim, 5 filhos: Maria, Aristides, João, Ione e Elza.

A irmã mais nova, Elza, nascida em 1922, conta que o exílio no Uruguai foi um período duro para a família Saldanha:

“Eu, com apenas 3 meses, dormia em um pequeno caixote, improvisado como berço e os meninos atravessavam sem parar a fronteira para buscar alimento e munição do lado de cá, no Brasil”.

Quando muda a conjuntura, os Saldanha voltam ao Rio Grande do Sul, seguindo um ano depois para o Paraná.

Aos 11 anos, João Saldanha e seu irmão Aristides pichavam palavras de ordem nos muros, seguindo o pai.

A influência do Dr. Gaspar, parlamentar gaúcho, foi marcante na vida de João. Sua irmã Elza pontua:

“João tomou muito o perfil do papai. Papai foi político, atuou no Rio Grande do Sul para depor o Borges de Medeiros e os meninos foram criados vendo aquele clima de revolução em casa, espingardas, a casa cheia… Eles abriam os armários e em vez de roupas tinham armas. O papai recebeu uma boa herança do vovô, que empregou para depor o Borges de Medeiros. Gastou tudo na política, na revolução. E nisso o João era muito parecido com o papai; quando queria alguma coisa, lutava até o fim”.

O primeiro contato de João com o futebol aconteceu no Paraná, mais precisamente no campo do Atlético Paranaense, onde ele sempre ia assistir aos treinos das divisões de base. Além disso, a casa da família em Curitiba permitia uma integração com toda a garotada da vizinhança, que organizava times, campeonatos, jogos, enfim, tudo dentro do estilo de vida da expansão urbana e das novas modas citadinas.

Em 1928, a família volta para o Rio Grande do Sul. Gaspar Saldanha se aliou a Vargas, com participação importante na revolução de 1930, e quando ele se tornou presidente, veio morar no Rio de Janeiro. Ganhou um cartório – que foi, mais tarde, o primeiro emprego de João – comprou uma casa em Copacabana e João foi estudar no Colégio Pedro II. A partir daí, além da política e do futebol, a praia passa a ser um componente no dia a dia de João Saldanha.

Praia, futebol e política começaram a tomar conta da vida de João desde a sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1931: “Respirando política desde o berço, era natural que João Saldanha resolvesse, como o pai, lutar pelos princípios e ideais que julgava corretos. Essa motivação levou-o a tomar duas importantes resoluções pessoais em 1935. Uma, cursar a Faculdade de Direito da recém-criada Universidade do Distrito Federal, principalmente porque a escola era um reduto de estudantes politicamente engajados. Outra, filiar-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB). Um garoto rico, comunista? Muita gente estranhou a atitude”. (Fábio Franzine. – Rebeldes brasileiros, Coleções Caros Amigos, vol. 2, p. 459-500).

O Botafogo A paixão pelo Botafogo atravessa toda a vida de João Saldanha, desde a sua chegada ao Rio de Janeiro. O trajeto de Copacabana, onde morava, até a sede do clube, transformou-se em um percurso quase diário para o adolescente João. Na estrela solitária praticava basquete e futebol, com disciplina e poucos rasgos de talento. Foi com a bola nos pés que João começou a aprender, ao lado de companheiros como Tim e Heleno de Freitas, os segredos de seu esporte de paixão. Seu maior prazer era observar o jogo e procurar avidamente informações sobre as variações táticas em uma partida. Foi com Dori Kürschner, treinador húngaro que chegou ao Rio em 1937, que João pôde tomar conhecimento e aprofundar-se nas novidades do futebol após a segunda lei do impedimento, de 1925. Não só no WM como no aperfeiçoamento dos fundamentos por parte dos jogadores.

Kürchner treinou o Flamengo em 37 e 38 e o Botafogo em 1939 e 1940. João foi o seu intérprete no Botafogo e aprendeu muito com isto.

Saldanha sempre disse que o técnico húngaro tirou o futebol brasileiro da idade média.

A partir dessa época, tem início o aprendizado teórico e prático de João Saldanha sobre as questões táticas e os fundamentos do futebol. Os que dizem que João era um intuitivo, um “prático”, que negligenciava as questões táticas, certamente não acompanharam seu desempenho no Botafogo e na seleção brasileira e nem foram leitores atentos de suas crônicas.

O texto de abertura de João Saldanha ao livro Na Boca do Túnel, publicado em 1968, é conciso e criativo na abordagem desse tema: “(…) Jogamos a Copa do Mundo de 1938 com dois zagueiros, quando a lei do impedimento já havia sido modificada há quatorze anos atrás. Hoje, o futebol, evolui a passos gigantescos. A capacidade de resistência dos jogadores, sua habilidade com a bola estão criando situações inteiramente novas em relação às posições clássicas dos sistemas, que estão sendo levados de roldão pela prática do jogo. Um jogador para ser eficiente tem de saber jogar em várias posições. Tem que saber defender e atacar, e qualquer sistema moderno que pretenda ser eficiente tem de compreender que não pode ser rígido.

Estamos mais do que nunca precisando disto. O futebol é arte popular. Não podemos continuar atrasados”. (Na Boca do Túnel. Editora Gol, p. 8)

De diretor a técnico Saldanha começa no Botafogo como jogador de futebol; diretor de futebol desde 1944 (de 1949 até 1956, esteve clandestino no eixo Rio-São Paulo-Paraná, como dirigente do PCB) e técnico, depois da saída de Geninho, nos anos de 1957 a 1959. Em 1956, pressiona e convence o presidente Paulo Azeredo a comprar Didi, do Fluminense, tendo o apoio do grande amigo e também diretor, Renato Estelita. Na esteira do craque da Folha Seca, vieram Bauer, Paulo Valentim, Alarcon, Canete, Adalberto, Beto e Servílio. A campanha de 1957 é realmente gloriosa. O time, que não era campeão desde 1948, ganha o título com uma goleada de 6 a 2 contra o Fluminense. Na concentração e no vestiário, o técnico Saldanha reforça três recomendações: “Temos que ter clareza de que vamos entrar perdendo de zero a zero. O empate dá o campeonato a eles”. “Quarentinha, não desgruda do Telê… É dele que começam todas as boas jogadas do Fluminense”. “Não quero ninguém atrapalhando o Mané, quero, no lado direito do nosso ataque, um corredor livre e todo mundo atento, principalmente o Paulinho, para aproveitar os cruzamentos”.

O Botafogo, que atuava num 4-3-3, com Edson recuado pela esquerda, jogou a partida final num 4-4-2, com Quarentinha colado em Telê o jogo inteiro.

Aí ficam desmoralizadas as observações desconexas de pessoas como Parreira e Zagallo, que sempre disseram que João só sabia dirigir times no 4-2-4. Isso chega a ser engraçado e ridículo, pois no ano seguinte, depois da Copa do Mundo, por gestões de Saldanha e seu amigo Renato Estelita, Zagallo, que pertencia ao Flamengo, é contratado pelo Botafogo. Uma pergunta: para jogar como ponta aberto? Piada de mau gosto ou falta de memória.

