O dilema do PSDB: social democracia ou direita?

Artigo do Brasil Debate

Por Ricardo L. C. Amorim e Keila C. G. Rosa

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) nasceu quando o PMDB deixava de representar a aliança contra a ditadura e transformava-se, aos poucos, em uma força política indefinida. Naquele fim dos anos 1980, quando nasceu, o PSDB personificou a esperança de organizar uma alternativa social democrata em meio ao conjunto das forças políticas que emergiam no país. Suas alianças e estratégia permitiram que, já em 1994, o partido chegasse à Presidência da República com a promessa de dar continuidade ao Plano Real, fundamental esforço de combate a inflação.

O controle de inflações elevadas, todavia, implica em custos e redistribuição de renda. O governo do PSDB escolheu, então, os perdedores, os que pagariam a conta: os trabalhadores[1]. Foram os anos de liberalização da economia com abertura comercial (sem contrapartidas), privatização de empresas (em processos questionados), redução do papel do Estado (desarticulando e minando órgãos) e ênfase sobre a regulação (enfraquecendo políticas estratégicas de Estado).

O capital, por sua vez, pouco sofreu, pois o Governo Federal propôs uma rota de fuga para a multiplicação do dinheiro. Foi o período das incrivelmente elevadas taxas de juros, onde a compra de um papel da dívida pública garantia alto rendimento com baixíssimo risco. A liquidez necessária aos ativos para serem aplicados no mercado financeiro foi conseguida, muitas vezes, com a venda de empresas nacionais ao capital estrangeiro.

Além desse receituário inspirado no Consenso de Washington, outras medidas aumentaram a distância do PSDB em relação à população menos abastada: o partido raro conversou com as organizações populares, os pobres foram pouco aquinhoados no orçamento da União, o governo aliou-se à direita mais conservadora (o Democratas, ex-PFL que, antes, foi PDS e ARENA) e, por fim, emendou a Constituição no capítulo econômico, extinguindo qualquer viés nacionalista.

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Como prêmio pela ajuda aos capitais nacionais e estrangeiros, o governo do PSDB recebeu apoio da imprensa nacional que, mesmo quando denunciava problemas, não aprofundava a investigação e tendia a esquecer rápido cada acusação[2].

Em 2002, todavia, outra força política ganhou as eleições ao encarnar a esperança na retomada do crescimento econômico e na melhor distribuição de renda no país. Nos anos seguintes, programas redistributivos foram melhorados e ampliados, o salário mínimo cresceu significativamente, cessaram as privatizações e os investimentos públicos foram retomados. O setor externo facilitou a tarefa, pois a valorização das commodities exportadas gerou divisas suficientes para controlar, através de importações, qualquer pressão inflacionária.

O cenário favorável ao novo governo acuou a oposição peessedebista que, sem projeto político alternativo, passou a gritar o samba de uma nota só: corrupção, corrupção, corrupção. Era o início do período lacerdista do PSDB, a inesperada aflição de refundar o comportamento da velha UDN que acusava Getúlio Vargas de administrar um “mar de lama”. O contraditório era que o PSDB acusador também era acusado de ter seu próprio “mar de lama”[3].

Em 2010, o PSDB abraçou explicitamente o moralismo da velha UDN. Naquele ano, José Serra (PSDB) enfrentou Dilma Rousseff (PT) pela Presidência da República. Ali, a guinada conservadora do partido impressionou pelo uso de símbolos religiosos e partidarização de temas caros aos fiéis evangélicos e católicos. A escolha feita pelo PSDB, naquele momento, afastou-o de mais elementos primários da social democracia. Agora, o partido descuidava da defesa do Estado laico.

Do mesmo modo, a recente eleição de outubro de 2014 reforçou a opção do PSDB de afastar-se da social democracia e trouxe, também, uma preocupação: o partido encarnou, para parte dos eleitores, uma alternativa conservadora e de direita no cenário político brasileiro. O motivo estava nas escolhas. Por exemplo, o PSDB continuou buscando apoio de figuras conservadoras do pensamento religioso, não se aproximou dos movimentos sociais, o programa de governo destacou a regulação e as funções liberais do Estado, o candidato cercou-se de economistas neoliberais, arrecadou o apoio do setor financeiro entre outras escolhas.

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A imagem do candidato do PSDB, então, atraiu os insatisfeitos com o atual governo, mas principalmente os radicais de direita, muitos deles sem qualquer noção sobre o funcionamento da política, da economia ou da história do país, mostrando o lado para o qual pendia a candidatura.

