O feitiço que pode virar contra o feiticeiro no palanque eleitoral da vacina, por Álvaro Miranda

Costuma-se acreditar que a política é feita de ações e ideias, mas esquecem-se dos SÍMBOLOS E AFETOS, além dos resultados concretos de POLÍTICAS PÚBLICAS NO TEMPO.

A nurse prepares to administer the Pfizer-BioNTech COVID-19 vaccine at Guy's Hospital in London, Tuesday, Dec. 8, 2020. U.K. health authorities rolled out the first doses of a widely tested and independently reviewed COVID-19 vaccine Tuesday, starting a global immunization program that is expected to gain momentum as more serums win approval. (AP Photo/Frank Augstein, Pool)

O feitiço que pode virar contra o feiticeiro no palanque eleitoral da vacina

por Álvaro Miranda

Já era, mas está cada vez mais cínico e escandaloso, candidato ao descrédito, o palanque eleitoral diário montado pelo governador de São Paulo, João Dória, com a bandeira da Coronavac.

O que representou, inicialmente, um bofetão em Bolsonaro e Pazuello, chamando a atenção midiática para a INCOMPETÊNCIA E FALTA DE LIDERANÇA E CONCERTAÇÃO NACIONAL do governo central, pode virar contra o feiticeiro com tantas vacinas surgindo de diferentes países.

E que me desculpe o prefeito do Rio, Eduardo Paes, mas de nada adianta agora, mesmo que tenha razão, culpar o antecessor pelo avanço da pandemia na cidade. O Sr. agora é governo, não mais candidato. SUSPENDER O CARNAVAL TAMBÉM É POUCO.

TALVEZ UMA MEDIDA CORAJOSA MAIS DURA, agora que o Rio ultrapassa São Paulo no número de óbitos, por alguns dias ou por duas semanas, a exemplo do que outros já fizeram, como o prefeito de Belo Horizonte, Eduardo Kalil, pudesse resultar em benefícios imediatos tão práticos e concretos para a população quanto simbólicos em termos de crédito político futuro para um governo que se inicia.

Costuma-se acreditar que a política é feita de ações e ideias, mas esquecem-se dos SÍMBOLOS E AFETOS, além dos resultados concretos de POLÍTICAS PÚBLICAS NO TEMPO.

O feitiço, que está num caldeirão de sopa contraditória, pode virar contra o feiticeiro inicial – podendo sua primeira “vítima política” provisória acabar vitoriosa caso também as forças democráticas mais à esquerda e os partidos de esquerda não acordem da letargia de sua fragmentação.

Esta sopa contraditória é temperada nada mais, nada menos com os condimentos da EMERGÊNCIA, AGORA COM TANTAS VACINAS sendo produzidas por DIFERENTES PAÍSES dos vários quadrantes do mundo. Essa sopa, que ferve e já poderia ter sido servida para muita gente, como vem fazendo Israel, por exemplo, demora a chegar às amplas parcelas da população brasileira por uma série de tropeços e desmandos de várias ordens.

Tal situação, confusa e ainda temerária, tem uma característica singular e talvez nova no contexto atual do capitalismo, qual seja, uma MULTILATERALIDADE E BILATERALIADE de ações políticas e econômicas até então não tão intensas ou mesmo impensadas. Vários países produzindo vacinas diferentes e negociando e se articulando com distintas nações sem a subsunção a uma “ideologia” ou a um enquadramento protecionista imposto por bloqueios, guerras frias ou híbridas.

E aprofundam-se situações nas quais países negociam diretamente com entes subnacionais da federação. São Paulo mesmo exemplifica. Mas o cilindro da Venezuela penetrando no estreito e dolorido imaginário brasileiro é a simbologia mais eloquente e emblemática desse momento.

Porém, mais do que isso – e confesso temer meus próprios vaticínios –, o feitiço virar contra o feiticeiro é a possibilidade de Jair Bolsonaro faturar – e muito – com a pandemia, mesmo que apenas simbolicamente, com muita gente morrendo, resolvendo dar um cavalo de pau em determinada oportunidade estratégica, esbofeteando Dória e outros.

Isso pode acontecer com o aprofundamento das articulações com Rússia, China, Índia, Estados Unidos e diversos outros estados nacionais, como vêm sinalizando as flexibilizações recentes da nossa titubeante Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

E se Bolsonaro sai bem na foto, daqui para frente, limpando as rasuras recentes das bobagens que andou falando sobre a pandemia? Isolamento político internacional pode não significar isolamento econômico, ainda mais com tantas oportunidades que se oferecem para as multinacionais da indústria farmacêutica.

Como disse, política envolve, além das necessidades e resultados concretos de programas de políticas públicas, também símbolos e afetos das pessoas, no tempo – e no TEMPO CERTO, isto é, OPORTUNIDADE, ainda que catástrofes não esperem cálculos temporais de seres humanos. Afinal, mandatos têm tempo estabelecido. Se as forças democráticas preocupadas com o avanço da pandemia e com o desmonte do país, além das esquerdas todas, ficarem nesse marasmo, o feitiço da pandemia pode se transformar em mágica imponderável.

Falta mobilização nas ruas? Falta sim, e isso tem protegido Bolsonaro. Porém, se depender só das rachaduras e possibilidades dos conflitos no interior das instituições políticas, estamos fritos, ou melhor, cozidos nessa sopa, ou mesmo mortos. A longo prazo todos estaremos mortos, como dizia Keynes.

Pode ser ousado, arriscado, criticável, não sei. Porém, não vejo outro jeito: precisamos ir para as ruas EGIXIR VACINA, EMPREGO, AUXÍLIO EMERGENCIAL, FIM DO TETO DE GASTOS e muitas mudanças na economia.

Como? Imaginemos atos e passeatas, por exemplo, respeitando distanciamento entre as pessoas – MUITO DISTANCIAMENTO no asfalto. Aliás, a modalidade de protestos que imagino, e com a BANDEIRA NACIONAL enfim nas nossas mãos, sem abraço, sem tumulto, sem nada que nos coloque em risco, é uma forma de esticar a própria manifestação ao longo das ruas e avenidas. Ir para as ruas, mas SEM AGLOMERAÇÃO, como essas que acontecem em festas, bares e praias.

Povo em massa rarefeita sai bem na foto e na televisão – e muitas pequenas manifestações aqui e ali fazem bem também para os símbolos que queremos construir de um “nós” contra “eles”. Com a eleição agora dos presidentes das casas legislativas do Congresso Nacional, tiremos o cavalo da chuva se não houver manifestação do povo nas ruas.

Álvaro Miranda é jornalista, poeta, mestre e doutor em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pela UFRJ, com especialização em análise de políticas públicas, autor de cinco livros de poesia, o mais recente “Estranho país que teus olhos já não procuram mais” (7Letras, 2019) e “Tribunal de Contas no Brasil: a falsa cisão entre técnica e política” (Editora da UFRJ, 2020)

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