Não custa lembrar que na Copa de 58 a seleção brasileira jogou com três titulares do Botafogo: Nilton Santos, Didi e Garrincha. Didi foi eleito o melhor jogador daquela Copa. O preparador físico foi Paulo Amaral que atuava há tempos no Botafogo, campeão Carioca de 1957 com João Saldanha.

O mesmo viria a acontecer na Copa 1962 com uma diferença. Além do competente preparador físico, Paulo Amaral, o Botafogo teve 5 titulares na seleção brasileira, a saber: os mesmos Nilton Santos, Didi e Garrincha além de Amarildo e Zagallo. Nesta Copa Garrincha foi eleito com folga o melhor jogador, além de ter sido um dos artilheiros.

Com Mané, as maiores alegrias Foi com Garrincha que Saldanha conheceu as maiores alegrias que o futebol arte proporciona. Como diretor de futebol e como técnico de Mané, consolidou algumas certezas já percorridas e pôde alçar voos longos, joão preferido desse artista do inesperado e do desconcertante.

Em uma das várias excursões em que esteve à frente do time do Botafogo, presenciou jornada especial de seu Mané. Botafogo x River Plate no Estádio Universitário do México. Cem mil pessoas assistiram a uma das maiores criações do futebol em sua história. No livro de sua autoria, Os Subterrâneos do Futebol, João Saldanha conta como o “Olé” nasceu no México:

“Olé” nasceu no México “O Estádio Universitário ficou à cunha. Cem mil pessoas comprimidas para assistir ao jogo. É muito alegre um jogo no México. É o país em que a torcida mais se parece com a do Rio de Janeiro. Barulhenta, participa de todos os lances da partida.

Vários grupos de ‘mariaches’ comparecem. Estes grupos, que formam o que há de mais típico da música mexicana, são constituídos de um ou dois “pistões” e clarins, dois ou três violões, harpa (parecida com a das guaranias), violinos e marimbas. As marimbas são completamente de madeira, mas não vão ao campo de futebol, sendo substituídas por instrumentos pequenos. O ponto alto dos ‘mariaches’ é a turma do pistão, do clarim e o coro, naturalmente. No campo de futebol, os grupos amadores de ‘mariaches’ que comparecem ficam mais ativos em dois momentos distintos: ou quando o jogo está muito bom e eles se entusiasmam, ou, inversamente, quando o jogo está chato e eles “atacam” músicas em tom gozador. No jogo em que vencemos ao Toluca, que estava no segundo caso, os ‘mariaches’ salvaram o espetáculo.

O time do River era, realmente, uma máquina. Futebol bonito e um entendimento que só um time que joga junto há três anos pode ter. Modestamente, jogamos trancados. A prudência mandava que isto fosse feito. De fato, se ‘abríssemos’, tomaríamos um baile.

Foi um jogo de rara beleza. E não foi por acaso. De um lado estavam Rossi, Labruña, Vairo, Menéndez, Zarate, Carrizo. De outro, estavam Didi, Nilton Santos, Garrincha etc. Jogo duro e jogo limpo. Não se tratava de camaradagem adquirida em quase um mês no mesmo hotel, mas sim da presença de grandes craques no gramado. A torcida exultava e os ‘mariaches’ atacavam entusiasmados.

Estava muito difícil fazer gol. Poucas vezes vi um jogo disputado com tanta seriedade e respeito mútuos. Mas houve um espetáculo à parte. Mané Garrincha foi o comandante. Dirigiu os cem mil espectadores. Fazendo reagirem à medida de suas jogadas. Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria do ‘Olé’, tão comumente utilizada posteriormente em nossos campos. Não porque o Botafogo tivesse dado “Olé” no River. Não. Foi um “Olé” pessoal. De Garrincha em Vairo.

Nunca assisti a coisa igual. Só a torcida mexicana com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um ‘Olé’ daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: ‘Ôôôôô’! O som do “olé” mexicano é diferente do nosso. O deles é o típico das touradas. Começa com um ô prolongado, em tom bem grave, parecendo um vento forte, em crescendo, e termina com a sílaba “lé” dita de forma rápida. Aqui é ao contrário: acentua-se mais o final ‘lé’: ‘Olééé!’ – sem separar, com nitidez, as sílabas em tom aberto.

Verdadeira festa. Num dos momentos em que Vairo estava parado em frente a Garrincha, um dos clarins dos ‘mariaches’ atacou aquele trecho da Carmem que é tocado na abertura das touradas. Quase veio abaixo o Estádio Universitário. Numa jogada de Garrincha, Quarentinha completou com o gol vazio e fez nosso gol. O River reagiu e também fez o dele. Didi ainda fez outro, de fora da área, numa jogada que viera de um córner, mas o juiz anulou porque Paulo Valentim estava junto à baliza. Embora a bola tivesse entrado do outro lado, o árbitro considerou a posição de Paulinho ilegal. De fato, Paulinho estava ‘off-side’. Havia um bolo de jogadores na área, mas o árbitro estava bem ali. E Paulinho poderia estar distraindo a atenção de Carrizo.

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O jogo terminou empatado. Vairo não foi até o fim. Minella tirou-o do campo, bem perto de nós no banco vizinho. Vairo saiu rindo e exclamando: “No hay nada que hacer. Imposible” – e dirigindo-se ao suplente que entrava, gozou:

– Buena suerte muchacho. Pero antes, te aconsejo que escribas algo a tu mamá.

O jogo terminou empatado e uma multidão invadiu o campo. O ‘Jarrito de Oro’, que só seria entregue ao “melhor do campo” no dia seguinte, depois de uma votação no café Tupinambá, foi entregue ali mesmo a Garrincha. Os torcedores agarraram-no e deram uma volta olímpica carregando Mané nos ombros. Sob ensurdecedora ovação da torcida. No dia seguinte, os jornais acharam que tínhamos vencido o jogo, considerando o tal gol como válido. Mas só dedicaram a isto poucas linhas. O resto das reportagens e crônicas foi sobre Garrincha.

As agências telegráficas enviaram longas mensagens sobre o acontecimento e deram grande destaque ao ‘Olé’. As notícias repercutiram bastante no Rio e a torcida carioca consagrou o ‘Olé’. Foi assim que surgiu este tipo de gozação popular, tão discutido, mas que representa um sentimento da multidão.

Já tentaram acabar com o ‘Olé’. Os árbitros de futebol, com sua inequívoca vocação para levar vaias, discutiram o assunto em congresso e resolveram adotar sanções. Mas como aplicá-las? Expulsando a torcida do estádio? Verificando o ridículo a que estavam expostos, deixam cada dia mais o assunto de lado. É melhor assim. É mais fácil derrubar um governo do que acabar com o ‘Olé’.

Não poderia ter havido maior justiça a um jogador que a que foi feita pelos mexicanos a Mané Garrincha. Garrincha é o próprio ‘Olé’.

Dentro e fora de campo, jamais vi alguém tão desconcertante, tão driblador. É impossível adivinhar-se o lado por onde Mané vai ‘sair’ da enrascada. Foi a coisa mais justa do mundo que Garrincha tivesse sido o inspirador do ‘Olé’.”

(João Saldanha. “Os Subterrâneos do Futebol”).

Reparem a jogada de Garrincha contra a Espanha na Copa de 1962, driblando vários adversários, colocando a bola na cabeça de Amarildo para fazer Brasil 2 x 1. Uma vitória que classificou o Brasil.