Nesse ambiente, o PSDB, ao solicitar uma auditoria sobre a eleição presidencial, lançou uma nuvem de suspeita sobre o processo eleitoral e o Tribunal Superior Eleitoral. O pedido atendeu aos reclamos dos descontentes com o resultado da eleição e jogou gasolina sobre a brasa dos grupos de extrema direita. Aparentemente, a intenção limitou-se a agradar esses grupos para mantê-los ativos em ataques ao Governo Federal, como linha de frente da batalha política que se anuncia.

Em resumo, o PSDB precisou assumir o apoio da direita e caminhar mais alguns passos na mesma direção, encarnando, no imaginário dos brasileiros, a ordem e o status quo, em oposição a projetos populares.

O resultado, portanto, foi que o PSDB saiu fortalecido das urnas em 2014, mas fortalecido à direita e não em nome da social democracia. O crescimento do partido é um fato para seus líderes comemorarem, mas pode revelar-se lamentável quando se recorda o discurso de sua fundação: um partido social democrata que deveria buscar a construção da justiça social em uma nação marcada pela desigualdade e pobreza, aplicando-se, portanto, na luta pela distribuição de oportunidades, poder e cultura[4].

Diante disso, o melhor para o Partido da Social Democracia Brasileira seria surgir um verdadeiro partido de direita no Brasil, a fim de não ser mais confundido como tal. Poderia o PSDB, então, resgatar seu programa social democrata e, na oposição, chamar para si a relevante tarefa de ajudar o Brasil a ser mais democrático, justo, empreendedor e laico.

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[1] Os trabalhadores sofreram, no período, as maiores taxas de desemprego já registradas no país. Na Região Metropolitana de São Paulo, a taxa de desemprego cresceu de 12,6%, em dezembro de 1994, para 20,4%, em abril de 2002.

[2] Esse comportamento da mídia nacional fica muito claro a partir dos números coletados pelo Prof. João Feres Junior (IESP/UERJ).Ver http://www.manchetometro.com.br/  .

[3] As acusações de compra de votos de parlamentares na emenda constitucional que permitiu a reeleição para cargos no poder executivo, as desconfianças de favorecimento nos processos de privatização de grandes empresas públicas e a condenação do banqueiro Salvatore Cacciola com problemas junto ao Banco Central são alguns dos casos mais famosos do período.

[4] O Programa Partidário aprovado no III Congresso Nacional do PSDB parece relativizar o documento de fundação de 1988. Ver: http://static.psdb.org.br/wp-content/uploads/2010/04/Programa_PSDB_2007.pdf

 

*  Ricardo Luiz Chagas Amorim é doutor em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp. Keila C. Gonçalves Rosa é mestre em Comunicação Social pela UnB. 

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11 comentários

  1. Belo texto mas muito intelectualizado:

    o PSDB é o partido da mídia “brasileira” (tanto quanto o é o B do PSDB) retrógrada e reacionária.

    Se tentar criar vida própria, mesmo a direita, será trocado por outra sigla.

    A preguiça do FHC, a baixeza do Serra, e as terríveis limitações de caráter do A. Neves já definiram o rumo do PSDB.

    R.I.P.

  2. Só o que encaixar no ego

    Só o que encaixar no ego desses mauricinhos midiáticos, ocos, incompetentes. Eles não são nada sem a mídia.

  3. E eu pensando que o unico

    E eu pensando que o unico dilema do PSDB estaria situado entre fazer e sair da moita…

    Falha nossa!

  4. ressalte-se o desejo expresso

    ressalte-se o desejo expresso no final do artigo.

    mas o psdb dos últimos tempos exagerou na dose extremista de direita(golpista),

    que agora será difícil, infelizmente, voltar ao que era.

  5. O PSDB é um excelente exemplo

    O PSDB é um excelente exemplo do que é essa ideologia bacharelesca da UDN, essa cultura nominal, que nega a realidade. O PSDB só é social e democrata no nome, na realidade são praticantes assíduos do golpismo e do individualismo sociopata do neoliberalismo.

