O bolsonarismo e a autodestruição do Estado brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Enquanto a direita fragiliza o Estado, a esquerda perde a oportunidade que lhe foi dada para a ajudar a enterrar de vez seu inimigo

O bolsonarismo e a autodestruição do Estado brasileiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

As encenações de racismo patrocinadas pela classe alta, o desprezo pela liberdade religiosa outorgada aos Bispos católicos, o constrangimento imposto ao Vaticano pela ABIN, a tortura de um jornalista pela milícia e a evidente incapacidade de Jair Bolsonaro de governar sem encenar um espetáculo macabro de vitimização pessoal no Hospital Albert Einstein poderiam render um bom artigo. Mas hoje quero debater outro assunto. Mas antes de fazer isso peço ao leitor que preste a atenção no texto abaixo transcrito. 

“Uma ideologia séria contém uma série de verdades. Seu grande interesse consiste exatamente em que pode referir-se ao poder de convicção dos fatos, a experiências comprovadas e a previsões cumpridas. Toda ideologia apela para a crença, e toda crença ilude, quando não é ajudada por provas. As ideologias não são meras bombas explosivas e de mau cheiro que os partidos atiraram uns nos outros na luta política. Pelo contrário, nelas são formuladas posições que realmente se encontram na realidade social e frentes que realmente se formam. Que sejam formuladas de maneira correra, fatual ou, pelo menos, não insustentável está no interesse daqueles que as formulam. Do ponto de vista teórico, pode mesmo afirmar-se que o conhecimento dos contextos sociais foi impulsionado radicalmente pelas ideologias. O fato de que isso tenha ocorrido de forma antitética reside na própria natureza da coisa.” (Teoria da Época Atual, Hans Freyer, Zahar editores, Rio de Janeiro, 1965, p. 106)

Até o advento da eleição de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil, a esquerda norte-americana e brasileira estavam adaptadas à disputa política realizada com base em formulações ideológicas que faziam referência a verdades factuais que podiam ser compartilhadas por seus adversários. A vitória de uma ideologia que é baseada apenas em crenças e não em fatos desorientou a esquerda. Esse é um ponto importante.

O outro é ainda mais delicado. Como a disputa antitética não se dá mais com base em ideologias baseadas em fatos e sim em crenças, independentemente delas serem ou não insustentáveis, a questão se coloca para a esquerda é paradoxal: Até que ponto a nova técnica de obtenção e de conservação do poder político utilizado pela direita coloca em risco as instituições públicas e o próprio Estado?

Historicamente, as esquerdas sempre trabalharam dentro da legalidade capitalista com o intuito de ampliar seus limites (social-democratas) ou de a substituir por outra legalidade (comunistas e socialistas). Até bem pouco tempo, os ideólogos de direita se esforçavam para conservar o Estado e o capitalismo contra a ação deletéria e/ou desagregadora das ideologias que eles consideravam perigosas para a perpetuação da propriedade e dos entes políticos construídos para envolvê-la e defendê-la.

Ao substituir sua própria ideologia por um sistema de crenças religiosas e irracionais que rejeita a verdade factual e nega até mesmo que eles existam ou possam ser compartilhados, a direita pós moderna abandonou os fundamentos que garantiam a solidez do Estado moderno. Enquanto a direita fragiliza o Estado, a esquerda perde a oportunidade que lhe foi dada para a ajudar a enterrar de vez seu inimigo ideológico tradicional (o Estado capitalista). Muito pelo contrário, confundida por um inimigo que não se move mais num campo de disputa conhecido – aquele referido por Hans Freyer – a esquerda passou a defender a racionalidade do Estado como se ele pudesse ser considerado um fim em si mesmo a ser conservado.

Desde que Dilma Rousseff foi deposta a imprensa tem insistindo para a esquerda fazer autocrítica. Creio que a esquerda realmente deve fazer isso, mas não para dar aos seus inimigos argumentos que eles possam utilizar na guerra política. Muito pelo contrário, a esquerda deve fazer sua autocrítica levando em conta as oportunidades criadas pela direita que não estão sendo aproveitadas. Se fanfarrões como Trump e Bolsonaro conspiram contra os fundamentos ideológicos do Estado capitalista, não compete à esquerda defendê-los.

Ordem: o Estado foi criado para mantê-la dentro de um determinado território. Ele é incapaz de subsistir ao caos que a direita está criando ao governar como se nada pudesse ser encontrado na realidade social. O desconhecimento ou o desprezo pelos contextos, que sustentavam e podiam ser sustentados através de um Estado disputado de maneira racional, impulsionado pela pós-ideologia do clã Bolsonaro deve ser estimulado pela esquerda. Nesse momento, mais do que em qualquer outro, os militantes socialistas e comunistas deveriam estar convictos de que o prêmio que os neoliberais pretendem encontrar no fim do Arco Iris não será um Pote de Ouro e sim uma Caixa de Pandora.

O Estado cujos fundamentos estão sendo fragilizados pela ideologia neoliberal baseada em crenças irracionais, religiosas e exotéricas (e não em fatos) será capaz de resistir ao último assalto dos revolucionários? Essa é a verdadeira pergunta que deveria orientar as ações práticas dos partidos de esquerda nesse momento.