Aos 40 minutos do segundo tempo. O empate classificava a Espanha.

Duas observações sobre o locutor: quem recebe a bola de Gilmar e inicia a jogada é o Nilton Santos, e quem mata a bola no peito, com sua categoria e elegância de sempre é o Príncipe Etíope, o Didi.

A Política A vida de João tem o futebol e a política como principais referências. Em maio de 1949, participa, na sede da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, da organização de um congresso em defesa da paz. Mesmo proibido pela polícia, e com o PCB na clandestinidade, na hora aprazada, declaram-se abertos os trabalhos. Logo depois, tendo à frente o inspetor Borer, agentes da polícia invadem o recinto, sendo recebidos com vaias e por uma cadeirada desferida por João. Tumulto geral, alguns feridos, Saldanha entre eles. Um tiro atinge o jovem militante pelas costas.

No início dos anos 50, em Porecatu, região contígua a Londrina, no norte do Paraná, três mil famílias de posseiros ocupavam terras devolutas. O então governador do estado, Moisés Lupion, desconhecendo as benfeitorias realizadas por esses trabalhadores e os quase trinta anos de ocupação por boa parte das famílias, envolveu as terras em uma negociação que praticamente as doava aos latifundiários. O PCB atuou na região e Saldanha, dirigente estadual do partido, foi designado para a frente de luta. Hilário Gonçalves Pinha, um dos posseiros assistidos por João, comentou: “Ele era dirigente estadual do PCB e foi designado para nos dar assistência política propriamente dita… Agia conosco de uma forma muito didática, explicando as coisas. Revelou também muito equilíbrio, bastante senso de realidade. E olhe que estávamos em plena vigência do Manifesto de Agosto, num tempo de muito sectarismo, o que abria caminho a tudo. Revelou ainda muita valentia. Não era fácil chegar até nós sem arriscar, e muito, a própria vida.

Veio a polícia, vieram os jagunços, a força bruta contra nós e nossas famílias. Nós reagimos. Não havia outra saída. Não se tratava de guerrilha. Reagimos como pudemos, com as armas de que dispúnhamos, pás, enxadas, facões e também armas de fogo. Foi uma luta desigual… Ao João Saldanha, à sua ajuda política, à sua solidariedade, creditamos boa parte de nossa vitória nessa luta”.

(Entrevista a João Batista Aveline – Voz da Unidade, 1990). Nesse período, residiu em São Paulo, atuando na frente sindical e parlamentar, negociando com Jânio Quadros, que postulava o apoio do PCB a sua candidatura à prefeito. Teve importante participação na memorável e vitoriosa greve dos 300 mil na capital paulista. A política partidária nunca o seduziu, tendo recusado, por diversas vezes, disputar cargos eletivos, por achar que no rádio, no jornal e na tevê teria uma comunicação muito maior com o público do que se fosse ser mais um deputado.

Em 1985, aceitou concorrer ao cargo de vice-prefeito do Rio de Janeiro na chapa encabeçada por Marcelo Cerqueira que obteve quase 10% dos votos válidos.

Rádio, Jornal e TV

Em 1960, Saldanha inicia sua carreira no jornalismo esportivo, trazendo sua longa experiência, no Botafogo, e nos periódicos comunistas dos quais participara como repórter, correspondente e editor.

Foi contratado pela Rádio Guanabara e pelo jornal Última Hora, a convite de Samuel Wainer. A televisão viria logo depois. Tinha início uma nova etapa de vida: “No ramo, era bom como cronista de linguagem despojada e a fantástica capacidade de escrever no mais puro coloquial. Segredo do João: falava a língua do povo para tratar de temas populares.

Ótimo na televisão, saltando do comentário do futebol para a crônica do cotidiano. Brilhou nas mesas redondas, com o jeito de topar brigas e dizer as coisas sem papas na língua. Enfrentou sempre duras paradas com o mesmo ímpeto desabusado de quem não media adversários.

Sempre sustentei, entretanto, que João Saldanha foi inigualável no rádio. Esse o seu espaço, onde realmente se espraiava num à vontade de quem está em casa. Durante anos, saltando de emissora, sustentou a posição indisputada de maior comentarista do rádio brasileiro em todos os tempos. O seu ibope podia ser aferido, nos tempos de Maracanã superlotado, nas tardes de domingo e nas noites de qualquer dia, por constatação de ouvido: era só prestar atenção, que era possível acompanhar, emendando o som dos rádios de pilha, o comentário do João seguindo o rastro de sua voz por todo o estádio, das cadeiras à geral”.

(Villas-Boas Corrêa, Jornal do Brasil, 1990)

Comentário de João Saldanha depois de Itália 3 x 2 Brasil, que desclassificou nossa seleção na Copa de 1982.

João Saldanha e Jorge Curi eram bons amigos. Mas João nunca deixou de lado sua coerência. Claramente, neste lance, tinha razão. Depois disso os dois continuaram amigos.

Futebol como arte popular João Saldanha tinha uma visão humanista da vida, da política, do futebol, procurando a valorização da cultura popular brasileira. Não via no jogo, no lance, no gol, um fim em si mesmos, mas considerava-os indicativos de uma possibilidade gregária, educativa, que a convivência comunitária poderia proporcionar. O futebol de praia, de clube, de várzea, encontravam nele um renitente defensor. Quando do planejamento do Aterro do Flamengo, foi o responsável, junto com Raphael de Almeida Magalhães, pela inclusão dos campos de pelada, esquecidos no projeto original.

Em seu artigo “Vitória da Arte”, após a conquista da Copa do Mundo do México, resumiu sua filosofia de vida e de bola: “Antes de mais nada, quero dizer que a vitória extraordinária do Brasil, foi a vitória do futebol. Do futebol que o Brasil joga, sem copiar de ninguém, fazendo da arte de seus jogadores a sua força maior e impondo ao mundo futebolístico o seu padrão, que não precisa seguir esquemas dos outros, pois tem sua personalidade, a sua filosofia, e jamais deverá sair dela.” (O Globo, 1970) 1969: Saldanha entra em campo Villas Bôas Corrêa escreveu em homenagem a João uma bela crônica, no dia de seu falecimento, “Lembranças de um homem chamado João”, publicada pelo Jornal do Brasil. Nela, o jornalista vai no ponto certo do trabalho de Saldanha em 1970: “Mas, como técnico da Seleção de 70, em trajetória tumultuada pelos impulsos do temperamento, João Saldanha deixou lições eternas e nunca aprendidas.

Convidado, aceitou de pronto e no mesmo embalo anunciou a convocação dos 22. Com o gesto audacioso e exemplar de escalar a seleção titular e a reserva.