  6. JOGAR TODOS OS PARTIDOS NA LATA DO LIXO E COPIAR EUA E INGLAT

    ahahahahahah…..o psdb sempre foi extrema direita e o pt direita como na china atual também social democrata como o pt e o psdb, como na Rússia e Europa…..sociais democratas são os socialistas e comunistas aliados ao capitalismo selvagem e predador global ferrando a bicharada lembrando o livro “A Revolução dos Bichos ” de George Orwell…..Fora com as ideologias todas politicas de socialismo, comunismo, nazismo, social democracia,etc.,pois ideologia alguma jamais respeitou a democracia e a liberdade e apenas repetem o império romano e os que mataram Jesus trocando somente de teorias ou crenças, de verdades absolutas, ou fundamentalismos, de deuses ou messias, céu ou paraiso, de santos ou profetas, mas todas as ideologias políticas ou religiosas com cúpulas espertas ludibriando as massas para terem trono, poder, reino, casta, feudo, boquinhas, tanto faz se como na idade média, cruzadas ou inquisição ou oriente médio atual, ou na urss, cuba, venezuela, coréia do norte, china ou no nazismo…..é tudo droga ou problema de saúde mental . Quando teremos finalmente partidos democratas de fato no Brasil e sem cúpulas agindo como igrejas socando crenças ou ideologias de cima para baixo e ao contrário refletindo as bases, as comunidades, os distritos, de baixo para cima e democráticos de fato ? Talvez devessemos fechar todos os partidos atuais ou jogar todos na lata do lixo e termos dois ou quatro partidos como nos Eua e Inglaterra…..Ou democrata e republicano como nos Eua ou Trabalhista e Conservador como na Inglaterra ou então como tudo no Brasil quatro partidos: Democrata, Republicano, Conservador e o Trabalhista. E até hoje as únicas democracias estáveis do planeta são as dos Eua e da Inglaterra onde nunca houve ditadura de ideologia alguma, seja religiosa ou política do nazismo, socialismo,comunismo, social democracia, etc.Seria as origens dos povos anglo saxônicos ? O lado pagão ? A influência nórdica quando das invasões dos vikings ? Do império romano ainda pagão ? Da rainha da inglaterra que graças aos deuses escapou da invasão da Espanha tentando converter todos ao catolicismo da inquisição,e fez aliança até com piratas para escapar da invasão ? E ela liberou os escritores em geral inclusive Shakespeare ? Ou influência dos druidas, celtas, gauleses ? Quero até pesquisar mais sobre isto, o porque os Eua e a Inglaterra até agora são praticamente as únicas democracias estaveis do planeta e se é ruim com eles seria muito pior o mundo sem eles. Eis a pura realidade ou verdade e temos que copiar o que tem de bom por lá.Afinal ainda não entramos sequer no século XX quanto mais no atual. ahahahahahah…..o psdb sempre foi extrema direita e o pt direita como na china atual também social democrata como o pt e o psdb, como na Rússia e Europa…..sociais democratas são os socialistas e comunistas aliados ao capitalismo selvagem e predador global ferrando a bicharada lembrando o livro “A Revolução dos Bichos ” de George Orwell…..Fora com as ideologias todas politicas de socialismo, comunismo, nazismo, social democracia,etc.,pois ideologia alguma jamais respeitou a democracia e a liberdade e apenas repetem o império romano e os que mataram Jesus trocando somente de teorias ou crenças, de verdades absolutas, ou fundamentalismos, de deuses ou messias, céu ou paraiso, de santos ou profetas, mas todas as ideologias políticas ou religiosas com cúpulas espertas ludibriando as massas para terem trono, poder, reino, casta, feudo, boquinhas, tanto faz se como na idade média, cruzadas ou inquisição ou oriente médio atual, ou na urss, cuba, venezuela, coréia do norte, china ou no nazismo…..é tudo droga ou problema de saúde mental . Quando teremos finalmente partidos democratas de fato no Brasil e sem cúpulas agindo como igrejas socando crenças ou ideologias de cima para baixo e ao contrário refletindo as bases, as comunidades, os distritos, de baixo para cima e democráticos de fato ? Talvez devessemos fechar todos os partidos atuais ou jogar todos na lata do lixo e termos dois ou quatro partidos como nos Eua e Inglaterra…..Ou democrata e republicano como nos Eua ou Trabalhista e Conservador como na Inglaterra ou então como tudo no Brasil quatro partidos: Democrata, Republicano, Conservador e o Trabalhista. E até hoje as únicas democracias estáveis do planeta são as dos Eua e da Inglaterra onde nunca houve ditadura de ideologia alguma, seja religiosa ou política do nazismo, socialismo,comunismo, social democracia, etc.Seria as origens dos povos anglo saxônicos ? O lado pagão ? A influência nórdica quando das invasões dos vikings ? Do império romano ainda pagão ? Da rainha da inglaterra que graças aos deuses escapou da invasão da Espanha tentando converter todos ao catolicismo da inquisição,e fez aliança até com piratas para escapar da invasão ? E ela liberou os escritores em geral inclusive Shakespeare ? Ou influência dos druidas, celtas, gauleses ? Quero até pesquisar mais sobre isto, o porque os Eua e a Inglaterra até agora são praticamente as únicas democracias estaveis do planeta e se é ruim com eles seria muito pior o mundo sem eles. Eis a pura realidade ou verdade e temos que copiar o que tem de bom por lá.Afinal ainda não entramos sequer no século XX quanto mais no atual.