5 comentários

  1. O problema caro Fábio, é que a esquerda não tem projeto para além de uma social-democracia ou de um estado socialista. Seria necessário uma nova sociedade, inclusive sem trabalho abstrato, que está sendo substituído por máquinas (eis a razão da crise do capitalismo mundial).
    Uma comunidade ou conjunto de comunidades autogeridas, igualitárias, sem trabalho, nas quais as atividades sejam repartidas de comum acordo, com tempo livre e sem necessidade de um mercado se faz urgente.
    A técnica e a ciência que temos hoje possibilitaria abundância material (desde que não consumista), com tempo livre e sustentabilidade ecológica. Mas nós somos culturalmente capitalistas, não conseguimos nem imaginar uma sociedade sem mercado, dinheiro e trabalho abstrato.

    • Discordo quando diz que a esquerda não tem projeto, ha não ser um socialista, acontece que no Brasil, temos um povo, fragilizado, escravizado e principalmente, ignorante com relação a seus direitos e deveres, diria até mais ignorante com relação a seus direitos. Não se constrói um prédio sem uma base sólida e pra conseguirmos uma sociedade, justa, honesta e cidadã, devemos realmente focar no social, a fim de igualarmos se não em posses, mas em conhecimentos, ricos e pobres, cientes e conscientes. Acredito que o grande erro da esquerda foi acreditar que conseguiria desenvolver um projeto social dessa magnitude, semva interferência da elite, elite essa acostumada, as melhores escolas, melhores empregos, melhores comidas etc, não se mantém um milharal bonito e farto, jogando migalhas aos porcos!!!

  2. Fábio Ribeiro, sua análise critica e não fundamentada é muito superficial pelo tema abordado “O bolsonarismo e a autodestruição do Estado brasileiro”. Autodestruição é um mecanismo próprio e com vida para a qualquer momento se destruir. Quando vc fala sobre não ter fatos, ou provas que sustentem o que você chama de Bolsonarismo, vejo que a próprias ações que o governo está fazendo para concertar os desvarios da esquerda, já fundamentam o papel do novo governo de direita. O que a esquerda fez, foi pegar uma casa que já não estava em boas condições, precisando de reformas urgentes e emergenciais, e usar mal esta casa, inclusive mexendo na estrutura, nas fundações, nas finanças, nas portas, nos muros, amparados pelo desleixo e pela cultura socialista e comunista, abrasileirada do tô nem ai. Quando vem uma direita, que não precisa provar nada, basta olhar o estrago da casa, e diz que está disposta a arrumar esta casa, e colocar massa, reboco, muros, portões, janelas que foram saqueadas, pelo antigo morador, vem uma esquerda medíocre em conjunto com uma imprensa mais medíocre ainda, torcendo contra o governo de direita. Saiba que o Bolsonarismo está sendo levantado pela própria esquerda, pela sua ineficiência e práticas ilegais e até mesmo imorais. Não acho que a esquerda tem que fazer uma alto-critica, para retomar seus valores ideológicos, mas sim deve fazer uma crítica severa, de quem foi a culpa de tanto desmando e arruinamento de uma nação, e até mesmo da perda dos princípios ideológicos que a nutre. A esquerda e sua ideologia, já não cabe a modernidade deste mundo, o sistema de esquerda e sua ideologia tornou-se obsoleto. não tem mais volta. O povo não só no Brasil acordou, e vê como prioridade uma melhor relação entre Estado e povo. Tanto faz para o povo se é de direita ou esquerda, mas desde que seja eficiente para o povo a sua governança. Os resultados das urnas está mostrando que, políticos com uma vida suja, estão com seus dias contados, e para o povo que hoje tem muita força nas redes sociais, nem mesmo o STF está a salvo. Existe uma mobilização social outorgada pelo povo, e possui muita força, como instrumento de voz e de mudança em todas as esferas.

    • hahahahaha
      Vc está alienado, não é possível!
      “Os resultados das urnas está mostrando que, políticos com uma vida suja, estão com seus dias contados, e para o povo que hoje tem muita força nas redes sociais, nem mesmo o STF está a salvo.”
      E Bozonazi é o que? Não é um corrupto de marca maior? O stf (e o judiciario no geral) não está a salvo? Em qual país, na Dinamarca? Pq aqui estão, e muito bem, salvos. Estão aí Gilmar Mendes e Moro que não nos deixa mentir. Agem CONTRA a constituição e NADA, absolutamente NADA ACONTECE COM ELES. Como disse um juiz dos EUA: se fizessem 1/3 do que fizeram isso aqui, seriam presos e julgados por traição a nação. E apodreceriam na cadeia.
      Por favor, leia mais e se informe mais. A realidade é bem mais dura do que vc tem visto.
      Um Abraço

  3. O tema do post deveria estar em todas as discussões sobre o futuro do Estado e da sociedade civil. Entendo que a fuga da realidade era a única estratégia do capital para voltar ao poder ou ali permanecer. A crise permanente do sistema econômico está produzindo rupturas no tecido social e nas instituições. A esquerda deve abandonar a crença no futuro desse sistema, caso contrário afundará junto com ele.

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