Foi o que se viu, apesar dos muitos pesares. A seleção de 70 nasceu pronta, necessitou de retoques para os ajustamentos finais. Quer dizer que uma vez definida pôde começar treinando, buscando entrosamento, acertando táticas. Nunca esqueci o ensinamento: time só existe depois de escalado. O tempo que se gasta antes de definir a escalação é puro desperdício. E quantos títulos atiramos pela janela da indecisão e do tempo perdido nas famosas experiências que não levam a nada?” João e suas tiradas Para entender João Saldanha, técnico de 1970, seu estilo de trabalho e decisões nem sempre aceitas de pronto, lembramos que João era um grande talento da síntese, do bate-pronto, da agilidade na resposta imediata, das máximas e frases curtas que resumem sua visão sobre o futebol e a vida: – Quatro homens, um ao lado do outro é a linha burra de quatro zagueiros. Só dá certo em parada militar, no futebol é brejo certo. – Campo de futebol não é loteamento. Ninguém pode ter posição fixa. – No futebol atual o preparo físico precisa ser apurado, pois do contrário o time joga como quem dorme com cobertor curto no inverno. – Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado. – É mais fácil falar das cabines ou das tribunas do que de dentro do campo. – Futebol não é ópio do povo. No Brasil é arte e paixão popular. – Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia um. – Em 469 anos de história, matamos menos gente do que vocês em dez minutos de campo de concentração (numa emissora alemã, em resposta a uma pergunta de quantos índios foram mortos no Brasil desde o descobrimento). – E como é que a Scotland Yard ficou famosa? Prendendo bons caráteres? (na BBC, respondendo à insinuação de que os árbitros latino-americanos não eram honestos). – Meu velho, comunismo puro, a meu ver, só daqui a três mil anos. – O Brasil é um país sem leis, é de quem chegar primeiro. Foi assim, desde o descobrimento. – No Brasil, eu luto por um capitalismo desenvolvido, pois é um avanço. – Hoje o Garrincha morreria de tanta pancada em campo. – Nunca gritei gol, nem levei bandeira. Assisto aos jogos frio, frio. – Quando alguém acerta na loteria três visitas são certas: a do corretor de ações, a do vendedor de enceradeira e a do padre da paróquia. – Na verdade, o futebol é uma grande Zona do Agrião.

A escolha de Saldanha “Quando fui convidado para assumir a seleção, tinha plena consciência de que se a ditadura fechasse ainda mais o cerco, eu poderia espirrar a qualquer momento, afinal de contas, nunca escondi o que penso e os homens que me escolheram sabiam perfeitamente quem eu era. Quando entrou o Médici, senti nitidamente que as coisas iriam ficar mais difíceis. Este homem foi sem dúvida alguma o maior assassino da História do Brasil. Quando o Havelange dissolveu a Comissão Técnica, naquela reunião que todos conhecem, o desempenho da seleção era inquestionável. Nas eliminatórias, 6 jogos e 6 vitórias. Dentro e fora de casa. Ao todo tive 11 jogos oficiais com 10 vitórias e uma derrota”. (entrevista concedida por João Saldanha ao Núcleo Esporte e Cidadania em 1985). João Havelange, no olho do furacão de uma crise que estava pondo em risco seu próprio cargo, diante de “uma ausência de hegemonia técnica” no futebol brasileiro, ausência de credibilidade, espécie de bonapartismo cultural – futebolístico, aposta alto e arriscado, conversa com Antônio do Passo (seu braço direito) e batendo o martelo lhe diz: “convida o João”. Obediente, Passo cumpre a missão prontamente e o desfecho é conhecido.

As feras de Saldanha Em sua primeira entrevista coletiva, quando foi anunciada sua escolha, João tirou um pequeno papel do bolso e emendou dizendo que já tinha definido os times titular e reserva.

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Os onze titulares: Félix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Brito, Rildo, Wilson Piazza, Gérson, Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão.

Os onze reservas: Cláudio, Zé Maria, Scalla, Joel, Everaldo, Clodoaldo, Paulo César, Paulo Borges, Toninho, Rivelino e Edu.

Com a certeza da necessidade de resgatar a autoestima dos jogadores e da torcida brasileira, Saldanha criou a figura das feras, afirmar que era preciso “desafrescalhar” aquela história de “seleção canarinho” e que gostaria de ter em campo, onze craques, onze feras. De todas as feras, dizia João, o homem é a mais perigosa, portanto, eu não quero nenhum mocinho no meu time. Convoco o jogador para defender a seleção, não para casar com a minha filha.

Concentração Desde que assumiu o Botafogo, em 1957, Saldanha era um crítico das concentrações. Citava vários argumentos e dentre eles a história do Ávila, jogador da década de 1940 que estava concentrado, com a mulher hospitalizada. Uma piora no estado de saúde da esposa fez com que uma freira, responsável pelo hospital, ficasse ligando para a concentração do Botafogo durante horas. Em vão. Ninguém deu o recado. Quando Ávila soube de tudo, sua mulher já tinha falecido.

João não via nenhuma vantagem na reclusão das concentrações. Quando assume a Seleção, adota uma linha liberal que teve resultados positivos imediatos.

“Criei um esquema na Seleção: todos desciam à noite numa Kombi, deitados no chão, cobertos com uma colcha, para a imprensa moralista, a que leva grana de cartola, não dedurar. Tinha um acordo: não podia trocar de mulher na mesma semana. Uma vez o goleiro Ado falhou e tinha de cumprir a pena de suspensão por cinco dias. Ele dizia: “Mas era um avião, seu João, um avião”, liberei com três dias, afinal era um avião. Os casados tinham hotel pago para esposa e filhos.” (entrevista a Marcelo Rezende, Playboy, 1984).

Tostão e a filosofia do antitanque Durante muito tempo, vários setores da imprensa esportiva, incluindo técnicos de expressão, defendiam que a posição do comando do ataque fosse ocupada por um jogador forte, viril, “um tanque”. Quando João assume a Seleção Brasileira, escala a sua primeira formação de ataque com Jair, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão. Em pouco tempo, promoveria a entrada de Edu na ponta esquerda, deslocando Tostão para fazer dupla com Pelé. Muitos acharam que não ia dar certo, afinal, os dois craques tinham estilo de jogo parecido e Tostão, como todos os seus companheiros de ataque, era brasileiro e não europeu, como inconscientemente desejavam os tradicionalistas. Não foi o que se viu. Tostão foi o artilheiro das eliminatórias, jogando com arte e decisão.

Em crônica publicada no jornal “O Globo” em 1970, João afirmava: “Minha concepção para a copa do mundo era de que poderíamos batê-los, aos grandalhões, com arte e habilidade. Jamais na força física. Convoquei Zé Carlos do Cruzeiro, pois já tinha ali no meio Pelé, Tostão, Dirceu e Rivelino… Pelé e Tostão demonstraram amplamente ser a dupla certa. Jogando bola no chão. Desde as eliminatórias até as finais, fizemos cerca de 50 gols e só um de cabeça. Tudo por baixo, como sabe jogar o futebol brasileiro”. Em outubro de 1969, Tostão sofre um descolamento de retina em um jogo contra o Corinthians no Pacaembu. Saldanha gritou aos quatro cantos “espero o Tostão até o vestiário. Ele desequilibra”. De fato, o craque volta em abril de 1970 e tem uma excelente participação na Copa, sendo considerado, pela imprensa europeia, um dos melhores jogadores da competição.

Os primeiros amistosos A defesa: desde os três primeiros amistosos, Saldanha procura fugir da linha burra de quatro zagueiros, adotando o líbero flexível em contraposição ao líbero italiano. “Djalma Dias ou Brito podem desempenhar essa posição”, dizia João. “Outro que é versátil e é um craque é o Piazza, jogando o fino no meio campo podendo ser escalado até de zagueiro plantado”. “No meio campo e no ataque, temos o que há de melhor no mundo, é só esperar e ver”.