  7. Concordo com a analise: clara

    Concordo com a analise: clara, sintética e objetiva. Tocou nos pontos chave

    Não é o foco da analise mas eu só acrescentaria que quem se diz “social democrata” são os oligarcas do partido. O corpo mesmo da organização – um carlos sampaio, por exemplo – não sabe nem o que quer dizer isso.

  8. Mas…ué!

    Sempre entendi que, mais que por opção, o PSDB foi forçado e continua a ser forçado a ir para a direita, e forçado pelo PT, que é o verdadeiro partido social-democrata no Brasil.

    Ou estou errando nisto? A pergunta não é retórica, é sincera.

    O PSDB já é de direita. 

    Para clarear as coisas, poderiam logo se fundir – ôpa, cometi ligeira aliteração nesta última palavra em minha mente, até que ficou engraçado – com outros à sua volta, escolher um nome representativo, tipo, sei lá, Partido Liberal Brasileiro, ou Partido Democrático, ou o que fosse, e assumir de uma vez que é de direita.

    Está ficando cada vez mais claro que o segundo governo Dilma não vai abandonar o espaço à direita que já conquistou, a composição do seu ministério mostra isto.

    A não ser que surja algo imprevisível e que portanto não dá para se contar, se continuar como está limitar-se-á a ficar fazendo papel de pernilongo no Congresso, conseguindo com isso apenas encarecer o prêço que o PMDB cobrará de Dilma.

  9. Depende

    Está parecendo a visão binária do Argolo! Apenas esquerda ou direita.

    Olhando apenas no âmbito Brasil, entre o lado do povo e do lado do capital, o PSDB é um partido de direita.

    Já no âmbito internacional, entre a nação Brasileira e a globalização, o PSDB faz o seu papel entreguista sob o simpático nome de social-democracia. Existem também entreguistas verdes e, antigamente, havia entreguistas de esquerda, que eram comunistas mandados por Moscou.

    No Brasil, os Demos estão mais á direita que o PSDB, mas, perante a globalização, são mas nacionalistas que estes últimos.

    Mesmo se o PT fosse considerado social-democrata, ele não é entreguista,.

  10. PSDB só tem esse nome para

    PSDB só tem esse nome para fazer um tocadilho com PMDB. É uma costela do PMDB. Chegou à presidência da República completamente por azar. Nunca teve ideologia. Não tem história. Fruto do azar, das circustâncias. Na fundação teve homens que tinham perfil social-democrata e de relevo na política nacional, como Covas, o próprio FHC e Serra. Mas a maior parte eram de centristas por convicção, como Montoro e José Richa ou Bisol, ou centristas por não terem nenhuma ideologia, como era o cado da maioria entre os primeiros filiados. Havia, não obstante, espaço para jovens direitistas engomados como Alckmin. A socialdemocracia do PSDB sempre foi fictícia, um jogo de marketing. Ele foi, na época, em alguns lugares um aliado estratégico da esquerda e da centro-esquerda; esse período acabou em 1994. Poderia ter sido uma ponte do PDT ou do PT em caso de um vitória de um desses partidos em 1989 ou 1994. Mas a história não foi assim. É verdade que mesmo depois de 1994-1995, o PSDB tinha bons quadros e era uma alternativa melhor que a direita nativa (PFL, PTB, PMDB, PPB). Os bons quadros do PSDB, depois de então, foram morrendo ou saindo do partido. Ficou o que ficou.