O primeiro amistoso no Brasil foi contra o Peru no dia 7 de abril de 1969, em Porto Alegre, no estádio Beira Rio. Saldanha escala o time que anunciara em sua primeira coletiva como técnico. Vitória do Brasil por 2 a 1, gols de Jairzinho e Gérson, e um de Gallardo para o Peru.

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Brito (Vasco), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Dirceu Lopes (Cruzeiro), Pelé (Santos), (Edu) [Santos], Tostão (Cruzeiro).

Peru – Sartor, Fernandez, De la Torre, Chumpitaz, Gonzalez – Zegarra (Ramirez), Mifflin, Cubillas (Challe) – Baylon, Perico Leon (Muñante), Gallardo.

O segundo amistoso, no dia 09 de abril de 1969, teve o mesmo adversário, no Maracanã, com resultado de Brasil 3 x 2 Peru. Jogo difícil, catimbado em que o tempo fechou quando Gérson entrou com o pé no peito do jogador De La Torre. Tumulto geral. Saldanha entra literalmente em campo com todos os reservas, auxiliares, etc. A partida fica paralisada por 40 minutos.

Em declaração a vários jornais, João ressalta que Gérson revidou a jogada violenta cometida minutos antes por De La Torre. ”Foi um bom teste para o Brasil. Estamos bem em tudo. Eles procuraram e tiveram o troco”, disse João.

Em 7 de abril de 1969, o jornal Folha de São Paulo circula com uma matéria “Teoria de Saldanha vai entrar em campo”, analisando o esquema tático para os dois primeiros jogos contra o Peru.

O jornal assinala que a seleção formará um 4-3-3 diferenciado, flexível. Na defesa Brito atuará como “zagueiro de espera”, uma espécie de líbero, só que sem função estática, podendo ser exercido por outro jogador da defesa, dependendo da jogada. No meio de campo, Piazza ficará encarregado de dar cobertura à defesa e quando tiver a posse de bola terá que encostar nos armadores Gérson e Dirceu, a não ser que um dos laterais esteja avançando.

No ataque, Pelé vai jogar como sempre, e os pontas Tostão e Jair vão cair pelo meio em determinadas jogadas.

Brasil x Inglaterra A prova de fogo de João, na fase inicial de preparação.

Para este jogo, disputado no Maracanã em 12 de junho de 1969, Saldanha decidiu jogar com a base do Santos, time que, mesmo atravessando má fase, era o melhor do país. João convocou Gilmar dos Santos Neves como forma de homenageá-lo em seu centésimo jogo com a camisa da seleção. Gilmar é necessário frisar, teve uma excelente atuação.

O Brasil derrotou os campeões do mundo por 2 a 1 e Saldanha disse, ao final, que a vitória surgiu da paciência e do talento geral de nossos jogadores. Começando com dois pontas bem abertos para que Pelé e Tostão pudessem avançar com velocidade vindos de trás, João substitui Edu por Paulo César, mudando o esquema tático, e permitindo os deslocamentos de Pelé e Jair, facilitando as entradas de Tostão, sempre perigosas.

Após esta vitória, os críticos de Saldanha diminuíram o tom, principalmente os jornalistas de São Paulo.

Escalações: Brasil – Gilmar (Santos), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Clodoaldo (Santos), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos) (Paulo César Caju) [Botafogo].

Inglaterra – Banks, Wright, Labone, B. Moore, Newton , Mullery, Bell , A. Ball, B. Charlton, Hurst, Peters. Gols: Bell, Tostão, Jairzinho

Na reta final para as eliminatórias A seleção brasileira disputou três amistosos, não oficiais, de 6 de julho de 1969 a 13 de julho de 1969, todos realizados no Brasil. Foram partidas alegres e de entrosamento do time. 4 a 0 contra o Bahia; 8 x 2 contra a seleção Sergipana e 6 a 1 contra a seleção Pernambucana.

Já em Bogotá, em 1 de agosto de 1969, o jogo foi contra o Milionários, com vitória para o Brasil de 2 a 0, gols de Gérson e Rivelino.

Nesta fase, a seleção já tem solidificada a sua formação com dois pontas e a efetivação de Edu, do Santos, jogando na ponta-esquerda, tendência que começa a ser notada desde o jogo contra a Inglaterra.

Aos críticos que o acusavam de utilizar um 4-2-4, clássico e superado, João respondia que os esquemas táticos não podiam se prender a números. “Posso perfeitamente reforçar o meio-campo, jogando em determinados momentos de algumas partidas, no que chamam de 4-3-3, sem abrir mão de dois pontas. Não existe um voltador oficial. Isso é coisa do passado, de quem não conhece a História do Futebol e de suas mudanças táticas, após a segunda lei do impedimento e do aprimoramento da preparação física”.

Preparação física e adaptação à altitude Uma das principais preocupações de Saldanha era partilhada há muito tempo pela CBD – Confederação Brasileira de Desportos, sem contudo ser levada a efeito. Depois do pioneirismo da Comissão Técnica de 1958, é montada, pela primeira vez na História do Futebol brasileiro, uma delegação, de fato, profissional. Cláudio Coutinho, Admildo Chirol e Carlos Alberto Parreira na preparação física, os médicos Lídio Toledo e Mário Pompeu, além dos componentes administrativos e dirigentes que completavam a Comissão Técnica.

O planejamento e adaptação à altitude, tanto nas eliminatórias (jogo contra a Colômbia em Bogotá), quanto para a Copa do Mundo, foi montado pelo Professor Lamartine Pereira da Costa, um estudo inovador que veio a ser um dos principais trunfos da seleção na conquista do tricampeonato.

O curioso é que, para minha surpresa, excetuando o Gerson, nenhum jogador tinha conhecimento desta preparação. Isto me surpreendeu, pois, afinal de contas, a seleção brasileira passa a treinar ao meio-dia (horário em que seriam disputados os jogos no México) e já em território mexicano o time sobe para Guanajuato. Bem que Zagallo tentou mudar isto, mas foi impedido pelas broncas de Lamartine e João, que sugeriu a ele, ironicamente, que levasse o time para Acapulco.

Em 2017 e neste mês de abril de 2020, Tostão, que me disse desconhecer esta preparação com sua honestidade e coerência costumeiras, citou tudo isto em belas crônicas depois de ter algumas conversas comigo ao telefone, ouvindo atentamente estes relatos 3 anos antes.

Em janeiro de 1970, Lamartine Pereira da Costa, João Saldanha e Cláudio Coutinho reuniram-se no sopé do Pão de Açúcar, numa churrascaria que ali existia, para alinhavar os detalhes da sequência deste trabalho.

O relacionamento de Saldanha com estes profissionais, que aprovou e incentivou durante todo o tempo de sua permanência no cargo, foi pontilhado por alguns atritos, com exceção de Adolfo Milman – o Russo, seu parceiro e amigo de longa data. A maior parte dos integrantes da comissão, não comungava da visão de mundo de Saldanha e, tampouco, de suas concepções sobre o futebol. No caso do corte do atacante do Santos, Toninho Guerreiro, João incompatibilizou-se, definitivamente, com o médico Lídio Toledo.

O próprio Toninho declarou algum tempo depois: “… foi um absurdo. O Saldanha caiu porque disse que o Presidente mandava no Ministério e ele na Seleção, mas não evitou a chamada do Dario. Arranjaram uma sinusite para mim, mas eu era cem vezes melhor que o Dario”. (Futnet).

Mas não foi só por isto que João foi escanteado. Em novembro de 1969, quando seu amigo de longa data e ex-companheiro de PCB Carlos Mariguela foi assassinado pela ditadura militar em São Paulo, João sai do sério, põe a boca no mundo e, em viagem que fazia ao exterior, concede entrevista a vários jornais da Europa e América Latina.

Ouçam esta passagem do Roda Viva:

João, sem perder a coerência, em sua defesa do craque, do talento, convoca no lugar de Toninho o meio-campo Zé Carlos do Cruzeiro, que formava, com Dirceu Lopes, Tostão, Piazza, Natal e outros, aquele timaço da raposa do final dos anos 1960. Com a queda de João, Zagallo convoca Dario, cortando pouco mais tarde Zé Carlos.

Dario não jogou nem um segundo na Copa, ficando clara a bajulação de Mário Jorge.

Analisando a composição da comissão técnica, salta aos olhos a ingenuidade de João Saldanha ao incluir apenas Russo como profissional de sua confiança. Certamente faltou um Renato Estelita, amigo pessoal de João e diretor do Botafogo nos anos de 1956 e 1957.

O desdobramento dos fatos na Copa do México e o passar dos anos, só comprovam tudo isso. Em nenhum momento Zagallo, Parreira e outros reconheceram publicamente os méritos de João na montagem do time tricampeão.

As Eliminatórias A chave do Brasil para as eliminatórias apontava como adversários Colômbia, Venezuela e Paraguai em jogos de ida e volta. A estreia da seleção ocorre no dia 6 de agosto de 1969, Bogotá, com vitória do Brasil por 2 a 0, dois gols de Tostão. Para este jogo a Seleção passa por um período de adaptação a altitude de Bogotá, chegando com 20 dias de antecedência ao local do jogo. Começava a ser posto em prática com sucesso o planejamento de Lamartine Pereira da Costa e, em paralelo aos acertos de João Saldanha na escalação e condução do time, os jogadores apresentavam um bom preparo físico.

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo) (Paulo César Caju) [Botafogo], Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos). Colômbia – Largacha, Segrera, O. Lopez, Castro, Segovia, Garcia, Agudelo , Tamayo, Gallego (Santa), Ortiz, Brand. Gols: Tostão (2)

Saldanha manteve praticamente o mesmo time durante os seis jogos das eliminatórias. As substituições realizadas, obedeciam a variações do desenvolvimento tático dos jogos e pequenas contusões. Mudanças mais importantes, somente no inicio de 1970.

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O segundo jogo contra a Venezuela no dia 10 de agosto em Caracas, foi fácil. 5 a 0. Três gols de Tostão e dois de Pelé. Nesta partida, durante o primeiro tempo, o time passeia em campo de sapato alto, indo para o intervalo com o placar em branco. Aqui podemos saborear mais uma das tiradas de João e sua presença como técnico. Através de citação do site oficial da CBF, podemos conhecer um pouco mais do nosso personagem.

“A diferença técnica entre as duas Seleções era muito grande, o que apontava para uma vitória de goleada do Brasil. Só que o time não conseguiu se encontrar no primeiro tempo, jogou um futebol abaixo de suas possibilidades, e por isso a expectativa de muitos gols se viu frustrada no 0 a 0 com que o jogo se encerrou na primeira fase.

À beira do campo, furioso com a atuação da equipe, João Saldanha esperava impaciente que os jogadores se dirigissem ao vestiário. Quando isso aconteceu, encontraram a porta fechada – as chaves estavam nas mãos de Saldanha, que foi logo gritando.

– Não vou dar instrução nenhuma. Para jogar esse futebolzinho que vocês jogaram, nem adianta. Voltem lá e façam o que vocês sabem!

Os jogadores reagiram. Argumentando que precisavam beber água, utilizar o banheiro, insistiram para Saldanha abrir o vestiário.

– Não tem água, não tem nada! No vestiário ninguém entra – falou Saldanha. O time voltou direto para o campo, como confirma o capitão Carlos Alberto Torres.

– Ele não abriu mesmo, apesar dos pedidos. Ainda disse que os venezuelanos não jogavam nada e que a gente tinha obrigação de vencer por goleada”.

Dos jogos das eliminatórias, já se sabia que o mais difícil, o mais tenso seria contra o Paraguai, em Assunção, marcado para 17 de agosto de 1969. Com atuação irrepreensível, o Brasil venceu por 3 a 0, todos os gols no segundo tempo, impondo-se em campo tática e tecnicamente. Além de Gérson, os destaques da partida foram Jairzinho e Edu, em sintonia com o bom posicionamento da defesa, onde Djalma Dias cumpriu jornada de craque.

Os jogos das eliminatórias no Brasil 6 x 2 contra a Colômbia. 6 x 0 contra a Venezuela. 1 x 0 contra o Paraguai. Os três jogos disputados no Brasil pelas eliminatórias para a Copa de 1970, não apresentaram qualquer risco. O último jogo contra o Paraguai registrou o maior público pagante da História do Maracanã – 183.341 pessoas.

Nestas três partidas, destaque para a atuação do meio-campo e do artilheiro Tostão, provando com sua categoria que poderia sim, perfeitamente, ser titular ao lado de Pelé.

Saldanha volta à imprensa Percebendo que sua demissão era questão de dias, João aceita convite das Organizações Globo para voltar à imprensa esportiva. Rádio, Jornal e Televisão. Esta decisão motivou reações, pois o técnico quando assumira a seleção se desincompatibilizou de seus empregos na imprensa. “Quando vi que o prato estava fervendo, e recebi o convite da Globo, não pude deixar de aceitar, pois não posso viver sem trabalhar”. Os jogos contra a Argentina

Dando continuidade aos treinamentos para a Copa do Mundo, Saldanha, antes de sua saída dirige o time em dois amistosos contra a Argentina. No primeiro, em 04/03/1970, no Estádio Beira-Rio em Porto Alegre, a seleção brasileira esteve irreconhecível, perdendo por 2 x 0. João, em crônica para O Globo, foi taxativo:

“Penso que a vantagem de dois “gols” foi normal numa partida de domínio nítido. Fica secundária a maneira como os “gols” aconteceram. De qualquer maneira deve ter sido grata aos torcedores brasileiros a atuação de dois estreantes: Ado e Marco Antônio, exatamente em duas posições que há muito vem preocupando todos nós. O mais importante é que eles apareceram bem, numa partida desfavorável. Finalizando, acrescento que com 4-2-4 (que me desculpem os senhores Abílio de Almeida, Zezé e Desiderati e demais dirigentes do clube), não dá para ganhar nem do São Cristóvão.

Na véspera do jogo contra a Argentina em Porto Alegre, um repórter, microfone em punho, perguntava a Saldanha se ele sabia que Médici aprovaria a convocação de Dario, ou melhor, que o Presidente aplaudiria a convocação de Dario. A resposta de João Saldanha já é conhecida. “Não fui chamado a opinar sobre seu ministério, não aceito que opine sobre meu time”.