    Se o PSDB avançou cade vez mais à direita nos doze anos de governo do PT, isso se deve ao oportunismo de seus quadros. O PSDB se alimenta do conservadorismo e da oposição de direita ao PT. Não foi jogado para a direita; fez o caminho que escolheu. Não é realista especualar a respeito de um caminho diferente. O eleitorado do PSDB mudou; antes da reeleição de FHC era o burguês de bom coração ou o profissional liberal ou aquele metido a intelectual que tinha medo da esquerda e que não se identificava com a direita — hoje o eleitorado do PSDB é formado pelo que há de mais conservador e arcaico na sociedade brasileira. Quem era próximo do partido e se deu conta da realidade, não se identificando com a mesma, caiu fora. Há ainda gente, como Arthur Giannotti, que mesmo tendo um pensamento de esquerda se mantém fiel ao PSDB mais por amizade e afeição do que por realidade ou convicção. O grosso do eleitorado, repito, é o que há de mais reacionário e atrasado no país atual. 

    Se a partir da camapnha presidencial e das eleições presidenciais de 2002, o PT se tornou um partido definitivamente de perfil trabalhista e socialdemocrata e se o PSDB, de fato, marchou para a direita, ocupando assim o lugar que até então era do PFL (futuro DEM), PPB (futuro PP), PTB e PMDB, isso não significa que o PT ocupou o lugar que um dia foi do PSDB. O PSDB nunca foi socialdemocrata. Seu programa é eclético, sem clareza em nenhum ponto, a não ser na defesa do parlamentarismo. Suas campanhas presidenciais foram todas de teor social-liberal. Poderia se dizer que o PSDB foi um partido liberal de esquerda. Mas depois da campanha da reeleição de FHC em 1998, todo resquício disso que chamo de “liberalismo de esquerda” desapereceu. Depois da história mal-contadas das provatizações do primeiro mandato (que pode ser considerado mais de centro do que de direita), todo o segundo mandato presidencial de FHC foi de direita. Definitivamente, o PT não ocupou o vazio do PSDB. Todos os governos municiapais e estaduais do PSDB depois do ano 2000 são de direita. O PT, nas suas origens, nunca teve um programa de ideias claro. No exercício do governo, porém, foi desenvolvendo um jeito socialdemocrata de ser e que se consolidou no comando de José Dirceu à frente da sigla. Quem não concordou caiu (ou está ainda caindo) fora. Antes do PT, apenas o PDT e o PSB estavam pertos do que poderíamos chamar de socialdemocracia. O PDT se perdeu depois da deserção e traição de Jaime Lerner e de Garotinho e da morte de Darcy Ribeiro; após a morte de Brizola, então, o partido que foi, a meu ver, o melhor no quadro político brasileiro nas décadas de 1980 e 1990, se tornou um cadáver ambulante. O PSB socialdemocrata, que dava sentido ao nome Partido Socialista Brasileiro, foi o PSB nanico; o partido cresceu como legenda de aluguel, se descaracterizando completamente. PPS nunca foi socialdemocrata; já nasceu como um partido de ex-comunistas convertidos ao liberalismo econômico e ao conservadorismo político, ainda que sendo “à esquerda” no que se refere a temas morais. Além do PDT e do PSB, apenas o PTB de Vargas e de Jango e o antigo PSB podem ser considerados proto-socialdemocratas. Apenas. O PSDB, jamais; seria uma falsificação da realidade considerá-lo assim. O PT está sozinho no campo socialdemocrata, tendo por companheiro único, no quadro brasileiro, o PCdoB. além de algumas figuras isoladas em outros partidos. Esses são, com suas qualidade e vícios, a verdadeira socialdemocracia brasileira, a única e real.

    • Se o PSDB quer dar jus às

      Se o PSDB quer dar jus às letras S, D e B de sua sigla, deveria se autodissolver ou fazer um processo profundo de autocrítica. Assumiu a presidência pela primeira vez por azar. Fez um mandato razoável, mais centrista do que de direita, apesar das privatizações. Se reelegeu por meio da compra de votos e de artimanhas golpistas (mudar a Constituição federal em benefício próprio). FHC se reeelegeu à direita e seus dois primeiros anos de segundo governo foram de direita. Os dois últimos não foram, porque não existiram, o país ficou paralisado, graças à (in)competência do então presidente. Nos doze anos de governo do PT, o PSDB fez pose, foi o partido da mídia. Com uma mídia conservadora em política, reacionária em política social, estadunidense em política exterior e liberal em economia, o PSDB vestiu bem o papel, desempenhando-o com brilhantismo. Acredito que mesmo que o PSDB fizesse tal autocrítica, mesmo assim o único caminho seria a dissolução, o que me parece absurdo e é completametne insano especular sobre algo impossível. Assim, o PSDB nunca poderia  “resgatar seu programa social democrata (sic) e, na oposição, chamar para si a relevante tarefa de ajudar o Brasil a ser mais democrático, justo, empreendedor e laico”.

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