No segundo jogo contra a Argentina no dia 08/03/70, Maracanã, vitória do Brasil por 2 x 1.

Após o jogo, destacando a atuação do time, Saldanha declarou que o Brasil vencera facilmente por 2 x 1. Em crônica publicada no Globo, João realçou as atuações de Brito e Fontana, Carlos Alberto e Gérson, destacando o fato de Pelé ter jogado debilitado por uma gripe e ainda assim, com a marca do gênio, feito um golaço, o gol da vitória. Treino é treino, jogo é jogo. A última bronca que João foi obrigado a dar como técnico da seleção, ocorreu quando a Federação de Futebol, com o presidente á época Otavio Pinto Guimarães, recusou ceder o Maracanã para o jogo treino contra o Bangu que acabou sendo realizado em Moça Bonita em 14/03/70. “Foi muito triste passar na porta do Maracanã fechado e termos de ir à Bangu treinar. E se não fosse a compreensão dos banguenses teríamos de ir para o Aterro da Glória”. (Crônica de João, 16/03/70).

O coletivo contra o Bangu terminou em 1 x 1 e foi tratado por setores da imprensa como um jogo oficial. A frase de Didi: “Treino é treino, jogo é jogo”, foi esquecida por muitos.

Dia 17 de março, logo após o treino no Clube Itanhangá, Rio de Janeiro, Saldanha anunciava a escalação de seu time para o próximo amistoso, desta vez contra o Chile no Morumbi. O desfecho é conhecido. João Havelange convida toda a comissão técnica para uma reunião na sede da CBD, quando anunciou que a comissão técnica estava dissolvida. Saldanha, protestou, “não sou sorvete para ser dissolvido, o senhor quer dizer que eu estou demitido?”. Estava. Na verdade, apenas João e Russo, os demais poupados, fazendo uma triste figuração no ato da demissão de João. O técnico das feras publica os artigos: “Os fumantes e Por que eu saí”, no Jornal O Globo, dia 17 e 24 de março de 1970.

Nelson Rodrigues, amigo e admirador de Saldanha, certamente, o principal defensor na imprensa da escolha de João para técnico, publica em 19 de março de 1970, “Guerra Suja, Tão Suja”, no O Globo.

Os três últimos parágrafos de Nelson são irretocáveis: “Já ensaiei uma explicação. Mas repito: – “Por que, por quê? O Salim Simão explica-me que Saldanha tornara-se poderoso demais. Ele, sozinho, com a sua figura folclórica, as suas broncas lendárias, os seus brios flamejantes – ele era maior do que a CBD, do que as federações, do que as forças ostensivas ou obscuras que manipulavam o nosso futebol. e as invejas, as vaidades, as frustrações, os rancores – não podiam admitir que ele fosse maior do que uma estrutura laboriosamente criada e mantida. E ainda seria muito maior e muito mais forte se voltasse com o caneco de ouro. Teria então meios de transformar a nossa realidade esportiva.

Mas vejam: – seu primeiro dever era a classificação; e ele o cumpriu. O segundo dever era a conquista do título. Parentes, figuras da imprensa, do rádio e da televisão se uniram para frustrá-lo no seu maravilhoso esforço final. Exigiram que ele se deixasse massacrar sem um gemido. Rolou a cabeça do “João Sem Medo”. E, agora, queremos mais do que nunca o caneco.

Ah, foi uma guerra suja de tantos contra um só. Guerra digna do nosso vômito”. (O Globo, 19/03/1970).

Nestas poucas páginas com anotações sobre a sua vida uma conclusão que o tocava. Casou-se cinco vezes. Hilda, Ruth, Thereza, Maria Silvia e Heloisa. Com Hilda teve as filhas Vera e Sonia, com Ruth os filhos Ruth e João.

Vida que segue.

Escalações dos jogos oficiais da seleção brasileira sob o comando de João Saldanha

Amistoso: Brasil 2×1 Peru 07/04/1969 – Local: Beira- Rio – Porto Alegre Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Brito (Vasco), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Dirceu Lopes (Cruzeiro), Pelé (Santos), (Edu) [Santos], Tostão (Cruzeiro).

Peru – Sartor, Fernandez, De la Torre, Chumpitaz, Gonzalez – Zegarra (Ramirez), Mifflin, Cubillas (Challe) – Baylon, Perico Leon (Muñante), Gallardo.

Árbitro – A. Tejada(PER)

Gols: Jairzinho, Gallardo, Gérson.

Amistoso: Brasil 3×2 Peru 09/04/1969 – Local: Maracanã – Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Brito (Vasco), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro) (Joel Camargo) [Santos], Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro) (Paulo César Caju) [Botafogo], Pelé (Santos), Dirceu Lopes (Cruzeiro) (Edu) [Santos].

Peru – Sartor, Pedro Gonzalez, De la Torre (José Fernandez), Chumpitaz, José Gonzalez – Mifflin, Cubillas, Perico Leon – Baylon, Casareto (Barreto), Gallardo (Ramirez).

Árbitro: A.Tejada(PER)

Gols: Gallardo, Baylon, Pelé, Tostão, Edu.

Expulsos: Gérson (Bra) e Pedro Gonzalez (Per)

Amistoso: Brasil 2×1 Inglaterra 12/06/1969 – Local: Maracanã- Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Gilmar (Santos), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Clodoaldo (Santos), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos) (Paulo César Caju) [Botafogo].

Inglaterra – Banks, Wright, Labone, B. Moore, Newton, Mullery, Bell, A. Ball, B. Charlton, Hurst, Peters.

Árbitro: R. Barreto(URU)

Gols: Bell, Tostão, Jairzinho.

Eliminatórias Brasil 2x 0 Colômbia 06/08/1969 – Local: Estádio Nemésio Camacho – Bogotá

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo) (Paulo César Caju) [Botafogo], Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Colômbia – Largacha, Segrera, O. Lopez, Castro, Segovia, Garcia, Agudelo , Tamayo, Gallego (Santa), Ortiz, Brand.

Árbitro: A.Tejada (Per)

Gols: Tostão (2)

Brasil 5×0 Venezuela 10/08/1969 – Local: Estádio Universitário – Caracas

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto (Santos), Djalma Dias (Atlético-Mineiro), Joel (Santos), Rildo (Santos), (Everaldo) [Grêmio], Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Venezuela – Garcia, David, Freddy, Sanchez, Chico, Pedrito, Antonio (Raffa), Iriarte, Mendoza, Usecha, Nitti (Guimarães).

Árbitro: E.Rendón (Equador)

Gols: Tostão, Pelé, Tostão, Tostão e Pelé

Brasil 3×0 Paraguai 17/08/1969 – Estádio Puerto Sajonia – Assunção

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Dias (Atlético Mineiro), Joel Camargo (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Paraguai – Aguilera, Molinas, Bobadilla, S. Rojas, Mendonza, Colman (Arrua), Valdez, Martinez, Herrera, P. Rojas, Jimenez (Mora)

Árbitro: D. Massaro (Chi)

Gols: Mendonza (contra), Jairzinho, Edu

Brasil 6×2 Colômbia 21/08/69 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto (Santos), Djalma Dias (Atlético-Mineiro), Joel (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), (Rivellino) [Corinthians], Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), (Paulo César) [Botafogo], Edu (Santos).

Colômbia – Lagarcha (Quintana), Segóvia, Soto, Segrera, Castro, Alvarez, Agudelo (Sanchez), Ramirez, Gallego, Mesa, Santa.

Árbitro: M.Comesana(Arg)

Gols: Tostão, Mesa, Tostão, Edu, Pelé, Rivellino, Jairzinho, Gallego.

Brasil 6×0 Venezuela 24/08/1969 – Estádio: Maracanã- Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), (Lula) [Corinthians], Carlos Alberto (Santos), Djalma Dias (Atlético-Mineiro), Joel (Santos), (Brito) [Vasco], Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Venezuela – Fazzano, David, Freddy, Sanchez (Zarzalejo), Chico, Naranjo, Usecha, Curro (Mendoza), Antonio, Nitti, Iriarte.

Árbitro: A.Ortube(Bol)

Gols: Tostão, Tostão, Tostão, Jairzinho, Pelé , Pelé.

Brasil 1×0 Paraguai 31/08/1969 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Félix (Fluminense), Carlos Alberto (Santos), Djalma Dias (Atlético-Mineiro), Joel (Santos), Rildo (Santos), Piazza (Cruzeiro), Gérson (Botafogo), Jairzinho (Botafogo), Tostão (Cruzeiro), Pelé (Santos), Edu (Santos).

Paraguai – Aguillera, Enciso, Bobadilla, Sergio Rojas, Mendoza, Sosa, Pablo Rojas, Ivaldi (Valdez), Ocampo, Benício Ferreira e Jimenez.

Árbitro: R.Barreto (Uru) Gol: Pelé

Amistoso: Brasil 0x2 Argentina 04/03/1970 – Local: Beira-Rio-Porto Alegre

Escalações: Brasil – Ado (Corinthians), Carlos Alberto (Santos), Baldochi (Palmeiras), Fontana (Cruzeiro), Marco Antônio (Fluminense), Gérson (São Paulo), Piazza (Cruzeiro) (Zé Carlos) [Cruzeiro], Jairzinho (Botafogo), Dirceu Lopes (Cruzeiro), Pelé (Santos) e Edu (Santos).

Argentina – Cejas, Malbernat, Perfumo, Rogel, Díaz, Madurga, Pastoriza, Brindisi, Conigliaro, Fischer e Mas.

Árbitro: A.Marques(Bra)

Gols: Mas, Conigliaro A

mistoso: Brasil 2×1 Argentina 08/03/1970 – Local – Maracanã – Rio de Janeiro

Escalações: Brasil – Leão (Palmeiras), Carlos Alberto (Santos), Brito (Flamengo), Fontana (Cruzeiro), Marco Antônio (Fluminense), Piazza (Cruzeiro) (Clodoaldo) [Santos], Gérson (São Paulo), Jairzinho (Botafogo), Dirceu Lopes (Cruzeiro), Pelé (Santos) e Edu (Santos) (Paulo César) [Botafogo].

Argentina – Cejas (Santoro), Malbernat, Perfumo, Rogel, Díaz, Brindisi, Pastoriza, Madurga, Conigliaro, Fischer (Onega) e Mas

Árbitro: A.V.Moraes(“Sansão”)(Bra)

Gols: Jairzinho, Brindisi e Pelé.

João Saldanha por Zuca Sardan.

Raul Milliet Filho é Historiador, criador e editor responsável deste blog, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. Autor de “Vida que segue: João Saldanha e as copas de 1966 e 1970” e do artigo “Eric Hobsbawm e o futebol”, dentre outros. Dirigiu os documentários: “Quem não faz, leva: as máximas e expressões do futebol brasileiro” e “A mulher no esporte brasileiro”.

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3 comentários

  1. Excelente.
    Nos dias de hoje, com este futebol que se joga por aí, com estes protótipos de técnico sendo chamados de “professor”, não sei como se encaixaria o João.
    Quanto a apagar da memória, já ocorre, quase ninguém sabe quem foi João Saldanha, assim como já existem jovens que não sabem quem foi o Pelé.

  2. Que lindo artigo que tanto nos ensina e faz recordar essa figura única, um dos primeiros (e poucos…) ídolos que tive em minha vida, pela sinceridade intrínseca que nele víamos, em cada palavra, gesto, olhar, expressão corporal: João Saldanha! E além dessa característica marcante, essa “honestidade em mostrar o que era de modo cru, natural e corajoso”, era absurdamente genial quando se tratava de retratar a verdade havida em um jogo de futebol. Quem ouvia um jogo pelo rádio, nas décadas se 60 e 70, “via o jogo”, sabia como tinha sido, simplesmente ouvindo os comentários do Saldanha. Os outros falavam meio que obviedades, mas nunca com a clareza, o nível de conhecimento e realidade daquele jogo específico que Saldanha trazia aos ouvintes, até o óbvio, nele, era diferente e assim era transmitido, os comentários banhados em uma inteligência brilhante, que não perdia um milímetro sequer, a capacidade de se manter popular. Do peão de obra ao magnata, todos compreendiam o que Saldanha queria passar.
    .
    O modo (na maioria das vezes elegante e sutil, apesar do que dizem da “força de sua personalidade…) como desconcertava colegas jornalistas ou técnicos de futebol convidados aos programas esportivos na Televisão, era acachapante! Não porque usava um duro nas palavras, ou expressões verbais ou corporais de arrogância e desprezo, como fazem alguns dos nossos jornalistas esportivos de hoje, às vezes num show de grosseria desnecessário e até incivilizado, desrespeitoso, João Saldanha “diminuía o outro, sem querer!”, sua intenção era não “desmascarar a pessoa” que fizera um comentário tolo, mas DESMASCARAR A TOLICE DITA, trazer a verdade, sobre um jogo, um time, um jogador, uma tática, qualquer coisa enfim, ligada à sua paixão maior junto à luta política: o futebol!
    .
    Como nunca mais teremos um Garrincha, visceral e único em “sua verdade” – jogar futebol daquele jeito que só ele soube e ninguém mais saberá… – nunca mais teremos um João Saldanha, se pensamos nos critérios inteligência muito acima do normal na hora de enxergar e comentar sobre esse esporte, e o jeito único, que ninguém jamais chegou perto, de “tornar o profundo, aquilo que só você vê”, palpável aos olhos de nós, pobres mortais.
    .
    Que eu me lembre foi a única vez que chorei e tomei um porre de tristeza e sensação de perda pela morte de um figura pública: em 1990, aos 30 anos, quando João Saldanha nos deixou.
    .
    Saudade imensa do “João sem medo”. Às vezes, me divirto entre sorrisos melancólicos vendo a mídia esportiva de hoje, e me perguntando: “o que diria deles e a eles, o Saldanha, se estivesse ainda entre nós…?”
    .
    Um gênio natural, honesto, popular, sofisticado sem que isso fosse escancaradamente notado, corajoso. Alguns dos adjetivos que nos ajudam a lembrar quem foi esse ser humano, esse jornalista tão único: João Saldanha.

  3. Um belo artigo… presente para os admiradores! Em 1990, tinha 21 anos… também chorei… Viva o João! Viva o caráter!Viva a democracia!

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